Abre em Lisboa exposição “Complexo Brasil” e quer desfazer clichês sobre a cultura

Visita guiada para a comunicação social à exposição “Complexo Brasil”, imaginada por José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik, a exposição ocupa as duas galerias do Edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian, propondo uma viagem singular pela diversidade e contrastes da cultura brasileira em Lisboa, 13 de novembro de 2025. TIAGO PETINGA/LUSA

Uma exposição que faz uma viagem pela diversidade e contrastes da cultura, História e arte brasileiras, com o objetivo de “desfazer fronteiras e estereótipos” sobre o Brasil, é inaugurada nesta sexta-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Duas galerias do edifício estão preenchidas com obras de artistas brasileiros de várias gerações, documentos, textos e vídeos inéditos com imagens e música, espelhando a riqueza da cultura brasileira, na mostra intitulada “Complexo Brasil”, patente até 17 de fevereiro de 2026.

“A exposição está colocada nesse local de desfazer limites e fronteiras, tanto as fronteiras nacionais entre Brasil e Portugal, para nos aproximar-nos e depararmo-nos com as diferentes realidades, e também para desfazer limites mentais, estereótipos, imagens prontas e clichés, muitas vezes superficiais, que existem sobre o Brasil”, disse à agência Lusa José Miguel Wisnik, um dos curadores da mostra.

Numa altura em que a presença brasileira em Portugal se tornou mais expressiva, a exposição, promovida pelo Programa Gulbenkian Cultura, propõe oferecer aos dois povos “um novo ‘desencobrimento’ do Brasil que é também um ‘desencobrimento’ recíproco”, na palavra criada pelos curadores para substituir ‘descobrimento’, “que possui um peso colonialista”.

Questionado pela Lusa sobre o processo de conceção de uma mostra complexa que pretende captar a essência de uma identidade cultural multifacetada, o professor, ensaísta e músico José Miguel Wisnik admitiu ter sido “difícil abordar um tema que não tem limite, e não pode caber em nenhum continente”.

“Compreendemos que a exposição precisava de ser uma travessia e uma experiência em que não tivéssemos propriamente uma linearidade. Não é descritiva, linear e compartimentada, e os elementos vão-se apresentando, e dialogando entre eles”, disse o investigador, que assina a curadoria com Milena Britto e Guilherme Wisnik.

Na sala de abertura da exposição, o visitante é recebido por uma passagem pelo mundo indígena, com uma grande escultura em casca de árvore ao centro, do artista Henrique Oliveira intitulada “O Retorno” (2024), e em seu redor diversas peças cedidas pelo Museu Nacional de Etnologia de Lisboa, nomeadamente, máscaras da etnia Tukan e urnas funerárias.

Também se destaca na abertura da mostra a presença imponente e simbólica do manto, indumentária ritual e festiva que testemunha um valor forte da vida brasileira como manifestação do “poder de incorporação”: o Manto Tupinambá, o Manto da Apresentação, de Arthur Bispo do Rosário, e os parangolés de Hélio Oiticica estão representados nessa área.

Pelas salas, as peças étnicas, obras de arte moderna e contemporânea, de pintura, desenho, escultura, fotografia e instalação, além de documentos históricos, revelam o mosaico cultural brasileiro em que coexistem diferentes etnias, culturas, tempos, línguas, religiões e processos económicos.

“Nós nos sentimos transformados durante o processo de conceção e realização dessa exposição, e gostaríamos que acontecesse o mesmo ao visitante durante a experiência”, disse Wisnik, acrescentando que a mostra é “dirigida a todo o visitante, principalmente os portugueses, mas também o contingente de brasileiros que atualmente mora em Portugal, e de outros países, já que a Gulbenkian é uma instituição visível na Europa visitada por pessoas de outros lugares que se interessam pelo Brasil”.

As relações seculares dos dois países estão inevitavelmente presentes logo desde o início da história do Brasil, “resultado de uma ação colonial de amplas proporções”, mas com o objetivo de “dissolver estereótipos e abrir novas pontes de entendimento entre ambos”.

“Não podemos esquecer que mais de cinco milhões de pessoas foram escravizadas e levadas de África para o Brasil. Foi um processo moderno de globalização que aconteceu na época, mas mesmo depois da independência foi mantido um sistema de monarquia, latifúndio e escravidão”, apontaram os curadores durante o percurso.

Ainda hoje, lembraram, as consequências humanas daquela atividade económica de tráfico de pessoas “fazem-se sentir no racismo latente e estrutural que continua a marcar a sociedade brasileira”.

Com cenografia de Daniela Thomas, o percurso revela obras de artistas como Pricilla Resende, Tiago Sant’Ana, Carlos Vergara, Rogério Reis, Arthur Bispo do Rosário, Kika Carvalho, Nuno Ramos, Larissa de Sousa, Dalton Paula, Alfredo Volpi, Lygia Pape e Hélio Oiticica, entre outros, dispersos em núcleos que juntam o registo histórico, as peças artesanais nativas e a arte contemporânea.

As diversas linguagens que distinguem o Brasil – a música popular, o carnaval, as artes visuais, a literatura, a poesia e a arquitetura – marcam presença ao longo da exposição que no piso inferior do edifício se torna interativa, com a possibilidade de o visitante fazer uma pausa deitando-se em redes tradicionais suspensas.

Paralelamente à exposição, decorrerá um programa de atividades na Gulbenkian, como o espetáculo “Complexo B”, da cantora Adriana Calcanhotto e José Miguel Wisnik, acompanhados pelo violonista João Camarero, um concerto da Orquestra Gulbenkian com obras de Heitor Villa-Lobos e Cláudio Santoro, além de conferências e debates.

No âmbito desta exposição, a Revista Colóquio dedica um número especial à literatura e artes brasileiras do século XXI, intitulado “Este Brasil”, reunindo 40 recensões breves de livros brasileiros publicados depois do ano 2000, dando uma panorâmica nos campos da prosa, da poesia, do ensaio, da literatura infantil e do roteiro cinematográfico, entre outras áreas.

Em parceria com a Companhia das Letras, foi publicado um livro de ensaios, com ‘design’ gráfico de José Albergaria e Kiko Farkas, que aprofunda a investigação realizada pela equipa de curadores, que participarão na apresentação da obra, no próximo dia 18, às 18:30.

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