Entrevista: 150 anos de história no Grêmio Literário e Recreativo Português de Belém do Pará

Por Vanessa Sene
Mundo Lusíada
2017 é um ano muito especial para o Grêmio Literário e Recreativo Português de Belém do Pará, e para a comunidade luso-brasileira radicada nessa região do Brasil.
A entidade, uma das mais antigas do País, está comemorando 150 anos. Fundado em 29 de setembro de 1867, o Grêmio Literário e Recreativo Português é fruto do desejo de portugueses em criar uma instituição com finalidade cultural a serviço dos compatriotas e dos nativos, segundo a diretoria.
Para marcar uma data tão simbólica, eventos ao longo de todo o ano estão fazendo parte da programação da entidade. Desde o começo de 2017, grandes shows já foram realizados, agregando o selo comemorativo dos 150 anos da instituição, como o próprio lançamento da identidade visual dos 150 anos do clube.
Passaram por essa programação especial a cantora Fafá de Belém, com o espetáculo “Fafá de Belém e as Guitarradas do Pará”, Joelma, Gaby Amarantos, e ainda está por vir a banda Demônios da Garoa (21 de outubro), e o espetáculo “50 Anos de Música – com Toquinho, Ivan Lins e MP4”, no próximo 30 de setembro, mais um show com ingressos esgotados.
O Mundo Lusíada conversou com o atual presidente da instituição, o português Alírio José Duarte Gonçalves, sobre a data histórica e um dos maiores patrimônios de Portugal no Brasil.
“A presença dos portugueses nas terras do Grão-Pará, desde a fundação de Belém, em 1616, tornou-se, desde logo, muito significativa na história do povo paraense. O pioneirismo dos notáveis emigrantes portugueses levou a criação, em Belém, de uma das maiores colônias no Brasil, pela sua pujança econômica e privilegiada posição geográfica, tornando-a um polo de referência para a região amazônica (…). O Grêmio, juntamente com as coirmãs associações portuguesas de Belém, representa, pela sua história, a sua genuína origem lusitana, ao ponto de o ‘Jornal Lusitano’, em 1923, afirmar que ‘penetrar nos amplos salões do Grêmio é como rever páginas da história pátria, é como sentir, em miniatura, o próprio Portugal, entusiasticamente’”, disse Alírio.

150 anos de história em Belém
O presidente também comentou sobre a importância da data não apenas para a comunidade portuguesa, mas para a sociedade local, segundo ele, pelo clube ter sido “instrumento de respeito e manutenção da origem, um espírito congregador e participativo na trajetória e no presente e, uma abertura para o caminho do futuro”.
Em toda sua trajetória, o Grêmio Português esteve ligado às comemorações luso-brasileiras. “A interação com a comunidade portuguesa pode ser resumida pela sua filiação às associações lusitanas da época e às celebrações dos eventos e datas cívicas lusitanas” refere o presidente.
O Grêmio já integrou a Câmara Portuguesa de Comércio e Indústria (1917); Comissão Pró-Portugal (1914); Junta Federativa das Associações Portuguesas (1920), precursora do atual Conselho da Comunidade Luso-Brasileira do Pará, onde as sete associações existentes na região tinham sua representação e era presidida pelo Cônsul de Portugal; Benemérita Liga Portuguesa de Repatriação (1908), que tinha a finalidade de repatriar compatriotas doentes e desempregados que desejassem regressar à terra natal. Além disso, o Grêmio foi sede provisória do Consulado português (1918) e participou do I Encontro das Comunidades Portuguesas e Luso-Brasileiras (1983), realizado em Belém.
Mas tantos anos de história permitiu aos portugueses desta instituição uma interação com a sociedade algumas vezes “singular e incomum” para um clube social, como na época da Lei Áurea. “No caráter cívico, registra-se a participação do Grêmio na campanha da abolição da escravatura do Pará, com a criação da Liga Redentora, na sede do Grêmio, com a finalidade de adquirir fundos para a compra de cartas de alforria para os escravos, onde o Grêmio foi um dos principais compradores”, diz.
“No aspecto educacional, outro exemplo ímpar na história de qualquer entidade social, o Grêmio promoveu o ensino regular em suas dependências. Manteve a Escola Filipa Vilhena, gratuita e destinada ao ensino primário de adultos portugueses e brasileiros, e criou os cursos de formação profissional: Escrituração Mercantil, Guarda-Livros e Contabilista”.
E ainda na esfera cultural, o Grêmio foi uma das maiores referências em exibições de filmes na década de 70, no Salão Nobre da Sede Social, que influenciaram gerações de cinemaníacos com produções brasileiras, portuguesas, americanas, alemães e de outros países, além de iniciativas como a realização do Festival de Cinema Brasileiro (1972), e a 1ª Bienal Amazônica de Artes Visuais e Festival de Cinema Alemão (1973).

Sede e Patrimônio raro
O clube conta com uma sede social e uma sede campestre. Inaugurada em 03 de abril de 1906, à Rua Manoel Barata, 477 na capital belenense, a atual Sede Social do Grêmio é também a administrativa. Com três pavimentos, o prédio conta com a Sala de Portugal, uma espécie de pinacoteca, com efígies de portugueses ilustres nas letras, ciências, artes e navegação e a Galeria de Sócio Benemérito; o Salão Nobre, funcionando como auditório para reuniões, conferências e celebrações cívicas; e a Biblioteca, o quinto Gabinete de Leitura do Brasil, com um acervo de mais de 36 mil volumes, e uma das coleções mais raras do país, 460 obras que datam dos séculos XVI, XVII, XVIII, tendo como o título mais antigo o livro Phila, editado em 1528.
A Biblioteca foi criada no ato de fundação do Grêmio, 29 de novembro de 1867, que recebeu o nome inicial de Gabinete Português de Leitura. “A formação do acervo inicial fundamentou-se na doação de livros pelos associados, na compra direta em livrarias e vendas particulares e, por fim, através de correspondentes do Grêmio, em Lisboa, que eram autorizados a remeter as melhores obras editadas, principalmente de autores portugueses e brasileiros. O atual acervo da Biblioteca, em variedade de títulos, é bastante significativo pela paridade com grandes bibliotecas nacionais e internacionais, como a British Library, ou bibliotecas de universidades reconhecidas, como as de Yale e Cambridge” conta.
O Grêmio assumiu, com “responsabilidade e orgulho”, a manutenção, conservação e organização de todo esse imenso acervo. Atualmente, o apoio desejado é para o “tratamento técnico (limpeza, conservação, restauro e acondicionamento), a digitalização e a acessibilidade universal dos livros raros, dos periódicos do século XIX e de documentos que registram a correspondência entre o Governo Português e o Consulado da Província do Grão-Pará, durante a Revolta da Cabanagem (1836/ 1840) e, por fim, o Livro de Registro de Inscrições do Consulado de Portugal (1858/1950)”.
Já a Sede Campestre, situada à Rodovia Augusto Montenegro, Tenoné, foi inaugurada em janeiro de 1968. “A construção da Sede Campestre mudou o destino do Grêmio e, indiscutivelmente, é a causa atual de sua independência econômica e a garantia de sua existência e continuidade”, relata o atual presidente. Hoje, o clube é frequentado por cerca de 10 mil associados, e vem das mensalidades a principal renda para manutenção de todo patrimônio.
Além do privilégio da sua vegetação – bosques, lago, áreas de mata virgem, igarapé e igapó que é característico da floresta amazônica, o espaço conta com uma diversidade de flora e fauna amazônicas, a presença de macaquinhos, tucanos, garças, mucuras, camaleões, preguiças, passarinhos e outros. A estrutura, no Edifício-Sede, ainda dispõe de Salão de Eventos, restaurante, academia (gratuita para sócios), ambulatório e o espaço de dança; Parque Aquático Infantil, brinquedoteca, e salão de jogos; a Capela de Santo Antônio, para missa e cerimônias religiosas; as Malocas, em torno de toda a Sede, para repouso dos associados; além da Casa de Eventos, para atividades sociais e familiares dos sócios.
Cabe ao atual presidente, Alírio José Duarte Gonçalves, juntamente com toda sua diretoria, recepcionar todos os convidados para os grandes eventos deste ano. Português, casado, empresário, Alírio começou aos 26 anos a exercer mandatos na Diretoria do Grêmio Literário Português.
Acompanhe como foi a semana de comemorações nas próximas edições do Mundo Lusíada.

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