Antonio Pereira Ignácio: O Português que abriu o mercado industrial no Brasil

REPORTAGEM ESPECIAL: Antonio Pereira Ignácio (centro) com dois de seus colaboradores à frente da fábrica Votorantim.

Odair Sene
Mundo Lusíada
As comemorações do centenário de fundação das Indústrias Votorantim S/A chega ao seu final no mês de dezembro de 2018. E pelo fato de termos um português protagonizando o início dessa história valorosa do grupo, a comunidade portuguesa tem acompanhado este momento histórico, e o trabalho de seus diretores, trabalhadores e colaboradores em geral.
É o momento de também recordar um pouco do que fez o fundador de todo esse complexo empresarial, e o imortal Antonio Pereira Ignácio, o português de nascimento que revolucionou a indústria brasileira e foi um exemplo de dedicação como também de humildade.
Até as transformações técnicas implantadas pelo empresário, o Brasil era considerado um país “essencialmente agrícola”. Sua biografia mostra dedicação ao trabalho, persistência no estudo, talento para negócios e muita determinação. Ele nos deixou um pensamento que mostra um conceito de vida: “Felizes são os que podem trabalhar, ganhar e cultivar sua dignidade”.
António Pereira Inácio nasceu em Baltar, distrito da Cidade do Porto, no dia 29 de março de 1874, e faleceu em São Paulo no dia 14 de fevereiro de 1951. Filho de João Pereira Ignácio e Maria Coelho Pereira.
Chegou ao Brasil em 1884, com 10 anos de idade, começou a ajudar o pai numa sapataria na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo. Enquanto ajudava o pai na oficina, à noite estudava para melhorar seus conhecimentos. Quando adolescente (aos 14 anos) vai para São Paulo e já no ano seguinte, para o Rio de Janeiro trabalhar em uma importadora de tecidos de um conterrâneo de Baltar, João Baltar Ferreira, que lhe deu emprego, iniciando assim uma convivência com os negócios, muito proveitoso.
Com o dinheiro que foi economizando, António montou seu primeiro negócio, um armazém na cidade de São Manuel do Paraíso, interior de São Paulo, onde teve também uma sapataria com o pai, e em 1890 mudou-se para Itapetininga. Já no ano de 1895, abre sua primeira sociedade: um armazém de secos e molhados para abastecer os trabalhadores da Estrada de Ferro Sorocabana.
Ele se casa em 1899 com Dona. Lucinda, filha de um grande amigo morto a facadas em uma briga de trabalhadores. No ano seguinte, nasce seu primeiro filho (João), o segundo nasce em 1902 (Paulo), a filha (Helena) nasce em 1904.
Ainda na virada do século, em meio a tantos acontecimentos em sua vida, abriu uma serraria e depois uma indústria de descaroçamento de algodão. Seu pai volta para Portugal não mais retornando. Antonio, já morando na cidade de Boituva, também no interior de São Paulo, deu início ao processo de industrialização de algodão.
Em 1905, ele importa máquinas da Inglaterra para instalar a Fábrica de Óleos Santa Helena em Sorocaba, mas não foi bem sucedido.

A história de Charlotte, uma verdadeira epopeia digna de cinema

Antonio Pereira Ignácio deu neste episódio o maior exemplo de sua determinação e do sentido empreendedor que o fez ser diferenciado no mundo dos negócios e da sua importância no desenvolvimento industrial brasileiro.
No ano de 1906, já com uma boa situação econômica, vai para Charlotte, na Carolina do Norte (EUA), em busca de conhecimentos para renovar seus métodos e equipamentos da sua indústria de tratamento de algodão e produção de óleos.
Essa iniciativa revolucionou a indústria do Brasil, que até aquele momento era considerado somente um “país agrícola”.
A ida e a permanência de Antonio nos EUA foi uma verdadeira epopeia digna de cinema. As indústrias estrangeiras não queriam ceder tecnologia para as empresas brasileiras. Superando todos os obstáculos, e mesmo sem saber falar inglês, o jovem empreendedor desejava aprender as novas técnicas, mas não podia se apresentar como industrial brasileiro.
O jeito foi conseguir um emprego, modestíssimo, como operário comum, na empresa “Wilson North Carolina” em Charlotte.
Sua vida (nesta fase) tinha duas facetas: de dia era um operário normal no trabalho, mas quando terminava ia para um bom hotel, frequentando os melhores restaurantes e teatros. Quando não saía, estudava durante a noite os projetos a serem utilizados no desenvolvimento tecnológico de suas indústrias.
O trabalho desenvolvido como operário de fábrica destacava-se dos demais operários, levando os dirigentes a convidá-lo a chefiar um dos departamentos da empresa. Quando foi chamado para receber a notícia de sua nomeação, Antonio Pereira aproveitou para convidar seus superiores a jantar no melhor hotel da cidade. Surpresos, seus chefes não queriam aceitar o convite, mas acabaram concordando.
Antonio os recebeu, elegantemente vestido, no mesmo nível dos convidados. No momento apropriado, o grande empresário luso-brasileiro deu as explicações dos objetivos da sua ida aos EUA, que era aprender novas técnicas industriais e de gerencia que o Brasil tanto precisava para seu desenvolvimento.
Atingidos os objetivos, era o momento de voltar ao Brasil. Mostrando o seu agradecimento pela oportunidade, pede para que aceitem a devolução dos salários que recebera durante todo o tempo trabalhado, os quais ainda estavam guardados nos respectivos envelopes. Pede também que os valores fossem distribuídos aos seus companheiros mais necessitados.
Ele regressa ao Brasil em 1907, com grandes conhecimentos tecnológicos que, utilizados nas empresas, viriam a proporcionar melhorias na qualidade, produtividade e na gestão, além de uma revolução nos métodos de produção que colocaram o Brasil num novo patamar de desenvolvimento.
Em meio aos acontecimentos nos negócios, seu pai João Pereira Ignácio falece em Portugal onde é sepultado, em 1917.

A Votorantim – E já no ano seguinte, em 18 de janeiro de 1918, Antonio Pereira Ignácio arremata, junto com Nicolau Scarpa, em leilão, a massa falida do Banco União, e cria a “Sociedade Anonyma Fábrica Votorantim”, dando portanto início à companhia que no final de 2018 completa seu centenário.
Em 1920, dia 14 de Agosto, nosso protagonista participa da fundação da Associação Portuguesa de Desportos, tendo ocupado o cargo de “presidente de diretoria” em 1935, quando o clube foi campeão paulista.
Antes, no início de 1924, ele viaja para a Europa para tratar de um problema de saúde da sua esposa Dna. Lucinda. Nessa viagem, sua filha Helena Pereira Ignácio conhece José Ermírio de Moraes com quem se casaria em 1925, ano em que José Ermírio passa a participar ativamente na administração das empresas com total apoio do sogro na expansão dos negócios.
Já no ano de 1939, viaja para a Suíça, fazendo parte da delegação brasileira numa conferência de trabalho e visita Portugal pela última vez. Em 1945, divide a totalidade das suas ações das empresas Votorantim entre seus três filhos (João, Paulo e Helena).
Em 14 de Fevereiro de 1951, Antonio Pereira Ignácio falece em São Paulo.
António Pereira Ignácio foi um competente planejador, grande gestor e industrial de grandes realizações. Foi pioneiro na evolução técnologica das indústrias revolucionando os conceitos técnicos e administrativos. Teve na pessoa de seu genro José Ermírio de Moraes um grande colaborador que seguiu as mesmas diretrizes, inclusive superando as crises de 1924, 1929 e 1930.
Os conceitos de trabalho e administração implantados por Antonio Pereira Ignácio e José Ermírio de Moraes continuariam a ser seguidos pelos seus sucessores, mantendo a grandeza das empresas do Grupo Votorantim até os dias de hoje, quando se comemora o centenário. Depois de José Ermírio de Moraes continuaram seguindo a mesma política administrativa: José Ermírio de Moraes Filho, Antonio Ermírio de Moraes e Clóvis Scripilliti.
No entanto o português António Pereira Ignácio deverá ser lembrado eternamente não só como um grande português mas também como brasileiro, por tudo que ele criou e dirigiu. Foi um revolucionário na implantação de novos processos que deram ao Brasil a condição de iniciar a fase da industrialização.
Esse grande gênio não se limitou ao início com a Votorantim, industrializando produtos de algodão e óleos, primeiros segmentos econômicos onde se notabilizou.
Além das suas três tecelagens, implantou a Cia. Telefônica do Sul Paulista, a Usina de Luz e Força do Pilar, Água Mineral Gasosa “Platina” e a Cia. de Cimento “Rodovalho”, primeira fábrica construída no Brasil em 1892. Posteriormente foram anexados ao Grupo Votorantim indústrias de papel, produtos siderúrgicos e tijolos refratários.
Sob a gestão de seu genro José Ermírio de Moraes e seus netos, José Ermírio de Moraes Filho, António Ermírio de Moraes e Clóvis Scripilliti, foram criadas a Cia. Nitro Química, Cia. Brasileira de Alumínio Indústria e Comércio, a Metalúrgica Atlas e outras mais.
António Pereira Ignácio também demonstrava sua preocupação com o aspecto social dos seus empregados. Foi pioneiro na construção de moradias decentes, creches, escolas, assistência médica, campos de lazer e cinemas, para as famílias de seus operários e colaboradores.
Paralelamente às atividades de negócios, Antonio foi um grande filantropo apoiando entidades no Brasil e em Portugal. A Beneficência Portuguesa de São Paulo se consolidou quando foi presidida por ele. As Santas Casas, além de outras entidades, sempre foram motivo de preocupação do Grupo Votorantim. Em Portugal, houve investimentos na Vila Baltar, onde nasceu António Pereira Ignácio. Foram construídas uma escola e uma creche, que tem o nome de sua esposa Lucinda.
Por tudo o que fez por Brasil e Portugal, António Pereira Ignácio foi reconhecido pelos governos dos dois países recebendo as comendas de maior significado, Ordem Portuguesa de Cristo e Ordem Brasileira do Cruzeiro do Sul. Além de todos os reconhecimentos governamentais, é necessário que as comunidades portuguesa e brasileira mantenham sempre viva a memória desse homem excepcional que, de origem humilde, estudou e se preparou para os desafios da vida, mostrando quanto vale a sobriedade, a força, a energia e a fé de um imigrante.
Sua morte foi sentida não só pelos seus familiares e colaboradores das empresas que criara, mas entre os industriais do país que o consideravam um dirigente inteligente, trabalhador, empreendedor e inovador. A comunidade Portuguesa de então e atual tem um grande orgulho e profunda gratidão por tudo que fez pelos seus dois países: Portugal e Brasil. E sua vida sempre um exemplo para todos os cidadãos dos nossos países.•

“ANTÓNIO PEREIRA IGNÁCIO, OBRIGADO POR SUA VIDA, SEUS TALENTOS, SEUS EXEMPLOS, SUA FILANTROPIA, SEUS DESCENDENTES. A COMUNIDADE PORTUGUESA DEFENDERÁ SEMPRE SEU NOME E SUAS OBRAS, COMO UM IMORTAL.”
(Colaboração de pesquisa, Vital Vieira Curto).

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