Algoritmização da Língua: O Brasil não está a “invadir” Portugal, está a salvá-lo da irrelevância digital

Foto LusNIC

Enquanto debatemos se as crianças devem dizer ‘relva’ ou ‘grama’, esquecemos a matemática fria das Big Techs: para a Inteligência Artificial, Portugal é um erro estatístico. Sem a escala de dados do Brasil, a nossa língua seria, digitalmente, um dialeto de nicho.

Por Nuno Nabais Freire

Existe um fantasma que assombra os jantares de família em Portugal. Manifesta-se quando uma criança, criada a “Lucas Neto” e YouTube, pede para ir brincar na “grama” em vez de na relva, ou chama “geladeira” ao frigorífico. Os pais trocam olhares de pânico, os avós abanam a cabeça e os colunistas conservadores escrevem sobre a “colonização inversa”. O medo é palpável: sentimos que a nossa identidade, a norma culta do português europeu, está a ser diluída.

Mas, enquanto gastamos a nossa energia nestas trincheiras sintáticas, estamos a perder de vista a verdadeira guerra. E trago uma notícia que, à primeira vista, pode custar ao orgulho lusitano, mas que na verdade é a nossa maior sorte: o Brasil não está a destruir o português. Na era da Inteligência Artificial, o Brasil é o motor que mantém a nossa língua a correr na pista principal.

Vamos aos factos frios da tecnologia. As Grandes Modelos de Linguagem (LLMs), os cérebros por trás do ChatGPT, do Gemini da Claude e afins,  alimentam-se de dados. Elas aprendem a “falar” ingerindo terabytes de texto disponíveis na internet. É uma questão de volume, de massa crítica.

Portugal é um país de 10 milhões de habitantes com uma pegada digital respeitável, mas modesta à escala global. O Brasil é um continente de 215 milhões de emissores constantes de conteúdo. Para um algoritmo de Silicon Valley, que não tem sentimentos nem nostalgia, a matemática é cruel: sem o peso demográfico do Brasil, a nossa língua teria, nos servidores da Google ou da Meta, a prioridade do búlgaro ou do estónio.

Se hoje podemos abrir um computador e ter uma inteligência artificial de ponta a responder-nos fluentemente em Português, devemos isso à escala monumental da produção de texto brasileira. São os milhões de blogues, posts, teses académicas e notícias produzidos do outro lado do Atlântico que garantem que a língua de Camões seja valiosa para as Big Techs.

O Brasil funciona, involuntariamente, como o nosso “escudo digital”. A sua dimensão obriga o mundo a levar a língua portuguesa a sério. Isto não retira o mérito a Portugal como berço da matriz e guardião da história. Mas numa guerra tecnológica feita de dados, a tradição precisa de volume. E esse volume vem do Brasil.

Portanto, a “invasão” de que tanto nos queixamos é, na verdade, uma garantia de sobrevivência. A tal “algoritmização” da língua não é uma perda de identidade; é a prova de que o Português é uma língua global e não apenas regional.

Portugal plantou a semente no século XVI. No século XXI, é a árvore gigantesca do Brasil que oferece sombra e proteção a Portugal na era das máquinas. Não é uma submissão, é o retorno do investimento feito há 500 anos.

Da próxima vez que ouvir uma criança portuguesa dizer uma expressão brasileira, não entre em pânico. Sorria. Lembre-se que é graças a essa vitalidade tropical que a nossa língua continua a ser uma das cinco mais poderosas do mundo digital, e não uma relíquia de museu, bonita, mas incapaz de dialogar com o futuro.

Por Nuno Nabais Freire

Investigador Patrimonial Cultural 

7 comentários em “Algoritmização da Língua: O Brasil não está a “invadir” Portugal, está a salvá-lo da irrelevância digital”

  1. GEOlíngua, um nome para a língua brasileira.
    27 de junho de 1214, nasce a “Geolíngua” e a Identidade Galega-brasileira.

    LISBOA – O panorama linguístico da lusofonia enfrenta uma nova provocação teórica e histórica. Sob o conceito de “Geolíngua”, surge um movimento que propõe a unificação simbólica e prática entre o galego e o português brasileiro, defendendo que o Brasil, na realidade documental e histórica, fala uma evolução direta do “galego no dialeto português”.

    A Raiz Histórica: De D. Afonso II à “Criação” do Português
    O argumento central da Geolíngua baseia-se na revisão de marcos históricos. Embora o testamento de D. Afonso II (1214) seja simbolicamente o primeiro documento em “português”, o movimento sustenta que a língua de prestígio e uso real da monarquia era o galego.

    A transição oficial teria ocorrido apenas em 1297, quando D. Dinis – ele próprio um poeta que escrevia em galego – oficializou por decreto real o nome “português”. Para os defensores desta tese, o português não seria uma língua distinta, mas sim um “dialeto galego” institucionalizado por questões geopolíticas da época.

    O Brasil e o Conceito de “Pague 1, Leve 2”
    A proposta da Geolíngua para o Brasil é pragmática e fonética. Segundo o mentor do projeto, Roberto Moreno, o “galego-brasileiro” possui uma riqueza fonética superior à do castelhano (citando os 12 símbolos fonéticos, entre orais e nasais, contra apenas 5 do espanhol).

    Essa complexidade permitiria ao falante brasileiro entender naturalmente o espanhol, criando uma forma de bilinguismo orgânico. A Geolíngua apresenta-se como uma alternativa ao “monoglotismo” do inglês, promovendo uma integração ibero-americana onde:

    • O diálogo ocorre na língua materna.
    • A compreensão mútua entre português e espanhol é potencializada.
    • A profissão de tradutor, neste contexto, caminharia para a extinção.

    “A Galiza deu-nos população e língua e, o português não é senão o dialeto galego, civilizado e aperfeiçoado – Alexandre Herculano (1874)

    Conflitos e o Futuro do Movimento
    O projeto Geolíngua não está isento de controvérsias. Originado em discussões iniciadas no Hotel Sheraton em Lisboa em 1996, o movimento enfrentou resistências institucionais que culminaram no afastamento de seus mentores de certos círculos de debate.

    Ainda assim, a data de 27 de Junho ganha força entre os entusiastas como o Dia da Língua Galega – Futura Geolíngua, unindo a memória da Primeira República Galega (1931) à herança documental de 1214. O objetivo final é claro: democratizar o bilinguismo e devolver à língua brasileira a sua consciência de origem galega.

    A proposta da Geolíngua traz à tona um debate fascinante sobre a evolução fonética e histórica que liga o Brasil às suas raízes galaico-portuguesas.

    1 – D. Dinis e a “Oficialização” do Português
    A figura de D. Dinis (1261–1325) é central para o movimento Geolíngua porque ele representa o momento de transição política da língua. Embora o galego-português fosse a língua da lírica e da corte em toda a Península Ibérica Ocidental, D. Dinis tomou uma decisão administrativa estratégica:

    – O Decreto de 1297: D. Dinis oficializou o uso da “língua vulgar” (que, na realidade era o galego) em todos os documentos da chancelaria real, nos notários e na poesia. Foi neste momento que o nome “Português” foi institucionalizado para designar a variante falada no sul do condado, separando-a administrativamente do tronco galego por questões geopolíticas e de afirmação de soberania nacional.

    • O Rei Poeta: Paradoxalmente, D. Dinis é o maior expoente das Cantigas de Amor e de Amigo, escritas num galego “português” refinado, o que reforça a tese de que a separação foi mais política do que linguística.

    2 – Análise Fonética: A Riqueza do Galego-Brasileiro

    O movimento sustenta que o português do Brasil preservou e expandiu uma complexidade fonética que o torna um sistema superior para a compreensão global das línguas românicas:

    • Sistemas Vocálicos: Enquanto o castelhano (espanhol) é limitado a 5 fonemas vocálicos (A, E, I, O, U), o sistema galego-brasileiro opera com 12 símbolos fonéticos fundamentais, incluindo as distinções entre vogais abertas e fechadas e as cruciais vogais nasais.

    • Bilinguismo Orgânico: Esta “abundância de sons” confere ao brasileiro um ouvido treinado. Como o sistema fonético brasileiro contém quase todos os sons do espanhol (e muitos outros que o espanhol não possui), o brasileiro consegue decodificar o espanhol naturalmente – um fenómeno que o movimento chama de “Pague 1, Leve 2”.

    • A “Língua de 1500”: A Geolíngua argumenta que o Brasil não fala o português moderno de Portugal (que sofreu reduções vocálicas severas no século XIX), mas sim uma evolução direta da língua que Pedro Álvares Cabral trouxe – que era, essencialmente, o galego da época.

    Esta visão propõe que, ao reconhecer o Brasil como falante de “Geolíngua”, o país assume a liderança de um bloco linguístico que entende o espanhol sem esforço, eliminando barreiras geopolíticas na América Latina.

    Cá estão alguns depoimentos com peso:

    1. «O certo é que as línguas não podem ter nascido por convenção já que, para se porem de acordo sobre as suas regras os homens necessitariam de uma língua anterior; mas se esta última existisse, por que razão se dariam os homens ao trabalho de construir outras, empreendimento esforçado e sem justificação? » – (Umberto Eco)

    2. O português standard é um superdialeto. – Uma língua é um dialeto equipado com um exército, tem poder político e, pode invadir a área de outros dialetos. Historicamente, foi sempre assim. – Modernamente, diria que uma língua é um dialeto que tem uma televisão. A televisão é mais eficaz do que um exército. – Ivo Castro, Professor catedrático, licenciado em Filologia Românica e doutorado em Linguística Portuguesa

    3. O português vem do Galego – Não é correto, do ponto de vista histórico-geográfico, afirmar, como fazem todas as gramáticas históricas, que “o português vem do latim”. O português vem do galego – o galego, sim, é que representa a variedade de latim vulgar que se constituiu na Gallaecia romana e na Galiza medieval. – Marcos Bagno, Professor, doutor em filologia, linguista e escritor brasileiro.

    4. “O Congresso reafirma a tese de que o galego e o português são normas cientificamente reconhecidas de um mesmo sistema, que engloba as comunidades linguísticas luso-galego-brasileiro-africanas”. – Mª Helena Mira Mateus, … no CONGRESSO SOBRE A SITUAÇÃO ACTUAL DA LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO (1985)

    5. “O nosso idioma é muito mais antigo que a nação. Isto significa que, se nunca Portugal tivesse surgido, esta mesma língua (hoje chamada portuguesa) teria existido sem ele”. – “Se a língua de D. Afonso Henriques algum nome pudesse ter tido, era só este: Galego”

    É preciso que os galegos o entendem… Porque os portugueses, eles, acham, no fundo, no fundo, que Portugal esteve sempre prometido, desde toda a eternidade.

    OLHA, O GALEGO-PORTUGUÊS!
    Uma língua chamada Galego-Português jamais existiu. – Inventou-a, ali por 1900, a grande linguista alemã Carolina Michaëlis de Vasconcelos, quando percebeu que os portugueses jamais conceberiam que o simples Galego tivesse sido, durante séculos, a língua daquele nosso lindo Reino novinho em folha.
    Fernando Venâncio, Professor, filólogo e escritor português, crítico literário e académico.
    6. “O Brasil fala galego no dialeto brasileiro” – O ato de pensar, duvidar e investigar é a base da reflexão científica e, neste âmbito conclui-se que, à semelhança da afirmação de Alexandre Herculano quanto ao português ser um dialeto do galego e, da invenção do galego-português, ali por volta de 1900, poderá se afirmar que a língua do Brasil é o Galego-brasileiro, quiçá, futura GEOlíngua. – Roberto Moreno, investigador, historiador e professor de Filosofia do Direito e do Jornalismo, fundador e presidente da Fundação Geolíngua.

  2. Concordo plenamente com o Nuno Nabais! – Ontem postei um comentário e, espero que seja publicado, pois, o mesmo complementa o texto do Nuno.

  3. Concordo plenamente. É um choque de realidade que muitos preferem ignorar, mas a matemática não tem sentimentos. Se o português é hoje uma língua de trabalho para as Big Techs e não um ‘dialeto de nicho’ como o búlgaro, devemos essa relevância à massa crítica do Brasil. No Templo Profano, tento muitas vezes separar o purismo nostálgico da funcionalidade do mundo real. Preferir o purismo ao custo da invisibilidade digital seria o verdadeiro erro histórico. Excelente análise!

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