Penetrou de rompante, mergulhando na amena penumbra que envolvia a saleta. Era loira; olhos redondos, azuis, de um azul celeste, resplandecente; tez clara, levemente anacarada, que lhe dava a encantadora beleza de boneca de porcelana da Baviera.
Sentou-se graciosamente numa cadeira de verga, junto à pesada mesa de mogno cubano, onde conversava com a prima Preciosa, à luz aconchegante de antigo candeeiro de cristal, pendente do teto.
Encaminhou-se o discurso da palestra para a terrível crise que desabou pelo nosso país, e na triste impossibilidade dos jovens constituírem família.
Consternadíssima, lamentava-se muito sentida, da falta de emprego e dos eternos salários baixos: – “Paga-se mal em Portugal!”; quando a moça, que pensativamente, escutava em absoluto silêncio, declarou num meneio dengoso, que a tornava ainda mais graciosa.
– “ Eu que o diga! Como pensar em casar, se o ordenado de ambos – o dela e do namorado – mal passa os três mil euros!?
E enquanto a mãe, de olhar triste, lastimava a má sina da filha, refleti:
Meu ordenado foi o suporte da família, porque não tinha outro; minha mulher, como dona de casa, que era, e é, não usufruía, nem usufrui salário.
Com pouco menos de metade, paguei mensalidades em colégio e propinas em universidade privada.
Certo é que não frequentei, nem frequento, a sala de cinema, e menos ainda o teatro; mas não deixei, nem deixo, de assistir a famosos filmes e de ler o meu jornal; e ainda adquiri, ao longo de anos, consagradas obras de literatura: Vasta biblioteca de largas centenas de volumes, que há muito ultrapassaram o milheiro e meio.
Saltou-me então à memória, a notícia que recentemente li no matutino, que há, em bairro social – construído para abrigar necessitados, – quem obtenha rendimento de dois mil euros!
Recordei também – e com que saudade – de minha querida mãe, que sempre asseverava: para haver velhice feliz, preciso é aforrar de novo.
Arrecadar, periodicamente, em conta poupança, um pouco, é o único e seguro método de não passar tormentos na velhice.
Dir-me-ão, agora, por certo, os que recebem salários baixos: – “Havias de ter meu vencimento e meus encargos; “responderei com curtíssima história, que li, na juventude, narrada como verídica, ocorrida em vilória francesa.
Havia poderoso senhor, extremamente poupado, que vivia num grande castelo. Papelinhos e fósforos queimados, guardava-os para reutilizá-los, assim como outras excentricidades ridículas.
Criados e povo, pasmavam-se da sovinice de homem tão abastado, e acerbamente o censuravam.
Houve, um dia, dantesco incêndio, que deixou famílias na miséria. Grupo de meninas, seriamente condoídas, resolveram levantar donativos, pelo povoado.
Lembraram-se do avarento, mas logo reprovaram a ideia. Mesmo assim aventuraram-se ir ao castelo.
Encaminharam-nas a ampla sala de sólidas paredes de pedra, parcamente mobilada. Ouviu-as atentamente, o castelão, e após prolongada pausa, ergueu-se, abriu gavetinha de contador, e retirou avultada quantia.
Perante expressão de espanto, esclareceu:
– Estão admiradas!; fiquem sabendo que é devido aos papelinhos e fósforos queimados e outras “sovinices” , que posso oferecer-vos essa importância.
São as pequenas economias, que permitem as grandes extravagâncias; mas as cigarrinhas não compreendem, e o Estado – cuja obrigação é fazer justiça, – muitas vezes lapida quem aforra.
Mas que havemos de fazer, se a inveja e a cobiça, não têm limites?
Por Humberto Pinho da Silva
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Conselho a seguir se quer velhice tranquila
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