CPLP/30 anos: Restaurantes lusófonos em Portugal são um regresso a casa para os imigrantes

Um prato com chamuças no restaurante "Oliveira's" de Rui Oliveira (ausente da fotografia), durante uma reportagem sobre os restaurantes lusófonos, em Lisboa, 29 de maio de 2026. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

 O sabor dos pratos lusófonos servidos nos restaurantes da Grande Lisboa transporta à terra natal os imigrantes, que chegam a chorar quando identificam certos temperos, os quais os colocam por momentos na cozinha da sua infância.

A propósito dos 30 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), assinalados este ano, a Lusa percorreu restaurantes da Grande Lisboa para perceber como a gastronomia continua a ligar comunidades imigrantes às memórias dos países de origem.

Eleanora Carlota, a proprietária do restaurante são-tomense Cantinho da Nonô, na Amadora, recebe muitas vezes os comensais com as lágrimas nos olhos.

”Há pessoas que se levantam e perguntam-me se me podem dar um abraço; e abraçam. E afirmam: Olha, tu fizeste-me voltar a 30 anos atrás, à comida que a minha avó fazia”.

Para Nonô, 46 anos, o amor é o ingrediente especial servido no seu Cantinho, que abriu em 2019.

À mesa deste restaurante na Damaia não falta o peixe andala, que é o “manjar da casa”, tamanha a variedade de utilizações que este tem na cozinha, do pastel à feijoada, passando pelo patê e o calulu, o prato nacional são-tomense, que é sempre um sucesso neste espaço, onde o pano africano se destaca na decoração das mesas.

A ementa cresceu à velocidade dos pedidos de clientes de outros países lusófonos, que foram sugerindo a cachupa (Cabo Verde), a moamba (Angola), o caril de amendoim (Moçambique), o caldo de peixe (Moçambique), a picanha (Brasil) e pratos portugueses, como o bacalhau à minhota.

No restaurante Mana Gra as refeições não têm horário. Todos e a qualquer hora são bem-vindos àquele espaço que serve comida da Guiné-Bissau, num centro comercial em Massamá, onde se procura comer, mas também matar as saudades de casa.

A proprietária e cozinheira é a Graciete Kattar Madi, 52 anos, que sempre teve mão para a cozinha e que desde 1998, quando veio para Portugal, trabalha na restauração.

Sempre sonhou em ter um restaurante seu, que servisse boa comida do seu país, e arriscou quando todos estavam a fechar as portas, na pandemia de covid-19.

O espaço torna-se facilmente pequeno para os clientes que serve e que vêm de várias latitudes. Mas também estudantes guineenses a viver em Portugal, que não têm oportunidade de comer estes pratos e aqui matam as saudades.

“É um regresso a casa”, afirma Graciete, que gosta de ver os seus clientes a usufruir do espaço, que decorou com coloridos panos africanos, e dispensa publicidade, porque acha que “a melhor propaganda é feita pelos clientes satisfeitos”.

Chama ao seu Mana Gra uma clínica da alimentação, onde se encontra tudo do bom e do melhor.

O caldo mancarra é o mais procurado neste restaurante, com os clientes portugueses a preferirem outro prato guineense: O chabéu.

Cachupa, grogue e ponche de mel são imprescindíveis no restaurante cabo-verdiano O Coqueiro, na Cova da Moura, Amadora.

Maria Patriarca, 70 anos, está à frente da cozinha deste emblemático espaço, que abriu em 1995 e, desde então, é paragem obrigatória de cabo-verdianos, outros africanos, portugueses e estrangeiros.

Mas também de chefes de Estado, de Portugal e Cabo Verde, tendo a passagem de Marcelo Rebelo de Sousa colocado este restaurante no itinerário de muitos comensais.

A cabo-verdiana, natural da ilha de Santo Antão, já perdeu a conta às cachupas que cozinhou e que são seguramente largos milhares, servindo no restaurante e a particulares, grupos e empresas. Todos apreciam, mas este já não é o prato da sua preferência.

Os cabo-verdianos, aliás, optam por outros pratos, como peixe grelhado, bife de atum à moda de Cabo Verde ou bitoque. A cachupa é mais escolha de portugueses e estrangeiros.

Maria Patriarca garante que a receita da sua cachupa é igual à primeira que confecionou e que as medidas são “a olho”. O resultado parece agradar, levando-a a estar ao fogão desde cedo, só parando para comer e só quando os clientes estão já a lanchar.

No espaço gastronómico da associação Casa de Angola, em Lisboa, há pratos que lembram as mães. Isso mesmo contou à Lusa o cozinheiro Paulo Soares, que há mais de 18 anos ali recebe os comensais.

“Quando me dizem que a minha comida transporta para Angola, isso é mais importante do que dizerem que a minha comida está boa”, diz.

E são muitos os que, através de pratos como moamba, calulu, carne seca, funge de peixe frito, são transportados para o país da kizomba.

Paulo Soares, 55 anos, também prefere a moamba da sua mãe, que elege como a melhor do mundo. E entende o gosto que os angolanos, e não só, têm em partilhar a gastronomia e a música angolana, o que fazem com grande frequência neste espaço gastronómico.

O brasileiro Juca Oliveira abriu em 1978 o Brasuca, ao Bairro Alto, quando esta zona fervilhava de intelectualidade, oferecendo pratos com produtos que nem sequer existiam em Portugal, como o feijão preto.

Para conseguir o ingrediente principal da feijoada, o prato nacional brasileiro, Juca Oliveira plantou em Rio Maior cinco quilos, que renderam duzentos quilos e com estes obteve quatro toneladas, das quais três ficaram para a cooperativa que fez a plantação.

Hoje, a feijoada brasileira continua na ementa do restaurante e o seu proprietário, com 88 anos, não mostra intenção de alterar o menu, que é igual desde a abertura.

Os ingredientes são, contudo, hoje mais fáceis de obter, permitindo fazer especialidades como a moqueca de camarão, elogiada pelos estrangeiros como melhor do que no Brasil e mais barata.

Para Juca Oliveira o segredo do sucesso é “cozinhar com amor”.

“A gente gosta de cozinhar, não aldrabamos. Fazemos a cozinha como se fosse para nós”, diz.

No restaurante Oliveira’s, há quem garanta que ao degustar certos pratos é transportado para Moçambique.

O proprietário, Rui Oliveira, 43 anos, segue um negócio que começou com o pai, filho de portugueses, e a mãe, moçambicana de origem indiana.

Estas origens estão refletidas nos pratos que fundem as especiarias (Índia) e o leite de coco (norte da Zambézia) e sobretudo no sarapatel, um prato alentejano que os portugueses levaram à Índia, que seguiu para África e depois para o Brasil.

Caril de caranguejo, arroz de coco, caril de amendoim, camarão frito à zambeziano são alguns dos pratos mais procurados, além do famoso sarapatel.

Alguns contam com ingredientes vindos de Moçambique, que conferem um outro e único sabor aos pratos, mas esta é uma dificuldade.

De Moçambique também chegam as capulanas, que dão cor às mesas, bem como as estátuas alusivas à caça, que enfeitam as paredes.

A Guiné Equatorial e Timor-Leste, que também pertencem à CPLP, não foram incluídos nesta ronda pela gastronomia lusófona, pois atualmente não existem restaurantes dedicados a pratos destes países na Grande Lisboa.

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