>>> Num mundo mais instável e imprevisível, Luiz Filho escreve sobre a relação luso-brasileira que ganha um sentido mais prático e estratégico, e pode ser um diferencial real para quem quer crescer com consistência neste ano.
Por Luiz Filho
O ano de 2026 começou lembrando ao mundo que estabilidade é, cada vez mais, um bem escasso. A escalada diplomática entre os Estados Unidos e a Venezuela, logo nos primeiros dias de janeiro, foi o tipo de episódio que muda a temperatura dos mercados e obriga governos e empresas a repensarem estratégias de posicionamento.
A América Latina voltou a ser manchete internacional, e o Brasil — inevitavelmente — voltou ao centro do tabuleiro político e econômico. Nesse contexto, onde cada decisão global tem reflexo direto sobre a confiança dos investidores e a previsibilidade das cadeias produtivas, algumas relações ganham novo valor.
Entre elas, a relação Brasil–Portugal, que deixa de ser apenas afetiva ou histórica e se consolida como uma relação de inteligência estratégica, econômica e cultural. Não é novidade que Brasil e Portugal partilham uma história longa, mas talvez nunca tenham estado tão próximos na prática quanto agora, com o Brasil mantendo superávit robusto e diversificando sua pauta de exportações.
A venda de aeronaves, máquinas, equipamentos e produtos de tecnologia de informação substitui gradualmente a antiga dependência de commodities, enquanto Portugal reforça a exportação de produtos de alto valor agregado: azeites, vinhos, conservas, moda e tecnologia. É uma relação de complementaridade, não de competição.
E o dado mais relevante é outro: as empresas que estão a prosperar de ambos os lados são as que compreenderam que a parceria entre os dois países não é uma herança; é uma oportunidade em construção.
Portugal vive um momento singular na Europa. É o país que melhor equilibra estabilidade política, qualidade de vida e custo competitivo dentro da União Europeia. Tornou-se porta de entrada para empresas latino-americanas que desejam explorar o mercado europeu, e o Brasil, com seu tamanho e diversidade, é o parceiro natural para isso.
Startups brasileiras instalam-se em Lisboa e no Porto não apenas pelo idioma, mas porque encontram um ecossistema maduro, apoio institucional e um acesso imediato a mais de 400 milhões de consumidores europeus. Ao mesmo tempo, empresas portuguesas olham para o Brasil como mercado de expansão real, e não mais como destino exótico: há investimento em energia, hotelaria, agronegócio, tecnologia e gastronomia.
A afinidade cultural e o idioma comum continuam a facilitar os negócios, mas o que sustenta a aproximação agora é a lógica econômica — eficiência, escala e previsibilidade. O turismo é outro pilar desse novo ciclo. Portugal encerrou 2024 com 29 milhões de visitantes internacionais, recorde histórico, e entre eles, mais de um milhão de brasileiros, que já figuram entre os sete principais mercados emissores para o país.
Em sentido inverso, o Brasil recebeu mais de duzentos mil turistas portugueses no mesmo ano, num crescimento expressivo pós-pandemia. Esse movimento não é apenas simbólico: ele alimenta a economia real, movimenta o setor de serviços e reforça o intercâmbio cultural que sustenta o imaginário entre os dois países.
Mais que viagens, o que se observa é um interesse mútuo em experiências, gastronomia, cultura, arte, hospitalidade que funcionam como pontes de negócios. Um restaurante português em São Paulo ou uma marca brasileira com espaço no Porto não são só empreendimentos comerciais; são manifestações de um mesmo fenômeno: a economia da afinidade.
E é precisamente essa afinidade que, quando bem trabalhada com estratégia e comunicação, transforma-se em vantagem competitiva duradoura. Mas o que realmente torna 2026 um ponto de viragem é a maturidade dessa relação diante de um mundo em transformação acelerada.
A inteligência artificial deixou de ser conceito e virou rotina de operação para empresas de ambos os países. Portugal avança em políticas europeias de regulação e ética da IA, enquanto o Brasil adapta suas estruturas jurídicas e educacionais para acompanhar a velocidade da mudança.
Em comum, surge um desafio que é também uma oportunidade: como usar tecnologia para ganhar eficiência sem perder humanidade? Essa questão não é retórica. As empresas que dominarem a automação sem sacrificar autenticidade são as que irão liderar.
Em marketing, isso significa menos campanhas e mais propósito. Significa transformar dados em relacionamento e substituir volume por relevância. É nessa direção que Portugal e Brasil podem criar valor conjunto combinando a disciplina e o rigor técnico europeus com a criatividade e a espontaneidade latino-americanas.
A tecnologia, no fim, só tem sentido quando amplifica a relação humana. Outro vetor que une as duas economias é a crescente importância da sustentabilidade como critério de competitividade. O novo regulamento ambiental europeu obriga as empresas a comprovarem origem, rastreabilidade e responsabilidade socioambiental.
Para o Brasil, maior exportador de produtos agrícolas da América Latina, isso é um alerta. Para Portugal, que se posiciona como país de práticas sustentáveis e energias limpas, é uma vantagem. Quando empresas luso-brasileiras se associam para atender a esses padrões, o resultado é duplo: credibilidade e acesso a novos mercados.
O Prémio Internacional de Sustentabilidade Brasil–Portugal, lançado em 2025, foi um exemplo disso, mais do que um reconhecimento, uma sinalização de que o futuro dos negócios passa por impacto positivo e não apenas por lucro.
Tudo isso acontece enquanto o acordo Mercosul–União Europeia segue em compasso de espera, mas já produz efeitos práticos. A simples expectativa de abertura comercial força empresas a elevarem padrões, revisarem processos e alinharem comunicação a exigências internacionais.
Mesmo que a assinatura formal se arraste, o movimento é irreversível. As marcas que se antecipam, ajustando linguagem, certificações e narrativas, já colhem os frutos. E nesse cenário, Portugal é o aliado natural do Brasil, o tradutor das exigências europeias e o facilitador das oportunidades que virão.
Em sentido inverso, o Brasil oferece escala, talento e energia empreendedora. Há espaço real para construção conjunta, e 2026 deve ser o ano em que essa integração ganha corpo.
Mais do que números ou tratados, o que liga Brasil e Portugal neste início de ano é algo mais profundo: a confiança. Num mundo saturado de volatilidade, onde as promessas mudam com o algoritmo do dia, a confiança tornou-se o ativo mais caro dos negócios.
E confiança não se compra nem se terceiriza; constrói-se com coerência, continuidade e presença. As empresas que compreenderem isso e que souberem traduzir essa relação histórica em estratégia de marca e posicionamento, terão em 2026 uma vantagem que não depende de modas nem de conjuntura.
Porque quando tudo muda depressa, o que permanece sólido é o que realmente vale. E talvez seja essa a grande lição deste começo de ano: o futuro não pertence a quem grita mais, mas a quem inspira mais segurança.
Entre o Brasil e Portugal, essa segurança existe, é palpável e está pronta para ser transformada em negócio, em cultura e em impacto. 2026 será um ano de oportunidades para quem souber olhar para essa relação não como passado compartilhado, mas como presente estratégico.
Porque, no fim, o que o mercado mais valoriza, em tempos incertos, é justamente o que Portugal e Brasil têm de sobra: credibilidade, afinidade e a capacidade de fazer juntos, com visão e confiança, aquilo que muitos tentam fazer sozinhos e falham.
Por Luiz Filho
Publicitário, especialista em Negócios e Marketing, com 25 anos de experiência em definição de estratégias e métodos de comercialização para mercados B2B e B2C, análise de produtos, serviços e ações 360º. Atualmente, atua como Consultor On Demand, desenvolvendo ações inovadoras e estabelecendo parcerias comerciais, pela Wixi Marketing.




