Teatros de ópera da Amazônia brasileira declarados Património Mundial pela UNESCO

Theatro Da Paz. Foto Claudio Santos_AgPará

A UNESCO declarou hoje Patrimônio Mundial os dois teatros luxuosos de ópera construídos no coração da Amazônia brasileira, com estilos arquitetônicos e materiais europeus, que simbolizam a riqueza da chamada Belle Époque na maior floresta tropical do mundo.

O Comité do Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) tomou esta decisão sobre o conjunto arquitetônico composto pelo Teatro Amazonas (1896), em Manaus, e pelo Theatro da Paz (1878), em Belém, durante a assembleia anual que está a decorrer na cidade sul-coreana de Busan.

A delegação brasileira destacou durante a assembleia que esta inscrição tem “uma importância particular”, pois é a primeira vez que um bem cultural localizado na Amazônia brasileira é incluído na lista.

O presidente do Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional do Brasil, Deyvesson Israel Alves Gusmão, salientou que esta “conquista histórica” representa o reconhecimento de que, além de constituir um paradigma de património natural e ambiental, a Amazônia é geradora de culturas, memórias e identidade.

“Trata-se, portanto, de um local patrimonial que mostra ao mundo a riqueza da diversidade cultural da Amazônia brasileira”, declarou. Estes espaços não só acolhem espetáculos de ópera e produções teatrais, como também atividades de uma ampla variedade artística, tais como a dança carimbó, o jazz ou o cinema.

Ambos os teatros foram construídos no final do século XIX nos dois maiores centros urbanos da Amazônia, com os recursos gerados pelo auge da exploração da borracha, quando a procura mundial de látex transformou a região num dos principais pólos económicos do Brasil e permitiu reproduzir nos trópicos o requinte cultural e arquitetónico europeu.

A odisseia para erguer essas construções numa região isolada e rodeada pela selva, onde praticamente todos os materiais tinham de chegar por barco após atravessarem o Atlântico e subirem o rio Amazonas, inspirou o célebre filme alemão “Fitzcarraldo” (1982), cujo protagonista sonha em construir um teatro de ópera na selva.

Ambos os edifícios acolheram, durante décadas, companhias de ópera, orquestras e artistas europeus que chegavam à Amazônia atraídos pela riqueza da região, tornando-se símbolos do intercâmbio cultural entre a América e a Europa nos séculos XIX e XX.

Com a aprovação pela UNESCO, os dois edifícios históricos passam a figurar juntos na lista da Unesco, sob a designação “Teatros da Amazônia”, ao lado de outros sítios brasileiros já reconhecidos como Património Mundial Cultural.

Ao todo, 16 são culturais, nove são bens naturais e um é sítio é de bens misto.

Fazem parte dessa lista o centro histórico de Ouro Preto, em Minas Gerais, reconhecida em 1980, seguido do centro histórico de Olinda (1982), em Pernambuco, e do centro histórico de Salvador (1985), na Baía, o Plano Piloto em Brasília (1987).

Na área de bens naturais, estão a área de conservação do Pantanal (2000), a área de conservação da Amazônia Central (2000) e o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (2024).

Em nota, o Ministério da Cultura afirmou que os dois teatros representavam um mesmo projeto de modernização urbana e de inserção da região amazônica nos circuitos comerciais e culturais globais, tendo sido duas das primeiras grandes casas de ópera das Américas e atraído companhias europeias para temporadas em Belém e Manaus.

“Idealizados por uma elite seduzida pelos ideais da Belle Époque e erguidos por trabalhadores locais, ao longo do tempo os teatros transcenderam o propósito de seus fundadores”, explicou o Ministério da Cultura.

O ministério acrescentou que, ao longo do tempo, os espaços ultrapassaram a função original e passaram a acolher também manifestações da cultura popular brasileira, do carimbó ao jazz, do boi-bumbá ao cinema, tornando-se marcos cívicos e culturais das duas cidades e o primeiro Património Mundial Cultural da região Norte do Brasil.

A última vez que a Unesco reconheceu algum sítio brasileiro como patrimónios mundiais foi em 2025, com o Cânion do Rio Peruaçu, em Minas Gerais, e Paraty e Ilha Grande, ambas no Rio de Janeiro, com o título de “Cultura e Biodiversidade”.

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