Quase meio milhão de brasileiros. O que Portugal fará com quem decidiu ficar?

Foto: istock/ Olga Tarasyuk

Presentes no trabalho, na economia e na demografia portuguesa, muitos brasileiros ainda convivem com estruturas que os tratam como provisórios.

Por Luiz Filho

Meus avós saíram de Celorico da Beira para construir uma vida no Brasil. Como tantas famílias portuguesas, atravessaram o Atlântico, trabalharam, tiveram filhos e ajudaram a formar o país que encontraram. Hoje, o movimento ganhou a direção inversa. São os brasileiros que chegam a Portugal em busca de trabalho, segurança e um projeto de vida. Mudou a direção da viagem. A pergunta sobre pertencimento continua atual.

O relatório mais recente da Agência para a Integração, Migrações e Asilo contabilizou 493.622 brasileiros em Portugal no final de 2025. Eles representam quase um terço de toda a população estrangeira registrada no país. O número impressiona, mas explica pouco quando lido apenas como estatística. Não revela quantos trabalham, abrem empresas, alugam casas, colocam os filhos na escola e começam a chamar Portugal de casa.

Ao longo de quase três décadas trabalhando com marketing, aprendi que conquistar a atenção de alguém é diferente de construir uma relação. Uma empresa pode celebrar milhares de novos clientes sem conseguir conservá-los. Com os países acontece algo semelhante, embora estejamos falando de vidas, não de consumidores. Contar autorizações de residência é como contar cliques: mostra que alguém chegou, mas não revela se encontrou condições para permanecer.

Brasileiros indo votar em Lisboa – 2022. Foto Miguel Lopes/LUSA

Um estudo do Banco de Portugal ajuda a enxergar o que existe depois da chegada. Entre os trabalhadores estrangeiros analisados, 52% ainda mantinham ligação com a Segurança Social cinco anos depois da entrada; aproximadamente 40% permaneciam após dez anos. Quando há vínculos familiares, a probabilidade de permanência depois de cinco anos sobe para 77%. O levantamento abrange diferentes nacionalidades, mas esclarece uma dinâmica que também alcança a maior comunidade estrangeira do país. O emprego pode iniciar a mudança. É a vida construída ao redor dele que cria raízes.

A contribuição econômica acompanha esse processo. Em 2025, os trabalhadores brasileiros destinaram cerca de 1,48 bilhão de euros à Segurança Social portuguesa, o equivalente a 4,9% de todas as contribuições recebidas pelo sistema. Seria simplista dizer que os brasileiros “sustentam as pensões” de Portugal, porque quem contribui hoje também adquire direitos para amanhã. Mas seria igualmente desonesto ignorar a relevância dessa participação. Um Estado não pode considerar permanente a contribuição e provisória a pessoa que contribui.

Essa permanência também aparece nos nascimentos. Em 2025, 10,5% dos partos realizados em Portugal foram de mães brasileiras. Quando uma comunidade participa da formação da geração seguinte, já não estamos falando apenas de pessoas em trânsito. Estamos diante de famílias que projetam futuro, mesmo convivendo com a insegurança de documentos, prazos e regras que mudam.

Outro sinal surgiu nos 22.614 pedidos do Estatuto de Igualdade de Direitos e Deveres apresentados por brasileiros em 2025, o maior número da série recente. O estatuto não transforma ninguém em cidadão português, mas amplia direitos civis, sociais e profissionais. O crescimento desses pedidos sugere algo além da regularização da permanência: o desejo de participar mais plenamente da sociedade onde se decidiu viver.

É justamente aí que surge a principal contradição. Enquanto a economia e a demografia já tratam os brasileiros como parte da estrutura portuguesa, a burocracia ainda os mantém frequentemente numa condição provisória. A Provedoria de Justiça registrou que, em muitos processos, foi largamente ultrapassado o período de um ano após o atendimento presencial sem decisão da AIMA. Também apontou limitações nos canais destinados ao reagrupamento familiar. Para quem observa de fora, pode parecer lentidão administrativa. Para quem espera, significa dificuldade para trabalhar, viajar, reunir a família, assinar contratos e planejar a vida.

Existe ainda outro desperdício menos visível. A OCDE coloca Portugal entre os países com elevada sobrequalificação de trabalhadores imigrantes. Pessoas formadas e experientes acabam em atividades abaixo de suas competências porque diplomas demoram a ser reconhecidos, faltam informações ou o mercado se acomoda à mão de obra disponível. Portugal afirma precisar de profissionais qualificados e, ao mesmo tempo, não aproveita plenamente parte da qualificação que já recebeu. É uma conta ruim para todos.

Reconhecer isso não significa ignorar os desafios de um crescimento migratório tão rápido. Habitação, escolas, saúde e serviços públicos sofrem pressão. Portugal tem o direito e a obrigação de organizar as entradas, exigir o cumprimento das leis e planejar sua capacidade de acolhimento. Integração não é ausência de regras. É a existência de regras compreensíveis, executáveis e compatíveis com a realidade humana que pretendem organizar.

A comunidade brasileira também não é homogênea nem está destinada a permanecer para sempre. Há quem volte, siga para outro país ou descubra que o projeto não funcionou. O equívoco está em imaginar que controle migratório e integração sejam assuntos opostos. Quanto mais clara for a porta de entrada, mais consistente precisa ser a vida depois dela. Ninguém constrói pertencimento vivendo permanentemente no corredor.

Meus avós não vieram ao Brasil somente para preencher uma vaga de trabalho. Construíram família, memória e pertencimento. É isso que centenas de milhares de brasileiros já fazem do outro lado do Atlântico.

A pergunta já não é apenas quantos entraram ou quantos documentos foram emitidos. É o que Portugal deseja construir com aqueles que decidiram ficar.

Por Luiz Filho
Publicitário, especialista em Negócios e Marketing, com 25 anos de experiência em definição de estratégias e métodos de comercialização para mercados B2B e B2C, análise de produtos, serviços e ações 360º. Atualmente, atua como Consultor On Demand, desenvolvendo ações inovadoras e estabelecendo parcerias comerciais, pela Wixi Marketing.

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