O escritor Valter Hugo Mãe lotou a Embaixada de Portugal em Brasília, na noite de quinta-feira, para lançar ”O Século dos Imbecis”, conseguindo reunir 650 pessoas que o foram ouvir, três vezes a capacidade da sala.
O auditório da embaixada, com 200 lugares sentados, foi tomado por pessoas que não se incomodaram de ficar no chão ou em pé, enquanto outros espectadores se acomodaram no exterior, para assistir à sua intervenção, num grande ‘telão’ montado pela embaixada.
Na sua primeira agenda pública após o Festival Literário de Paraty (FLIP), onde foi o segundo autor mais vendido na edição deste ano, e o primeiro na edição do ano passado, Hugo Mãe falou ao público da sua própria sexualidade e da paixão que herdou da mãe de caminhar por ‘shoppings’.
Na conversa mediada pelo jornalista e escritor brasileiro Edney Silvestre, de 79 anos, não faltou análise sobre desafios do mundo contemporâneo como machismo e o negacionismo, a partir de metáforas de “O Século dos Imbecis”.
De forma envolvente, sem querer entregar muitos detalhes da obra recém-lançada, Hugo Mãe antecipou-se ao público para explicar o motivo pelo qual suas personagens na obra não têm nomes.
“As mulheres, no meu livro, não têm o nome, porque as mulheres historicamente têm sido apagadas, têm sido invisibilizadas, esquecidas”, criticou.
Para amarrar a essa ideia, faz uma crítica ao universo masculino e às “utopias do poder masculino”, ao dizer que o mundo que conhecemos falhou e caminha para o fim da própria história diante de cenário de tantas guerras e intolerâncias.
“Todos os sentidos que os homens propuseram, que o poder masculino propôs, entraram em crise, ninguém mais confia nos destinos, nas utopias que os homens trazem”, avalia.
“É por isso que no meu livro, as mulheres não têm nome, porque elas não vêm contaminadas por um passado que já falhou”, citou ao descrever o poder dos homens como opressor e que fracassou.
Uma saída esperançosa, conforme enxerga para o futuro da humanidade, está no que classificou como utopias das mulheres, das pessoas LGBT e das pessoas negras.
“Como utopia, por definição, não vai ser alcançada, mas é um destino […]. O grande processo de criação dos povos e de sustento dos povos, de manutenção do brio dos povos, é nós caminharmos numa determinada direção a que eventualmente jamais chegaremos, mas nós temos um sentido para o qual caminhamos”, realçou.
“Por isso, as mulheres no meu livro não têm nome, porque elas podem escolher o nome de agora para o futuro. Não vêm sujas do passado”, concluiu Hugo Mãe, arrancando uma salva de palmas do público.
O lançamento do romance ‘virou’ programa de família para os pais da adolescente Valentina Paraski, de 13 anos, que trouxe consigo quatro livros do autor, tendo lido já duas obras, e adorou o autógrafo com desenho de um rosto.
“Estou conhecendo agora, vi na imprensa o lançamento do livro com a sessão de autógrafos”, contou Carolina de Menezes, de 44 anos, mãe da Valentina, ao descrever que adorou o facto de o autor se abrir para o público sobre detalhes da sua escrita e pontos de vista com uma “visão crítica e engraçada”.
O responsável por mostrar Valter Hugo Mãe às duas foi Anderson Angelo, de 52 anos, que trouxe dois livros para serem autografados, ao dizer que se encantou pelo escritor ao ler “O Filho de Mil Homens”.
“Gosto muito da forma como ele descreve a sociedade, e estou interessadíssimo no novo tema que irá falar, sobre imigração”, cita o leitor, após ouvir na palestra do autor detalhes da obra ainda em construção, que tem a temática do racismo vivida por uma família de congoleses.
Mediador da conversa com Hugo Mãe, na embaixada, Edney Silvestre contou à Lusa por que motivo “se sente muito grato por tudo aquilo que Valter escreve”, chegando inclusive a se emocionar ao ler algumas passagens sobre o desejo erótico de uma das personagens.
A frase, repetida algumas vezes, arrancou gargalhadas do escritor português, que disse que não “faz seus livros a pensar” no amigo querido, mas que vai guarda-lo na lembrança para um próximo momento criativo.
“Eu sou grato a todo artista que me traz uma luz para o mundo em que vivo, no meio dessa mistura de trevas e luz, e incompreensões na minha tentativa de caminhar pelo mundo. Alguns desses artistas me dão essa tocha, e o Valter é um deles”, concluiu Edney Silvestre.
A embaixadora de Portugal no Brasil, Isabel Brilhante Pedrosa, que está no país há pouco mais de cinco meses, disse que foi o fato de Hugo Mãe ser sempre muito popular em Paraty e uma “pop star no Brasil”, que lhe chamou a atenção.
Ela conta que, quando esteve com ele na FLIP para uma mesa que tinha início às 10:00, às 06:00 já havia pessoas no local para guardar um lugar para se sentar, sem contar aqueles que esperaram horas por um autógrafo.
“Foi muito bonito ver como um escritor português tem todo este reconhecimento, não só em termos de público, seja na FLIP, seja aqui na embaixada, onde tivemos a casa cheia. As pessoas estão há horas para ter um autógrafo. Mas [há] também reconhecimento da crítica. Deixa-me particularmente feliz”, concluiu.
Duas amigas, mulheres de meia idade, esperaram cinco horas pelo momento do autógrafo, depois de chegaram à embaixada duas horas antes de o encontro começar. Foram as últimas a saír do local, depois de conseguirem estar diante do autor.
“Valeu cada minuto”, contou uma delas à reportagem da Lusa, dizendo adeus de olho no relógio que já passava das 22:30, e a segurar dois exemplares do novo romance.




