Da Redação
Com Lusa
A onda de calor que afeta várias zonas da Europa, responsável por fogos florestais mortíferos e culturas destruídas, pode agora fazer mais vítimas: os peixes de água fresca.
Algumas regiões na Alemanha sufocam com o mercúrio a atingir os 39º graus Celsius (ºC) e a agência meteorológica alemã a avisa que o recorde de temperatura registrado na Alemanha (40,3ºC) pode ser batido na quinta-feira.
Rios como o Reno e o Elba já absorveram tanto calor que os peixes estão a começar a sufocar.
“Estou à espera de uma tragédia na próxima semana”, disse Philipp Sicher, da Associação de Pesca Suíça à agência alemã, DPA.
Em Hamburgo, as autoridades recolheram quase cinco toneladas métricas de peixe morto ao longo do fim de semana, informou a DPA. Os bombeiros começaram a bombar água fresca para lagos e reservatórios na tentativa de elevar os níveis de oxigênio.
Cientistas asseguram que os níveis recorde de calor que se têm registrado na Europa, mas também na América do Norte e partes da Ásia, apontam para as alterações climáticas, provocadas pelo homem, e podem ser mais comuns no futuro.
Várias centrais nucleares na Alemanha começaram a reduzir a produção de energia, porque os rios usados para arrefecer as instalações estão demasiado quentes.
Os baixos níveis de água, por outro lado, também dificultam a navegação, tendo mesmo sido imposta uma proibição total para as águas do Oder, na Alemanha Oriental.
Entretanto, a Associação dos Agricultores alemã pretende que o Governo ajude os seus associados, com mil milhões de euros, para cobrirem as perdas da colheita deste ano.
O presidente da associação, Joachim Rukwied, especificou que a colheita do trigo deve ser 20% inferior à do ano passado e a de colza em 30%, o que atribuiu à escassez de chuva nas últimas 12 semanas, relatou a DPA.
Um grupo representante de produtores de batata já fez saber que espera colheita inferior em 25% à de 2017 e avisou que as perdas podem provocar a subida dos preços, mas também a redução do tamanho das batatas fritas, porque as batatas são mais pequenas este ano.
Os oceanos também estão a ser afetados. As autoridades polacas, na semana passada, proibiram o banho em 50 praias ao longo da costa báltica, depois de o tempo quente ter provocado o crescimento de uma bactéria tóxica nas águas excecionalmente quentes. A temperatura da água no Mar Báltico excedeu os 23ºC em alguns locais.
Os nadadores-salvadores avisaram os veraneantes em praias quentes e arenosas – de Swinoujscie, no oeste, a Gdynia, no leste – para não entrarem na água, onde se desenvolveram colônias de cianobactérias, que representam uma ameaça para a saúde.
Próximo de Wildeshausen, no norte da Alemanha, um grupo de 20 crianças e adolescentes teve de ser assistido por médicos, na segunda-feira à noite, por o ar condicionado do autocarro em que viajavam ter avariado.
Na cidade suíça de Zurique, os cães-polícia têm de usar sapatos especiais para impedir que queimem as patas no chão tórrido. As autoridades suíças também cancelaram os tradicionais fogos-de-artifício em algumas áreas, durante a celebração do feriado nacional de quarta-feira, citando o elevado risco de fogos florestais.
Através da Europa, os fogos florestais já causaram 92 mortos na Grécia e uma destruição material importante.
Na Península Ibérica estão previstas temperaturas de até 45ºC, a partir de quarta-feira, e as autoridades estão a preparar-se para subidas do mercúrio para valores superiores até domingo.
Na Espanha, 27 das 50 províncias do país estão em ‘risco extremo’ de calor, a partir de quinta-feira, anunciou o serviço meteorológico local.
Em Portugal, a Direção-Geral de Saúde preveniu para a poeira transportada pelos ventos da África do Norte e as autoridades já asseguraram que 11 mil bombeiros e 56 meios aéreos estão em estado de prontidão para atacarem eventuais incêndios florestais.
O aviso vermelho por causa do calor foi prolongado em 11 distritos segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), agora também Lisboa e Setúbal, que se juntam aos distritos Bragança, Évora, Guarda, Vila Real, Santarém, Beja, Castelo Branco, Portalegre e Braga.
A meteorologista Patrícia Gomes explicou à TSF que as previsões apontam para “valores próximos dos absolutos históricos”, podendo ser alcançados recordes de temperatura. “Uma pequena descida da temperatura máxima está prevista apenas para domingo, em particular no Litoral Norte e Centro. No fim de semana algumas regiões do Alentejo poderão mesmo ter alguns valores de temperaturas mínimas próximas dos 30 graus”.
No outro lado do continente, a Península de Banak, no norte da Noruega registrou temperaturas de 32ºC, o que é extremamente raro no Círculo Ártico.
Mas alguns estão a beneficiar com a esta subida do calor.
Os produtores de cerveja na Alemanha viram as vendas aumentarem 0,6%, ou 300 mil hectolitros, na primeira metade deste ano, comparada com o mesmo período do ano anterior.
“Especialmente, os tipos (de cerveja) sem álcool estão a ser muito procurados”, disse Marc-Oliver Huhnholz, da associação cervejeira alemã.
Também na Dinamarca, onde a agência meteorológica informou que o mês de julho foi o que teve mais Sol desde que há registros (1920), as vendas de bebidas alcoólicas caíram, em proveito das cervejas sem álcool, sodas e vinho branco, anunciou a estação televisiva local TV2.
Mortes no planeta
A mortalidade provocada pelas ondas de calor vai aumentar de forma drástica em muitos locais do planeta, devido às alterações climáticas, segundo um estudo publicado na revista Plos Medicine. O trabalho recolheu dados de 412 cidades, de 20 países, que cobriu o período entre 1971 e 2010 e faz uma previsão para o intervalo de tempo entre 2031 e 2080.
No caso concreto de Espanha, os cientistas avançam uma previsão de um aumento de 292% neste tipo de morte. Os cientistas relacionaram a mortalidade com as ondas de calor em diferentes cenários em função dos níveis de emissão de gases com efeitos de estufa, da adaptação e da densidade da população.
“Por tudo isto, a estratégia de adaptação às alterações climáticas deveria ser o objetivo prioritário para Espanha”, resumiu o investigador do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) Aurélio Tobias, do Instituto de Diagnóstico Ambiental e Estudos da Água e um dos autores da pesquisa.
Segundo o artigo, se a população não conseguir adaptar-se ao aquecimento global resultante das alterações climáticas, no próximo meio século o número de mortes pelas ondas de calor vai aumentar de forma drástica nas regiões tropicais e subtropicais do planeta, seguidas de perto por Austrália, Europa e Estados Unidos.
Por exemplo, em alguns locais dos EUA, a variação percentual da mortalidade relacionada com vagas de calor situar-se-ia no intervalo 400-525% em relação ao período 1971-2010.
Segundo a nota da Universidade de Monash, Austrália, num cenário extremo, vai haver um aumento de 471% das mortes por ondas de calor em três cidades australianas: Brisbane, Sydney e Melbourne.




