Da Redação Com Lusa
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O lançamento da quinta edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), em 19 de março, representa a contribuição brasileira para a concretização do “sonho” da unificação da grafia da língua portuguesa que já dura mais de 100 anos, afirmou o acadêmico Evanildo Bechara. Coordenador da comissão de Lexicografia e Lexicologia da Academia Brasileira de Letras (ABL) e um dos responsáveis pela elaboração do Volp, Bechara explica que a reforma ortográfica não é uma reforma da língua, mas sim na língua portuguesa. “O acordo é somente ortográfico, ele não é um acordo de unificação da língua, de modo que as características linguísticas continuam, as fonéticas não vão mudar”, disse à Lusa o filólogo ao citar que apenas a expressão escrita será uniformizada para os oito países lusófonos signatários do acordo. O esforço dos ortógrafos já data mais de 100 anos,desde 1885, quando os literatos Vasconcelos Abreu e Gonçalves Viana, “o grande capitão da reforma científica da língua”, estabeleceram as bases científicas da ortografia. Segundo Bechara, o entrave da vigência de duas ortografias oficiais, a do Brasil e de Portugal, será eliminado, facilitando assim a difusão internacional do idioma. “Clube” “O relógio da história está marcando as horas da ortografia portuguesa e as nações lusófonas não podem perder essa oportunidade histórica de fazer que a língua portuguesa ingresse no clube daquelas línguas de cultura que têm uma só ortografia”. Para ele, ingressar no “clube” das línguas com uma só grafia é atingir não apenas a sua maturidade linguística como também política que expressa a capacidade de chegar a um denominador comum de escrita. “Toda mudança traz um desconforto, a maior característica das línguas é a diversidade na unidade. Se fossemos adotar uma ortografia eminentemente fonética como espelho oficial da pronúncia, para o Brasil nós teríamos, no mínimo, umas quatro ortografias”, assegura. O texto do acordo elaborado em 1990, “depois de tantas reuniões no decorrer de quase um século”, explica o acadêmico da ABL, é simples e vai facilitar a vida dos que falam o português em qualquer região da lusofonia. “Ele apenas trabalhou em dois campos fundamentais: a acentuação tônica e o emprego do hífen que foi sempre um problema tanto em Portugal como no Brasil para o seu correto emprego”, afirmou. Regras Ele explica que no acordo há regras pontuais que contrariam regras gerais do próprio acordo que, por sua vez, já estavam assentadas na tradição ortográfica dos dois países. “As soluções da Academia não são contraditórias ao acordo. O que nós estamos fazendo é uma suplementação de um vazio normativo”, afirmou ao pontuar que os acadêmicos estão a seguir com cuidado especial e “rigorosamente o princípio científico” para não mudar, mas “apenas suplementar os seus silêncios normativos”. Bechara cita o “problema sério” que o texto do acordo gerou: o emprego inusitado da palavra “etc”. “Nós usamos etc para diminuir uma lista de fatos análogos, mas o acordo criou o etc para as excepções”. Diante de um repertório de cerca de 370 mil palavras registradas no vocabulário ortográfico brasileiro, um dos princípios metodológicos utilizados para “operacionalizar as bases do acordo”, segundo Bechara, foi a leitura crítica do acordo e levar em conta o acordo como um texto integral e não somente a regra pontual. Após a entrada em vigor do acordo em Portugal, o filólogo brasileiro acredita que será mais fácil os países africanos de língua oficial portuguesa (Palop) também o adotarem. “A entrada de Portugal indica que o país acerta o passo definitivamente com o acordo que foi estabelecido pelas Academias e com o aval dos cinco países independentes africanos que sempre marcharam com os hábitos linguísticos portugueses”. Este processo, que em seis anos pode ser concluído, fará com que “nós [o Brasil] nos aproximemos mais de Portugal do que de nós mesmos”, citou. “O grande presente que Portugal poderia ter dado ao mundo foi o Brasil, hoje detentor e responsável pelo destino da língua portuguesa”. Antes do lançamento oficial do Volp, no dia 19, a ABL entregou, em Brasília, alguns volumes ao presidente Lula, além dos presidentes do Senado Federal e da Câmara dos Deputados e aos ministros da Educação, Cultura e Relações Exteriores.
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