Nesta edição, Luiz Filho faz uma homenagem a um nome que se confunde com a própria história do Clube Português de São Paulo. Aos 92 anos, o Dr. Rui Mota Fernão Costa representa uma forma rara de liderança: a que se constrói no tempo, no cuidado e na presença.
Por Luiz Filho
Há aniversários que são só um número. E há aniversários que viram um marco íntimo de comunidade. No dia 14 de fevereiro, o Dr. Rui Fernão Mota e Costa celebrou 92 anos. Quando a gente fala dele, não está falando apenas de idade. Está falando de permanência. Permanecer é sustentar, por décadas, um lugar que não cabe em currículo, porque cabe em legado.
Eu escrevo esta coluna com um detalhe que muda o tom de tudo: foi o Dr. Rui quem me levou ao Clube Português de São Paulo. Não como quem abre uma porta para mais um diretor, mas como quem apresenta uma casa. E casa, quando é de verdade, não se explica por paredes. Explica-se por gente. O Dr. Rui tem esse tipo de presença que não precisa de discurso para ser notada. Ela aparece no cuidado com as palavras, na firmeza serena e no respeito silencioso que ele desperta quando entra numa sala. E aparece também na forma como ele acolhe: perguntando pelo nome, puxando pela memória, fazendo a pessoa sentir que ali não é visita, é pertença.

A história dele começa longe de São Paulo, em Freixinho, pequena aldeia do concelho de Sernancelhe, na Beira Alta. Em 1953, atravessou o Atlântico para o Brasil e aqui construiu vida profissional como advogado e empresário do setor de turismo, diretor-fundador da Interpolo Turismo. Mas, mais importante do que o que ele construiu para si, foi o que ele escolheu construir para os outros: pertencimento com responsabilidade.
O Clube foi o lugar onde a vida dele encontrou um eixo afetivo. Ele mesmo costuma dizer, com aquela naturalidade de quem fala de um fato decisivo sem dramatizar, que foi no Clube Português que conheceu Dona Linda e que ali iniciou sua vida familiar. Essa frase explica muita coisa. Para quem emigra, uma associação não é apenas agenda social. É abrigo simbólico. É o lugar onde o sotaque se sente em casa, onde a memória encontra gente, onde a cultura deixa de ser lembrança e volta a ser convivência. Quando a vida pessoal nasce dentro de uma instituição, a instituição deixa de ser cenário e passa a ser compromisso.
Talvez por isso a liderança do Dr. Rui nunca tenha sido apenas administrativa. Ela sempre teve uma dimensão humana. Ele carrega a tradição sem transformá-la em vitrine. Preserva, mas não congela. Atualiza, mas não descaracteriza. E quando ele diz, com clareza, “isso aqui não é meu, é nosso, é de todos nós”, ele está colocando a instituição no lugar certo: acima de vaidades, abaixo do cuidado de todos.
Há gestos que resumem uma visão. Num aniversário do Clube, ele fez algo que diz muito sobre a maneira como enxerga cultura: renomeou a biblioteca para Biblioteca João Alves das Neves, homenageando o ex-diretor cultural, jornalista, professor e escritor que marcou gerações na casa. O detalhe mais bonito não é a placa. É o sentido. O Dr. Rui lembrou que aquela biblioteca era o “cantinho preferido” de João Alves das Neves. E, no mesmo gesto, acolheu a doação do acervo do homenageado, cerca de 10 mil livros, colocando esse patrimônio a serviço da comunidade. Isso não é apenas homenagem; é gestão cultural de verdade. É transformar memória em estrutura, e estrutura em futuro.
O tempo passou, a cidade mudou, o Clube mudou de endereço, mas a biblioteca continuou como símbolo e centro. Já na nova sede, a Biblioteca João Alves das Neves ganhou lugar de honra e segue abrigando obras raras e valiosas, como um lembrete concreto de que modernização, quando é bem feita, não apaga a história; carrega a história consigo.
O reconhecimento vindo de Portugal acompanhou esse percurso. O Dr. Rui foi condecorado como Comendador da Ordem do Mérito, uma distinção que, no fim, só confirma o que a comunidade já sabe: ele virou ponte. Mais tarde, seu nome aparece também entre os Comendadores da Ordem do Infante D. Henrique, reforçando a dimensão pública de uma vida dedicada à luso-brasilidade. A frase dele, dita com orgulho tranquilo, resume uma escolha definitiva: “E do Brasil eu não saio nunca mais.”
Nos anos recentes, o Clube atravessou mudanças sensíveis e decisões difíceis. Em momentos assim, muita gente se afasta. O Dr. Rui permaneceu. E permanecer, em tempos difíceis, é quando a palavra ganha peso. Ele entendeu, como poucos, que prédio muda, mas a instituição não pode se perder. A verdadeira sede de uma comunidade é o propósito. O resto é endereço.
Ao homenagear seus 92 anos, eu não homenageio apenas uma pessoa. Eu homenageio um tipo de liderança que anda em falta: a que trabalha sem buscar palco, a que cuida sem transformar isso em propaganda, a que aparece quando é preciso e continua quando ninguém está olhando. Em um tempo que confunde alarde com relevância, o Dr. Rui nos lembra o essencial: o que permanece é o que tem raiz. E raiz não se constrói com pressa.
Que esta coluna sirva como agradecimento, meu e de muitos, por tudo o que o Dr. Rui fez, sustentou e inspirou. Porque comunidade, no fim, é isso: um conjunto de vidas que escolhem permanecer juntas.
Por Luiz Filho
Diretor de Marketing e Relações Institucionais do Clube Português de São Paulo.




