Livro sobre a História dos Judeus destaca a fuga de Lisboa no século XVI

Judeus em um casamento judeu. Foto David Berkowitz from New York, NY, USA

Da Redação
Com Lusa

As perseguições contra os “cristãos novos” em Portugal no século XVI originaram a criação da primeira rede de fuga solidária, financiada e estruturada entre membros da comunidade judaica na Europa.

No livro “História dos Judeus – Pertença (1492-1900)”, o historiador britânico Simon Schama, refere que os mercadores judeus de Lisboa fundaram a primeira rota organizada de fuga contra as perseguições.

“Se se sentiam desesperados, não estavam sós. Em Lisboa e em Antuérpia, um consórcio de mercadores de pimenta e de especiarias, os mais ricos dos cristãos-novos portugueses, contribuiu para um fundo de poupança destinado a ajudá-los na sua viagem e a ultrapassarem as piores situações”, escreve o historiador.

Schama frisa que a solidariedade dos judeus, “dos ricos para com os pobres”, dos que viviam em segurança para com os que soçobravam na insegurança, “é agora um truísmo da História”, mas foi a partir de Lisboa, no início do século XVI, que se tornou organizada e sistemática.

“Os príncipes do comércio da pimenta que formavam o comitê de salvação tinham voltado a sua inteligência comercial para uma autoestrada transcontinental que era uma via de escape: uma corrente de navios, barcaças, alojamentos, carruagens, cocheiros e cavaleiros, da costa atlântica portuguesa até aos portos ingleses e depois através do Canal da Mancha para a Flandres, seguindo para sul já em terras de França e na Renânia, pelas passagens dos Alpes, a caminho do Vale do Pó”, explica.

O autor indica que apesar de a Inquisição não ter sido autorizada a iniciar as investigações sobre os cristãos-novos em Portugal senão em 1536, “já se esperava, cinco anos antes, que isso acontecesse”.

O livro relata que “como pequenos animais noturnos a emergirem de tocas, as figuras sussurrantes e cobertas de capas iam para os cais do rio Tejo” os judeus levavam consigo apenas aquilo de que precisavam para a viagem de duas semanas para a Antuérpia.

“Eram pessoas chamadas Gomes, Dias, Lopes, pessoas que sabiam que, em tempos, tinham sido Cohen, Levi, Benveniste e precisavam de sair de Portugal antes de poderem ser apanhadas pelas mandíbulas brutais da Inquisição”.

No livro, o historiador que recorda o massacre de dois mil judeus, na Páscoa de 1506, em Lisboa, por populares e marinheiros estrangeiros “impelidos por frades dominicanos que habitualmente chamavam ‘judeus’ aos cristãos-novos”.

A chacina de Lisboa não foi evitada apesar da decisão de que não haveria investigações à fé dos cristãos-novos (incluindo à comunidade judaica expulsa de Espanha em 1492) para tentar fixar “a população de marranos” em Portugal.

A trágica “dispersão” dos Judeus da Península Ibérica já tinha sido aprofundada no final do anterior volume (“História dos Judeus – Encontrar as Palavras 1000 A.C. – 1492 DC”).

A segunda parte, publicada este mês em Portugal, continua a investigação sobre o percurso dos judeus obrigados a abandonar Lisboa, mas que acabaram por encontrar, por exemplo, novos problemas com os portugueses a Oriente: em Cochim e em Goa onde já tinham estabelecido sinagogas.

“Mal os portugueses puseram o pé em terra na costa ocidental da Índia onde conquistaram Goa, começaram logo a ouvir-se queixas sobre o número de judeus e de cristãos-novos suspeitos e que se dedicavam ao comércio de pimenta e de especiarias”, escreve Simon Schama sublinhando a posição do vice-rei Afonso de Albuquerque que pediu autorização ao rei para “exterminar os Judeus, um a um, à medida que são encontrados”.

Também nas primeiras décadas do século XVII, “uma colônia pequena, mas florescente de judeus portugueses que se tinha estabelecido no Senegal (Senegâmbia) é deparada com novas perseguições, numa altura em que o poder português fazia parte da monarquia espanhola (1580-1640).

A violência exercida na costa ocidental africana acabou por fortalecer a presença dos judeus portugueses na “república holandesa” a partir de 1609, durante o período de tréguas entre os Países Baixos e o reinado de Filipe II.

A comunidade judaica estabelece-se permitindo a obtenção de vantagens comerciais que abrangeram os oceanos Atlântico e Índico a partir dos Países Baixos onde já anteriormente se destacou a família de Diogo Mendes que ganhou espaço na primeira bolsa de valores do mundo, a partir de 1531.

A comunidade ganhou raízes, abriram-se sinagogas e alguns dos judeus senegambeses e os seus filhos mestiços mudaram-se para a nova Jerusalém, Amesterdão.

“Um desses mulatos, Moisés de Mesquita tornou-se um dos pilares da comunidade portuguesa de Amesterdão”, escreve o autor na primeira parte deste segundo volume de “A História dos Judeus” onde são amplamente aprofundadas as questões relacionadas com os judeus de Portugal.

A história geral de Simon Schama prolonga-se até 1900 destacando a presença dos judeus no centro da Europa e detalhando o início da presença da comunidade no continente americano, assim como as referências ao Caso Dreyfus, em França.

Schama, professor de História da Arte na Universidade de Columbia, é autor, entre outras, de obras como “Cidadãos”, sobre a Revolução Francesa; “Futuro da América” e é autor de vários documentários, entre os quais, “Power of Art” da BBC.

O livro “História dos Judeus – Pertença, 1491-1900” (Temas e Debates, 899 páginas) inclui fotografias e um glossário e foi traduzida para o português por Pedro Garcia Rosado.

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