O primeiro-ministro de Timor-Leste anunciou hoje, na sede da CPLP, que o seu país será o próximo a dirigir a organização, explicando que a presidência atual corresponde ao período que estava destinado à Guiné-Bissau.
“O [período de presidência] ‘Pro Tempore’ é o período que pertenceria à Guiné-Bissau. Depois da Guiné-Bissau somos nós. Portanto, o próximo somos nós”, declarou o primeiro-ministro timorense, Kay Rala Xanana Gusmão, aos jornalistas, em Lisboa, quando questionado sobre o destino da próxima presidência rotativa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Sobre a Guiné-Bissau, que presidiu à organização entre agosto e dezembro de 2025, quando foi suspensa da CPLP, e de outras organizações internacionais, devido ao golpe militar de 26 de novembro, Xanana Gusmão respondeu que a organização se está a esforçar para ajudar o país, mas salvaguardou que respeita o princípio da não-interferência.
“Há o princípio de não-interferência, mas deve haver também o princípio de obedecer, seguir os princípios universais de direitos humanos, da Democracia”, declarou o ex-Presidente da República de Timor-Leste.
“Eu não posso dizer quando, mas acredito que os guineenses vão compreender quanto custa a nós perceber e quanto custa a eles viver numa sociedade em que os direitos humanos não são uma regra, uma norma”, declarou.
Para o governante, esta é uma “questão complicada” e de difícil previsão.
“O que temos para dizer é que vai haver todo o esforço para podermos ajudar a mudar a situação ali”, rematou.
Sobre a morte do ex-Presidente de Timor-Leste Francisco Guterres, respondeu que a única certeza que temos na vida é a morte, apenas não sabemos “quando, onde e como”.
Durante a conferência de imprensa que sucedeu à sessão solene com a secretária-executiva, Maria de Fátima Jardim, e representantes permanentes dos Estados-membros junto da CPLP, o líder histórico timorense declarou que esta visita à sede foi ainda mais essencial pelo facto de a organização estar prestes a fazer 30 anos, que se assinalam a 17 de julho.
“Neste aniversário reafirmamos o nosso compromisso com a unidade na diversidade e reforçamos os laços históricos, culturais e políticos que unem os nossos povos de língua portuguesa”, referiu, no seu discurso.
“Hoje, tivemos ainda a oportunidade de refletir sobre a importância do multilateralismo, do diálogo e da cooperação para o desenvolvimento dos nossos povos num contexto internacional marcado por incertezas e instabilidade”, prosseguiu.
Por fim, referiu que foram abordados temas centrais para os cidadãos lusófonos, em particular a mobilidade no espaço da CPLP, e a vontade em aprofundar a união e cooperação económica, bem como a vontade em fortalecer a cooperação para os oceânos e aproximar a CPLP de outras regiões estratégicas do mundo, particularmente com a região da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), de que Timor-Leste faz parte.
A 26 de novembro de 2025, na véspera da divulgação dos resultados das eleições gerais realizadas em 23 de novembro, houve um golpe militar na Guiné-Bissau.
A junta militar proclamou o general Horta Inta-a chefe de um Governo de transição de um ano, com eleições previstas para dezembro deste ano.
Na sequência do golpe, a Guiné-Bissau foi suspensa da CPLP, da União Africana e da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que reclamam o regresso à normalidade constitucional.
O líder do histórico Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e ex-secretário-executivo da CPLP (2008-2010), Domingos Simões Pereira, foi detido e está em prisão domiciliária.
A CPLP é composta por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.
Agenda
Em Portugal, os encontros oficiais da agenda de Xanana Gusmão começaram com uma visita de cortesia, na parte da manhã, ao Presidente da República Portuguesa, no Palácio de Belém e, à tarde, a visita à sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Durante a visita, que termina na sexta-feira, o governante se reúne com o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, com o Procurador-Geral da República, com reitores e diretores de faculdades de Direito, assim como com estudantes da área.
O primeiro-ministro timorense vai ainda receber o Prémio Professor Doutor Jorge Miranda – conhecido como Pai da Constituição Portuguesa – na reitoria da Universidade de Lisboa.
E ainda visita a Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM), a fundação Mário Soares e Maria Barroso e participará numa mesa redonda no secretariado do G7+ e numa conferência do Instituto Português de Direito e do Mar.




