Calor extremo de 2026 na Europa será o “novo normal” do futuro

Crianças brincam numa fonte na Expo em Lisboa, durante onda de calor com temperaturas acima dos 40°C. 3 de agosto de 2025. MIGUEL A. LOPES/LUSA

 O calor extremo sentido neste verão em vários países europeus será regra nas próximas décadas, avisam climatologistas sobre os efeitos do aquecimento global, que já mudou o hábito dos europeus, mais atentos às alterações climáticas.

“As ondas de calor não param. Já não aguento mais. Sempre que pensamos que está a acabar, na verdade volta” o calor, afirmou à agência francesa AFP Ayse Gurbuz, de 25 anos, estudante em Lyon (centro-este de França).

Até 19 de agosto, a França já tinha registado 52 dias de ondas de calor desde meados de junho, um recorde quando o verão ainda não terminou e no resto da Europa as temperaturas atingiram recordes absolutos: 45,1 graus em Andújar (Espanha) a 22 de junho, 48,4 graus em Orani (Sardenha) a 19 de julho, ou ainda 42,2 graus na Eslováquia e 37 graus na Dinamarca.

E com o calor surgem mortes. A 06 de agosto, as autoridades portuguesas registaram três períodos de excesso de mortalidade nos últimos meses, com 680 óbitos acima do esperado.

O Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (Insa) e a Direção Geral da Saúde consideram que o padrão observado mostra que a maioria dos óbitos ocorreu em pessoas com 75 ou mais anos, verificando-se um predomínio de causas circulatórias, respiratórias e neoplásicas.

Segundo as duas entidades, os óbitos cuja causa básica de morte foi codificada como exposição a calor excessivo representam apenas uma pequena parte do impacto do calor na mortalidade, uma vez que na maioria das situações o calor funciona como fator desencadeante ou agravante de outras patologias e não como causa básica de morte registada no certificado de óbito.

As alterações climáticas extremas, que incluem períodos de chuva intensa quase tropical, constituem “um lembrete brutal das consequências em cadeia da crise climática, tanto humanas como económicas”, alertou em maio Simon Stiell, responsável pela ONU Clima.

Por toda a Europa, instalou-se um novo hábito: observar com ansiedade o termómetro a subir e ficar atento aos boletins meteorológicos, mas para o climatólogo francês Jean Jouzel, esse vai ser o novo normal.

“O que estamos a viver é aquilo que a nossa comunidade (científica) prevê há cerca de trinta anos”, disse o antigo vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas.

No primeiro dia do verão, os sinais vieram do País Basco e de oito cidades italianas, que entraram em alerta vermelho devido à onda de calor, com escolas fechadas, festivais cancelados e transmissões do Mundial ou fogueiras de São João suspensas.

De meados de junho a meados de agosto, foram registadas mais de 32.000 mortes adicionais na Europa, de acordo com um balanço provisório.

O número de pessoas que sofrem de eco-ansiedade disparou para 2,6 milhões, de acordo com um estudo do Observatório da Eco-Ansiedade.

Do sul da Europa às regiões mais setentrionais, até 12 de agosto os incêndios consumiram cerca de 600.000 hectares.

Em outros locais, surgiu a seca, que transformou paisagens verdejantes em horizontes desolados e, em final de julho, metade do continente estava nessa situação.

Em França, na Suíça, na Áustria e na Eslovênia, a humidade do solo caiu para níveis historicamente baixos.

“Tudo secou de repente. As únicas plantas que cresceram foram a azeda e o cardo”, relatou John Pawsey, um agricultor britânico de 62 anos, perante os seus campos de quinoa queimados pelo sol”.

Grandes rios como o Reno, o Loire ou o Tamisa viram o seu caudal diminuir, centrais nucleares tiveram de parar produção por falta de água e surgiram destroços de navios ou de equipamentos afundados da II Guerra Mundial.

Os lençóis freáticos, apesar de terem sido bem reabastecidos neste inverno, começaram a baixar em França, no Piemonte italiano e em Espanha, obrigando vários municípios a receberem abastecimento de água potável.

Também nos campos, a água já provoca uma falta crua, afetando os rendimentos do milho e do girassol e contribuindo para a antecipação das vindimas e das colheitas.

Mesmo no mar, o termómetro disparou. Em julho, o Mediterrâneo registou a temperatura média da superfície mais elevada de sempre para este mês, com 27,07 °C.

Mas este verão extremo antecipa apenas o futuro, avisa Jean Jouzel.

“Em 2100, há grandes probabilidades de que 2026, se tomarmos esse ano como referência, seja considerado ‘um verão normal’, adverte, pedindo uma “tomada de consciência”.

“É preciso compreender que nos dirigimos para uma catástrofe se não conseguirmos inverter as tendências”, salientou, a partir da sua Bretanha natal, antiga província húmida e atlântica onde o termómetro ultrapassou várias vezes os 40 graus este verão.

Oceanos

A temperatura da água à superfície dos oceanos no mundo atingiu 21,1ºC, em média, no sábado, um recorde absoluto para um dia, devido ao aquecimento global e do fenómeno climático El Niño, anunciou hoje o observatório europeu Copernicus.

O recorde de temperatura superou o estabelecido em março de 2024, de 21,09ºC, numa altura em que o fenómeno El Niño pode ser o mais significativo jamais registado, de acordo com os cientistas.

O El Niño é um fenômeno climático global que surge de variações nos ventos e nas temperaturas da superfície do mar sobre o Oceano Pacífico tropical.

Com este fenômeno natural, que regressa a cada dois a sete anos, as águas de superfície no centro e no leste do oceano Pacífico equatorial aquecem, o que provoca durante meses alterações substanciais nos regimes de ventos, pressão e precipitações à escala global.

O fenômeno climático junta-se a uma tendência de aquecimento dos oceanos, devido à acumulação de gases com efeito de estufa na atmosfera.

O recorde diário registado no mês de agosto é invulgar, assinala o Copernicus em comunicado, citado pela AFP, porque as temperaturas oceânicas globais “atingem geralmente o seu nível mais elevado em março e abril”, no final do verão no hemisfério sul, onde se localizam as maiores áreas oceânicas.

Os oceanos têm um papel regulador do clima ao absorverem 90% do calor em excesso gerado pela atividade humana, sobretudo o uso de combustíveis fósseis, como o petróleo, gás e carvão.

“O recorde é um novo sinal evidente de um oceano sujeito a um stress crescente”, frisou Samantha Burgess, do Copernicus, citada no comunicado.

“À medida que as temperaturas oceânicas continuam a aumentar, os riscos para os ecossistemas marinhos e as comunidades costeiras aumentam igualmente”, acrescenta.

O aumento da temperatura nos oceanos aumenta igualmente o risco de fenómenos meteorológicos extremos, recorda o Copernicus, referindo que um oceano mais quente transporta mais calor e humidade para a atmosfera, o que pode intensificar a precipitação e as tempestades.

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