Noémia de Sousa/100 anos: Obra da poeta cresce no Brasil mas é esquecida pelos jovens em Moçambique

Foto divulgação

Especialistas defendem que a obra da poeta moçambicana Noémia de Sousa tem um forte impacto no Brasil, enquanto em Moçambique enfrenta o risco de esquecimento entre as novas gerações devido a falhas no ensino.

“Os jovens têm resgatado a obra, falado da Noémia e declamado os seus poemas no Brasil”, declarou o escritor moçambicano Nelson Saúte, sublinhando que o livro “Sangue Negro”, coletânea de poemas publicada em 2001, tornou-se num objeto de estudos académicos.

Já a investigadora Fátima Mendonça observou que o foco das dissertações e ensaios no território brasileiro destaca sobretudo a dimensão de género.

“Há muito aquela visão da literatura feminina e da literatura feminista, e a questão da mulher, portanto muitos trabalhos vão por aí”, referiu Fátima Mendonça.

Em Moçambique, terra natal de Carolina Noémia Abranches de Sousa, conhecida como Noémia de Sousa, a poeta “já se constituiu quase em mito”, sendo “nomeada sem que, quem a nomeia, sequer conheça a poesia dela”, observou a investigadora, acrescentando que a autora “surge como uma espécie de bandeira”.

“Mesmo que já não sejam lidos, [os poemas] estão sempre ali para representar qualquer coisa, e essa qualquer coisa é por um lado uma certa rebeldia e por outro uma ligação ao projeto da independência”, explicou Mendonça, lamentando que esta representação esteja “a ficar mais diluída para as novas gerações” e que a autora, que foi “África da cabeça aos pés”, esteja “a ser muito maltratada” no ensino.

“Não é possível alargar o conhecimento de uma literatura nacional se ela não for estimulada a partir da escola”, sublinhou a académica.

A investigadora lembrou que a literatura moçambicana foi promovida no pós-independência até à reforma curricular de 1987, mas alertou que, “ultimamente, isso é muito descurado”.

Para contrabalançar esta lacuna, Fátima Mendonça destacou o papel determinante dos clubes de leitura que surgiram em instituições e associações de norte a sul de Moçambique.

“São esses clubes de leitura que estão a fomentar a divulgação dos autores moçambicanos, nomeadamente Noémia de Sousa e José Craveirinha”, disse.

Por sua vez, o académico Francisco Noa defendeu que as novas gerações correm o risco de se tornarem “órfãs de memória e referências”, o que afeta tanto a identidade como a “soberania sociocultural” para “encarar o futuro com esperança”.

Ainda assim, Noa realçou o esforço contínuo de professores, estudiosos e de escritores mais velhos no diálogo intergeracional para manter viva esta herança literária, evocando nomes incontornáveis como José Craveirinha, Rui Nogar e a própria Noémia de Sousa.

Questionado sobre a atualidade dos poemas de Noémia de Sousa para os jovens de hoje, Francisco Noa afirmou que estes autores “não escreveram só para o seu tempo”.

“A gente lê a poesia de Noémia, do José Craveirinha [ou] de Rui Nogar, (…) e é uma escrita que está muito virada para o futuro, daí muito a dimensão utópica que eles exploram em relação aos tempos que viriam”, concluiu, lembrando que estes criadores continuam a ser profundamente “preservados, acarinhados e respeitados” no panorama literário.

Nascida Carolina Noémia Abranches de Sousa, em 20 de setembro de 1926, em Lourenço Marques, Noémia de Sousa, cem anos depois, é considerada a “mãe dos poetas moçambicanos”.

Mia Couto

 O escritor moçambicano Mia Couto recorda a poeta e jornalista Noémia de Sousa como uma mulher “delicada e frágil”, mas simultaneamente firme e sólida, que tinha uma força que nenhuma polícia podia prender e que “nenhum exílio podia apagar”.

“Conheci-a em pessoa depois de ela já viver em mim como uma heroína. E não houve desilusão. Ela era exatamente como a sua poesia: delicada e frágil, mas, ao mesmo tempo, firme e sólida. Pessoa e poesia partilhavam a mesma dualidade: eram água e margem, onda e rocha, afago e lâmina”, diz Mia Couto, em entrevista à Lusa.

Ela iniciou-se no jornalismo em 1956 e, após a independência de Moçambique, fixou-se em Lisboa, onde trabalhou na área noticiosa, incluindo na Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP), que esteve na origem da atual agência Lusa. Morreu em 04 de dezembro de 2002, em Cascais, Portugal, deixando como principal obra de referência o livro “Sangue Negro”.

Mia Couto recorda a convivência que manteve com Noémia de Sousa durante os anos em que esta viveu no exílio.

“Engano da ditadura colonial: depois de sair da sua pátria Noémia permaneceu ainda mais dentro em Moçambique. Confesso que o meu anseio competia com o receio quando a vi pela primeira vez em 1989, no primeiro Congresso dos Escritores de Língua Portuguesa. Esse encontro foi uma das grandes dádivas do meu deambular pelo mundo. Ali estava ela com o seu modo de caminhar como quem receia magoar o chão, os cabelos já grisalhos presos com ganchos sem qualquer vaidade”, recorda.

Apesar dos anos de perseguição pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado/Direção-Geral de Segurança (PIDE/DGS), que a levou à prisão em Moçambique, Mia Couto diz que, quando a conheceu, encontrou nela uma forma de estar simultaneamente “antiga e inaugural” e uma poesia que não pedia licença.

“Abria portas, derrubava silêncios, devolvia nome aos que tinham sido condenados a não ter nome. Essa mulher de pequena estatura, a mão trémula segurando o cigarro, permanece em mim como alguém que confirma que a ternura é uma forma de resistir, a gentileza é um modo de derrubar a injustiça”, afirma.

“E era assim que Noémia enfrentava um regime que tinha a ilusão de poder apagar a sua voz e varrer a sua inspiradora presença. Na sua aparente fragilidade havia uma força que nenhuma polícia podia prender, nenhum exílio podia apagar, nenhuma distância podia diminuir. Noémia sabia dessa força e ela própria se descreveu no poema denominado ‘Aforismo’, em que lembra um momento em que esteve detida pela polícia política fascista”, acrescenta.

O escritor diz que, quando recorda Noémia, pensa numa “mulher que carregou Moçambique dentro da voz” ou então na Catembe, onde nasceu, e na Mafalala, nas casas de madeira e zinco, nos caminhos onde a história se escreveu antes de poder ser escrita nos livros.

“Noémia de Sousa resiste aos elogios póstumos que a querem converter numa estátua. Ela está viva. É uma irmã mais velha dos poetas, uma claridade que nos conduz quando tentamos dizer o que somos”, afirma Mia Couto, sublinhando que a escritora tinha uma voz quase sussurrada e um sorriso “quase triste”.

São conhecidos 46 poemas de Noémia de Sousa, escritos entre 1948 e 1951 e publicados em vários jornais da época, incluindo o histórico “O Brado Africano”, embora a sua reunião numa única obra só tenha acontecido em 2001, com a publicação de “Sangue Negro”.

Escritora, tradutora e jornalista, colaborou com diversas publicações. Em Moçambique, escreveu para “O Brado Africano”, “Moçambique 58” e “Itinerário”; em Angola, para a revista “Mensagem”, da Associação dos Naturais de Angola (Anangola), e para “Notícias do Bloqueio”; em Portugal, para a “Mensagem”, da Casa dos Estudantes do Império; e, no Brasil, para a revista “Sul”.

Em 04 de dezembro de 2002, a poeta moçambicana morreu em Cascais, Portugal.

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