ENTREVISTA: Luis Paulo Piassi e a Realidade retratada através da Ficção Científica e da Fantasia

Por Ingrid Morais  

LUIS PAULO PIASSI é professor Associado da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Bacharel e Licenciado em Física pela USP (1990), Mestre em Ensino de Ciências pela USP (1995), Doutor em Educação pela Faculdade de Educação da USP, Livre-Docente em Artes, Cultura e Lazer pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (2012). Orientador do programa de pós-graduação em Educação da Faculdade de Educação USP. Orientador e coordenador do programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais da EACH/USP. Realiza pesquisa em estudos culturais da comunicação e educação em ciências, com foco em ficção científica e fantasia, culturas juvenis e infantis. É líder do grupo de pesquisa INTERFACES – Interfaces e Núcleos Temáticos de Estudos e Recursos da Fantasia nas Artes, Ciências, Educação e Sociedade e do projeto Banca da Ciência.

Mundo Lusíada: O Sr. realiza pesquisas com foco em ficção científica e fantasia. O que é melhor? A realidade ou a fantasia?

Luis Paulo Piassi: Eu faço pesquisa com ficção científica e fantasia em duas vertentes – uma mais focada na educação, que é minha principal área de atuação, e na parte das ciências, e outra mais focada nos estudos de cultura mesmo (estudos culturais). Entendo que a ficção científica e a fantasia são maneiras de retratar a realidade. Não são qualquer outra coisa diferente disso. Nós tivemos um exemplo bastante recente, o Game of Thrones, na qual a personagem principal que tinha um caráter messiânico e que todo mundo gostava de repente se mostra uma pessoa até certo ponto inescrupulosa e que acha que os fins justificam os meios. Ela explica melhor pro público mais amplo determinados conceitos que se você pega uma narrativa realista, às vezes não é fácil evidenciar alguns aspectos. Uma das origens da fantasia são as fábulas. As fábulas gregas, onde você tinha ali pequenas histórias tipo “A Raposa e as Uvas”, que era uma fábula para explicar um preceito moral.

E aí por meio dessa situação, que é uma situação fantasiosa, você didatiza uma situação, exagera determinados aspectos por meio da fantasia e torna mais fácil a compreensão para um público mais amplo. Não há uma dicotomia entre fantasia e realidade. Só existe realidade. Existem formas diferentes de expressar a realidade. Você pode utilizar uma ficção realista como o seriado “Narcos”, o filme “Cidade de Deus” ou o livro “O Cortiço”, que é uma ficção realista, onde procura retratar de forma relativamente fiel determinado contexto, mesmo que as personagens possam não ter existido realmente. Claro que sempre tem um viés, sempre tem a ideologia por trás, o ponto de vista dos autores, de quem produziu, e nesse sentido ela também tem um perfil didático, mas para explicar determinados aspectos conceituais e tudo mais, às vezes a fantasia é um recurso mais interessante. Eu acho que as duas formas não são contrapostas, as duas são muito interessantes e válidas. E existe o processo intermediário, que é quando a fantasia e a realidade se misturam, como é o caso do realismo fantástico do Gabriel Garcia Marques, conhecido como realismo fantástico justamente porque ele traz elementos do fantástico dentro de uma ficção que se aproxima muito de um contexto realista mais clássico. Existe a ficção realista e existe a ficção de fantasia. Ficção cientifica é uma forma de ficção de fantasia. Apenas isso. Ela é um tipo de fantasia específica.

ML: Nesse ano vimos “Pantera-Negra” receber sete indicações ao Oscar 2019, incluindo a de Melhor Filme e “Vingadores: Ultimato” ocupar a 2ª posição entre as 10 maiores bilheterias da história. Como explica o crescente fenômeno de filmes de Super-Heróis em Hollywood?

LP: É uma questão muito interessante realmente. Eu não saberia dizer qual é a razão do interesse crescente nos super-heróis. Eu iria talvez para uma chave de que essas personagens fortes, que tem poderes sobrenaturais, sempre tiveram bastante apelo popular. Isso vem desde as epopeias gregas, mitologias, e me parece que ao longo do século XX a cultura visual se estabeleceu de uma maneira bastante intensa e os quadrinhos conseguiram construir uma imagem, vários ícones, que se fortaleceram ao longo do século XX e na passagem para o século XXI, com o advento das graphic novels você tinha uma qualidade gráfica maior, e aquele público que era adepto dos quadrinhos quando criança ou adolescente, passou a consumir esse produto mais elaborado, que talvez tenham formado um certo núcleo de aficionados e aficionadas pelo super-herói. Sinto que essa qualidade gráfica também favoreceu o cinema. Transpor isso para o cinema. As histórias foram tornando-se sofisticadas. Eu sinto que a ficção científica como um todo, a mais popular, a mais voltada para o público geral, e não aquela de nicho, passou por um processo de “cientifização”. As pessoas querem uma coisa detalhada. As pessoas querem entrar fundo nos aspectos das coisas, então, quando você pega um escritor, eu vou dar um exemplo de um escritor, como é o caso do Michael Crichton. O Michael foi o roteirista do primeiro seriado médico de sucesso que é o “Plantão Médico”. Essa série mostrava a realidade de uma maneira bastante detalhada. E os livros do Michael também começaram a produzir textos cada vez mais detalhados. Temos também, por exemplo, o famoso “Parque dos Dinossauros” – que gerou um filme, que fez e ainda faz muito sucesso, e trabalha determinadas idéias científicas de forma bastante acentuada. Essas narrativas de semideuses sempre tiveram um grande apelo, e aí juntam com determinadas tendências que foram acontecendo na passagem do século XX para o século XXI na mídia, de forma geral, o que eu acho uma fórmula que funciona muito bem.

A Marvel e a DC Comics eram empresas voltadas para os quadrinhos, e viraram grandes conglomerados de mídia. E aí envolve uma série de coisas: brinquedos, filmes, enfim, eu acho que é um tema interessante de pesquisa. Tudo isso que estou falando são hipóteses. Mas eu sinto que esses fatores pesam dentro dessas narrativas e eu acredito que isso vá continuar por um tempo. É um investimento alto, mas que dá um retorno alto também. Quanto mais sofisticado, e parece que mais bem elaborado, mais retorno dá.

ML: O escritor russo Leon Tolstoi ensinou: “Descreva a sua aldeia e você será universal.” Acha que podemos aplicar essa máxima a qualquer tipo de produção artística? E no caso do humor? É possível, por exemplo, um humor brasileiro ser compreendido e apreciado no restante do mundo?

LP: De fato, eu acho que a gente consegue muita coisa por meio de você descrever a sua aldeia e conseguir fazer uma produção artística que tenha repercussão universal. É possível. Mas existe também uma coisa que é a língua. E a língua é uma cristalização de uma cultura. E as línguas são intraduzíveis. Você consegue traduzir até certo ponto. Tem determinadas subjetividades que são impossíveis de transmitir, mesmo não sendo humor, como por exemplo se você ler João Guimarães Rosa e os artifícios que ele realiza com a linguagem ou José Saramago. Quem é falante de português como língua primária sabe que é impossível traduzir aquilo para outra língua. E quanto mais distante for a língua, mais difícil será. O mesmo ocorrerá com o humor de forma geral, pois uma das bases do humor é a língua. Por outro lado, tem determinadas produções que existe uma facilidade de atingir um público grande, e por meio do humor talvez ele não vai atingir um público grande fora do espectro da língua na qual ele foi gestado. Mas para aquelas pessoas que se aventurarem irão aprender muito sobre a cultura do país por meio do humor. Isso leva a uma reflexão: se você imagina: “poxa, se não dá para traduzir o Guimarães Rosa, o que será que eu perco das traduções das outras línguas para a minha? O quanto será que eu perco disso que eu leio de Dostoiévski? E quando estamos assistindo um filme na Tv ou um seriado em inglês legendado, muitas piadas perdem completamente o sentido em português e até a maneira de dizer as coisas, que é uma maneira engraçada, sutil e irônica, não consegue manter o mesmo tom em português. Então eu acho que o humor acaba sendo um convite para ingressar em outra cultura. E assim como qualquer língua é intraduzível totalmente, o humor é muito entranhado no uso da linguagem.

ML: É interessante notar que as gerações mais jovens, em particular, concedem à cultura – ou mesmo ao “espiritual” – uma importância de primeira ordem. E isso com a ajuda da cibercultura. Quais serão as ideias predominantes do mundo cotidiano futuro? E como lidaremos com elas?

LP: Pegando esse contexto todo da cultura e da cultura pop, da indústria cultural, e pegando a linha do que a gente estabeleceu, eu tenho a impressão de que tivemos fenômenos interessantes ao longo dessa virada do século XX para o XXI, por exemplo Harry Potter, que foi um fenômeno de massas impressionante. Quando uma série de literatura infanto-juvenil poderia produzir o efeito que produziu?

E tem questões importantes porque enfim, Harry Potter fala de juventude, dessa passagem da criança para a adolescência, da incompreensão que existe entre o mundo dos jovens e o mundo dos adultos, eu entendo isso. Mas eu sinto que ali também e isso talvez explique muito do que já falamos em cima, eu sinto que os jovens tem procurado e isso tem acontecido de forma bastante acentuada, formas novas de transcendência. Daquilo que vai além do cotidiano imediato. E existem dois caminhos que aparentemente são diferentes, mas não sei o quanto são tão diferentes assim. Um é o lado espiritualista, como você mencionou e o outro, o lado científico. Porque essa questão de conhecer, de saber e de se situar no universo, tem muito a ver com a gnosiologia (conhecimento do todo) e isso pode passar por várias formas de transcendência. Então o interesse tanto por aspectos científicos quanto aspectos espirituais passam por essa busca de conhecimento, de ir além do mundo ordinário, cotidiano normal das coisas. Por que isso tem acontecido? Eu não sei se isso daqui vale para os jovens de um modo geral ou se isso tem valido para determinados segmentos desses jovens, Talvez os segmentos mais intelectualizados, eu não saberia dizer. Eu acho que isso daqui era uma coisa pra ser feito um levantamento realmente do quanto mobiliza esses jovens. Sinto que existe essa vontade de transformação do mundo. E sobre a cibercultura, as pessoas querem saber o detalhe das coisas. Antes de consultar o médico, já pesquisam no Google, querem se informar e saber todos os aspectos das coisas. É nesse sentido que falo de ciência, as pessoas querem se apoderar do conhecimento. E a sociedade da informação atende um pouco isso porque você tem o acesso rápido à informação, embora haja muitas informações falsas e distorcidas.

 

Ingrid Morais é Comunicadora e Advogada especialista em Entretenimento e Mídia.

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