Presidente avisa que “modas passam” e pede que se evitem “feridas e melindres” com CPLP

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, intervém durante uma aula na Universidade de Verão (UV) do PSD, numa unidade hoteleira, Castelo de Vide, 27 de outubro de 2025. NUNO VEIGA/LUSA

O Presidente português a apelou hoje a que o país mantenha a sua política de apoio aos países e pessoas da CPLP, avisando que “as modas passam” e “há feridas e melindres que se provocam sem querer”.

Marcelo Rebelo de Sousa participou hoje na Universidade de Verão do PSD, uma iniciativa de formação de jovens quadros que decorre até domingo em Castelo de Vide (Portalegre), tendo aparecido de surpresa no local, quando estava prevista uma intervenção por videoconferência.

Num painel intitulado “As respostas do Presidente”, o chefe de Estado foi questionado sobre a importância que atribui à relação de Portugal com a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), classificando-a como fundamental.

Nesta resposta, sem se referir diretamente à política de imigração do atual Governo PSD/CDS-PP, o chefe de Estado aproveitou para deixar alguns recados sobre o tema.

“O fundamental é conseguirmos gerir as conjunturas, nunca esquecendo o que é estrutural. As conjunturas são como as modas – mais acima ou mais abaixo, mais coloridas ou menos coloridas, mais emocionais ou menos emocionais. Não podemos é, por causa de razões conjunturais, deitar fora uma questão estrutural”, defendeu.

O chefe de Estado avisou que “há melindres e feridas que se provocam sem querer”, considerando “estar no limite” do que pode dizer sobre o tema.

“Em termos de contributo para a sociedade portuguesa, quer no domínio social, quer no domínio económico-empresarial, quer no domínio cultural, o contributo de irmãos nossos de países de língua oficial portuguesa é crucial e vai ser cada vez mais crucial”, alertou.

O Presidente da República defendeu que Portugal vai precisar cada vez mais desses contributos na sociedade, até por uma questão demográfica.

“Não vale a pena divagações genéricas sobre outras realidades mais amplas, mais vagas: temos é que ter o cuidado de quando se trata de comunidades que têm em conjunto connosco esse universo que se chama CPLP de estarmos atentos e pensarmos um bocadinho no médio e longo prazo”, disse.

Marcelo Rebelo de Sousa disse que espera “viver o suficiente” para daqui uns anos “esta moda estiver passada” e “se perceber como foi boa ideia não tocar nesse estado estrutural da nossa política portuguesa”.

O Presidente da República pediu a fiscalização preventiva do diploma que pretendia alterar o regime jurídico de entrada, permanência, saída e afastamento de estrangeiros do território nacional, com o Tribunal Constitucional a ‘chumbar’ cinco normas da lei, que agora terá de ser reformulada pela Assembleia da República.

Mandatos

Num painel intitulado “As respostas do Presidente”, o chefe de Estado foi questionado sobre o que considera que correu pior ou melhor nos seus mandatos desde que foi eleito em 2016, considerando que acertou “em bastantes coisas”, mas também falhou noutras.

Sobre aquilo que pensa ter corrido melhor, o chefe de Estado disse ter tentado “fazer os impossíveis” para garantir a estabilidade política, apesar das três dissoluções da Assembleia da República que fez no seu segundo mandato.

“Isso foi o que correu melhor mesmo quando não correu bem, porque não se traduziu necessariamente em haver soluções governativas que durassem os dez anos”, afirmou, lembrando que conviveu com executivos do PS durante mais de oito anos e, até final do seu mandato, haverá outra solução liderada pelo PSD “por menos de dois anos”.

Ainda assim, Marcelo Rebelo de Sousa congratulou-se por, nas eleições posteriores às dissoluções, o povo ter dado “sempre razão” à decisão do Presidente com a sua votação nas urnas.

Quanto ao que correu pior, incluiu matérias como a capacidade de renovação do sistema político, da administração pública ou o distanciamento das pessoas em relação aos políticos, embora salientando que as responsabilidades foram partilhadas com “outros órgãos de soberania”

“Digamos que, para aquilo que eu tinha pensado e sonhado em alguns momentos, de facto aquilo que foi possível fazer ficou aquém do que eu tinha pensado e sonhado realizar”, disse, acrescentando que tal se acentuou num segundo mandato.

O chefe de Estado repetiu que tinha pensado fazer apenas um mandato, mas considerou “não podia dizer que não” à recandidatura em 2021 quando se vivia “a pior fase da pandemia da covid-19”.

“Ninguém compreenderia que o responsável saísse. Mas quando fiquei, fiquei com a certeza absoluta que o que iria suceder depois ia ser um fator cumulativo do desgaste do sistema”, assegurou.

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