Portugal Não Cabe em Portugal

Festa Portuguesa em Santos

Por Nuno Nabais Freire

Todos os anos, a 10 de junho, celebramos o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

É uma data curiosa.

Ao contrário da maioria das nações, Portugal não escolheu uma batalha, uma revolução ou uma declaração de independência para simbolizar a sua identidade. Escolheu um poeta.

Luís Vaz de Camões morreu a 10 de junho de 1580. Morreu pobre, num país exausto e à beira de perder a sua independência para a coroa espanhola. No entanto, quatro séculos depois, continua a ser a figura que melhor representa Portugal.

Talvez porque Camões tenha compreendido algo que os políticos raramente entendem: os países não sobrevivem apenas através das suas fronteiras. Sobrevivem através das histórias que contam sobre si próprios.

E poucas histórias foram tão improváveis como a portuguesa.

Portugal é um dos países mais antigos da Europa. É também um dos mais pequenos. À luz da geografia, nunca deveria ter desempenhado um papel relevante na história mundial. Contudo, durante alguns séculos, conseguiu algo extraordinário: projetou a sua língua, a sua cultura e os seus homens para quatro continentes.

Hoje, quando pensamos em Portugal, pensamos inevitavelmente no território europeu. Mas a verdade é que existe um outro Portugal espalhado pelo mundo.

Existe em Newark, em Toronto, no Luxemburgo, em Paris, em Joanesburgo, em Caracas, em Sydney.

E existe, sobretudo, no Brasil.

Nenhum outro país acolhe uma herança portuguesa tão vasta. Nenhum outro lugar preservou tantas tradições, tantas palavras, tantos apelidos, tantas memórias familiares ligadas a Portugal.

O mais fascinante é que esta ligação ultrapassa largamente a política.

Os governos mudam.

As bandeiras mudam.

As ideologias passam.

Mas a língua permanece.

Quando um português de Trás-os-Montes conversa com um brasileiro de Minas Gerais, ambos utilizam uma ferramenta criada muito antes de qualquer governo moderno existir. Utilizam um património comum construído por escritores, comerciantes, navegadores, agricultores, emigrantes e famílias inteiras que atravessaram o Atlântico em busca de uma vida melhor.

Talvez seja essa a verdadeira força da lusofonia.

Não nasceu de decretos.

Não nasceu de tratados.

Nasceu de pessoas.

Nasceu de homens e mulheres comuns que levaram consigo receitas, expressões, canções, devoções religiosas, formas de trabalhar e maneiras de olhar o mundo.

Por isso o Dia de Portugal é também, inevitavelmente, o dia das comunidades.

Porque as comunidades portuguesas não são um apêndice da nação.

São uma parte essencial dela.

Em muitos casos foram precisamente os emigrantes que mantiveram viva a ligação a Portugal quando o próprio país atravessava períodos difíceis. Foram eles que construíram associações, casas regionais, clubes culturais, beneficências, câmaras de comércio e redes de solidariedade que continuam a unir gerações.

O caso brasileiro é particularmente impressionante.

De Norte a Sul, multiplicam-se as instituições luso-brasileiras que preservam tradições centenárias. Em cidades como São Paulo, Santos, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba ou Porto Alegre, o 10 de Junho continua a ser celebrado não como uma cerimónia oficial distante, mas como uma festa construída pela própria comunidade.

E talvez aí resida uma lição importante para o nosso tempo.

Vivemos numa época obcecada por fronteiras políticas, por divisões ideológicas e por identidades fragmentadas. No entanto, a comunidade luso-brasileira demonstra diariamente que a identidade pode ser simultaneamente múltipla e sólida.

Pode-se ser brasileiro e profundamente ligado a Portugal.

Pode-se ser português e sentir o Brasil como uma segunda pátria.

Pode-se pertencer a dois lados do Atlântico sem deixar de pertencer a nenhum deles.

Camões provavelmente nunca imaginou que a língua que ajudou a eternizar seria falada por centenas de milhões de pessoas espalhadas por vários continentes.

Mas talvez compreendesse uma verdade simples: os países sobrevivem quando conseguem transformar geografia em comunidade.

É por isso que Portugal não cabe em Portugal.

Cabe em cada família que preserva uma memória.

Cabe em cada associação que mantém viva uma tradição.

Cabe em cada criança que aprende português longe da terra dos seus avós.

E cabe, sobretudo, nessa extraordinária ponte humana que há séculos liga Portugal e Brasil.

No fundo, talvez o Dia de Portugal não celebre apenas um país.

Talvez celebre algo muito mais raro.

A capacidade de uma pequena nação se tornar uma comunidade sem fronteiras.

Nuno Nabais Freire

Investigador Patrimonial Cultural | Especialista em Dinâmicas de Inovação Territorial , para o Mundo Lusíada

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