Presidentes participam de entrega Prêmio Camões à escritora Adélia Prado

Foto Filipe Araújo/MinC

O presidente de Portugal ressaltou a importância da obra de Adélia Prado no contexto da literatura lusófona e sua contribuição para o pensamento poético contemporâneo.

“Tive a honra de felicitá-la por este prêmio e de falar sobre o que considero um retrato singular da simbiose dessa potência mundial chamada Brasil. Sua poesia expressa um humanismo cristão singular, permeado por uma poética de interrogação, mas também de esperança. Essa mesma esperança percorre outros poetas, de Cecília Meireles a Manuel Bandeira, passando pelo primeiro Vinícius de Moraes. No entanto, o que há de extraordinário em Adélia Prado é o fato de que, mesmo com as profundas transformações sociais e religiosas pelas quais o Brasil passou, sua poesia permaneceu sempre atual – e mais do que isso, pioneira”, declarou.

“Esse prêmio mostra a importância da língua portuguesa, como língua universal. Como universais somos brasileiros e portugueses. Somos assim, sempre, no passado, no presente, no futuro. Falar de Adélia Prado é falar daquilo que é um retrato único de simbiose dessa potência mundial chamada Brasil”, disse Marcelo Rebelo de Sousa.

Durante a cerimônia de entrega do Prêmio Camões, Eugênio Prado, filho da poetisa mineira Adélia Prado, discursou em nome da mãe, expressando sua gratidão pela homenagem. Ele leu um agradecimento escrito pela escritora, na qual Adélia exaltou a importância da poesia como um reflexo do valor da língua portuguesa e da compreensão humana.

“A celebração da poesia é, e sempre será, um sinal de que um povo preserva o tesouro inestimável de sua língua”, escreveu. A poetisa também fez referência a Luís de Camões, enaltecendo seu legado e a força da literatura na construção da identidade cultural. “Vejo este prêmio, sobretudo, como uma celebração permanente do próprio Luís de Camões, que, com engenho e arte, elevou a língua portuguesa a um grau de perfeição inigualável”, escreveu.

Em entrevista mais cedo, antes da premiação, Eugênio enfatizou que o reconhecimento com o prêmio é uma celebração à poesia mineira e brasileira. “A mãe sempre fala que a poesia é tão importante quanto o pão nosso de cada dia, pois alimenta a nossa alma. Espero que isso possa ocorrer mais e mais vezes em termos de divulgação da poesia, da arte de maneira geral, para o bem do país, para que as pessoas possam ter uma formação cada vez mais humana, voltada para a sensibilidade cultural e artística”, disse.

O presidente Lula destacou em seu discurso a relevância da poesia de Adélia Prado como uma inspiração para a política e a sociedade. “Adélia nos ensinou que ‘a vida é mais tempo alegre do que triste’, uma lição atual e necessária. Em tempos de crises econômicas, catástrofes climáticas, guerras e pandemias, não sucumbir ao desalento é um ato de resistência. É na desesperança, no medo e no ressentimento que viceja o ódio como projeto político. Adélia nos inspira a fazer política como ela faz poesia. As pessoas estão no cerne de sua escrita, assim como deveriam estar no centro de qualquer ação de governo”, afirmou o presidente brasileiro. “Espero que a literatura lusófona continue a enriquecer-se com perspectivas cada vez mais diversas e plurais”.

Já a ministra da Cultura, Margareth Menezes, celebrou a premiação como uma conquista da literatura e da cultura brasileira, ressaltando o impacto da obra de Adélia Prado e a importância de sua voz feminina no cenário literário lusófono. “Este prêmio é um tributo à rica tradição literária do Brasil e à capacidade das escritoras brasileiras de capturar a nossa identidade cultural, as nossas histórias, memórias e criatividade”, destacou a ministra.

O presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), Marco Lucchesi, também comentou a relevância do reconhecimento. “A Biblioteca Nacional do Brasil cumpre seu papel de observatório da memória brasileira e da vida presente. O Prêmio Camões concedido a Adélia Prado, um dos nomes mais altos da poesia brasileira, celebra este olhar difuso sobre a nossa cultura. Adélia traduz o coração do Brasil profundo, seu olhar cotidiano e metafísico, límpido e plural. Drummond descobriu Adélia e, a partir dela, o Brasil descobriu uma parte essencial de si mesmo”, disse.

Prêmio Camões

Criado em 1988 pelos governos do Brasil e de Portugal, o Prêmio Camões é concedido anualmente a escritores cuja obra tenha contribuído de forma significativa para o patrimônio cultural da língua portuguesa. Com um valor de 100 mil euros, financiado igualmente pelos dois países, o prêmio destaca autores pelo conjunto de sua produção literária.

O diploma entregue aos agraciados traz o nome de todos os países de língua portuguesa e é assinado pelos chefes de Estado do Brasil e de Portugal. Entre os vencedores, há escritores do Brasil, Portugal, Moçambique, Angola e Cabo Verde. Na 36ª edição, a homenageada foi a escritora mineira Adélia Prado.

Adélia Prado

Nascida em 1935, na cidade de Divinópolis, Minas Gerais, Adélia Prado é licenciada em Filosofia e iniciou sua carreira literária com o apoio de Carlos Drummond de Andrade. Seu primeiro livro, Bagagem (1976), chamou a atenção pela originalidade e pela força de sua voz poética. Ao longo das décadas, construiu uma obra marcada pelo lirismo, pela reflexão filosófica e por um olhar sensível sobre o cotidiano. Sua trajetória literária inclui prêmios importantes, como o Jabuti, e um reconhecimento crescente em toda a comunidade lusófona.

A autora representou a revalorização do feminino nas letras e da mulher como indivíduo pensante ao incorporar papéis de intelectual e de mãe, esposa e dona de casa. A obra é marcada por uma linguagem simples e direta, porém profundamente lírica e espiritual. Ela aborda temas como fé, amor, família, cotidiano e a condição feminina, sempre com uma perspectiva única que mistura o sagrado e o profano. As páginas escritas pela mineira costumam trazer temas ligados a Deus, família e a perspectiva da mulher.

Foto: Ricardo Stuckert/Secom-PR

Jantar

Após a premiação, as autoridades presentes participaram de jantar oferecido pelo presidente Lula e pela primeira-dama, Janja da Silva, ao presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e primeiro-ministro Luis Montenegro. Também estiveram presentes ministros de estado, parlamentares e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

STF

Mais cedo, o presidente do STF, ministro Luís Roberto Barroso, recebeu o presidente de Portugal para uma visita de Estado à Corte. A reunião, no Salão Nobre, contou com a presença dos ministros Gilmar Mendes, Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Flávio Dino, do procurador-geral da República, Paulo Gonet, do embaixador do Brasil em Portugal, Raimundo Carreiro, e da comitiva portuguesa.

Em uma saudação inicial, Barroso ressaltou os laços histórico, afetivo e acadêmico que unem Brasil e Portugal. O ministro destacou a importância que autores portugueses tiveram para a teoria do direito público democrático, após a redemocratização e a promulgação da Constituição de 1988. Também lembrou da trajetória de Marcelo Rabelo como jurista e professor catedrático da Faculdade de Lisboa e deputado constituinte em seu país.

Rebelo disse que é uma honra para ele estar na Suprema Corte brasileira, “uma instituição que garante o Estado Democrático de Direito”, conforme afirmou. O presidente português também ressaltou que todos os Poderes constitucionais têm um papel “essencialíssimo na construção do Estado de Direito”.

Presidente do STF e ministros recebem presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa - 18/02/2025
Foto: Antonio Augusto/STF

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