Greve dos enfermeiros em hospitais públicos já cancelou quase 5 mil cirurgias

Enfermeiros em greve entoam palavras de ordem durante uma manifestação em frente ao Instituto Português de Oncologia em Lisboa, 12 de dezembro de 2018, TIAGO PETINGA/LUSA

Mundo Lusíada
Com Lusa

A greve dos enfermeiros que decorre desde o dia 22 de novembro em blocos operatórios de cinco hospitais públicos de Portugal prolonga-se até final do mês. Segundo as contas do Ministério da Saúde, entre o início da greve, em 22 de novembro, e segunda-feira, dia 10 de dezembro, ficaram por fazer devido à greve 4.543 cirurgias.

O secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, responsabilizou o Governo pelas consequências da greve dos enfermeiros ao assumir uma “atitude passiva” e continuar “sem chamar os sindicatos para negociar”.

“Num quadro em que claramente há aqui uma falta de resposta às necessidades da população, nomeadamente no que respeita à realização de cirurgias, o Governo está a ter uma atitude passiva”, disse Arménio Carlos aos jornalistas à entrada para uma reunião com os parceiros sociais sobre o Conselho Europeu desta semana.

“Se [a greve] está a pôr em causa a resposta às necessidades das pessoas, isto implica que o Governo chame os enfermeiros e procure retomar rapidamente as negociações para resolver o problema e, não deixar protelar o processo”, acrescentou.

O dirigente sindical frisou que “é preciso que os profissionais sejam respeitados e valorizados” e disse não compreender porque razão o Governo, perante “mais de 4.500 cirurgias que não foram realizadas”, continua “impávido e sereno, sem chamar os sindicatos para negociar e encontrar uma solução”.

Na terça-feira, o primeiro-ministro defendeu não ser aceitável que a greve dos enfermeiros já tenha adiado quase de 5 mil cirurgias programadas, considerando que “ninguém pode morrer pelo exercício do direito à greve”.

Por sua vez, a líder do CDS-PP, Assunção Cristas, acusou Costa de irresponsabilidade por querer virar os portugueses contra os enfermeiros em luta, e de ser responsável pelo “caos” no Serviço Nacional de Saúde. Citou uma realidade marcada por “profissionais exaustos, a darem tudo o que podem”, com enfermeiros, médicos e auxiliares “com equipas cada vez mais reduzidas” e “sempre a ser-lhes exigido cada vez mais, sempre com promessas de que se vai resolver nesse ano, que se vai resolver nos próximos meses e nada é resolvido”, considerou.

Neste dia 12, no hospital Dona Estefânia, em Lisboa, os chefes de equipe de urgência apresentaram a sua demissão alegando “quebra do compromisso” da instituição em contratar mais médicos.

Protesto cruel

A ministra da Saúde classificou como “cruel” a greve dos enfermeiros que dura há quase três semanas em blocos operatórios, considerando que é um protesto que “se vira contra os mais fracos”, disse na comissão parlamentar de Saúde, onde foi ouvida nesta quarta-feira.

Marta Temido mantém a expectativa de remarcar as cirurgias entretanto adiadas e de as realizar durante o primeiro trimestre do próximo ano, preferencialmente em hospitais do Serviço Nacional de Saúde ou encaminhando para os privados, caso se ultrapassem os tempos máximos de resposta garantidos para os doentes em causa.

A ministra afirmou que o Governo assume os problemas que tem de enfrentar com dois grupos profissionais específicos no setor: os enfermeiros e os técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica.

“Temos problemas e não os escamoteamos”, disse aos deputados, mas garantiu que o Governo mantém a disponibilidade de diálogo com as estruturas “que querem dialogar”.

Aliás, a ministra referiu que só este ano foram realizadas mais de 30 reuniões com os sindicatos dos enfermeiros e mais de 20 com os sindicatos que representam os técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica.

Já no dia 11, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa voltou a pedir ponderação a quem faz greve, e que reflita sobre o eco das reivindicações junto dos portugueses.

“Quem exerce o direito à greve exerce um direito constitucional, legítimo e pensa que deve ter o maior eco possível para fazer vingar os seus pontos de vista. Mas deve medir se nesse eco não há uma reação da sociedade, pelos milhares de pessoas afetadas, sobretudo crianças” e se esse eco “não começa a ser de alguma maneira negativo”, disse Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém, em Lisboa.

O Presidente foi questionado sobre as greves que têm sido marcadas por trabalhadores em vários setores, sobretudo na saúde.

“Essa ponderação é preciso [fazê-la] a cada momento, sabendo julgar se um processo muito longo, muito intenso e que atinge muita gente, é um processo que é compreendido facilmente pela sociedade portuguesa, ou não é. Essa ponderação tem de ser feita”, disse Marcelo Rebelo de Sousa.

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