Juca Oliveira teve de plantar feijão preto para conseguir servir feijoada no primeiro restaurante brasileiro em Portugal, pelo qual passaram nomes como Jorge Amado e Fernanda Montenegro e que mantém a mesma ementa desde 1978.
Aos 88 anos, Enoir Oliveira da Luz, mais conhecido como Juca Oliveira, é proprietário e cozinheiro do primeiro restaurante brasileiro em Portugal, o Brasuca, localizado no Bairro Alto.
Chegou a Portugal em 1976, depois de fugir do Brasil “para não ser morto” e de passar os quatro anos anteriores na União Soviética e na Argentina e numa altura em que “a situação política no Brasil não permitia continuar”, recorda à Lusa.
Quando chegou, em pleno Período Revolucionário Em Curso (PREC), existiam 130 restaurantes no Bairro Alto, alguns a fechar portas, e nenhum de comida brasileira, o que obrigou o empresário a procurar alternativas para conseguir os ingredientes capazes de manter os sabores tradicionais da cozinha brasileira.
Para conseguir o ingrediente principal da feijoada, Juca Oliveira plantou cinco quilos de feijão preto em Rio Maior, produção que acabou por render quatro toneladas.
Segundo Juca Oliveira, o antigo Presidente brasileiro Juscelino Kubitschek, também exilado em Portugal, ajudou o restaurante a estabelecer contactos com o grupo brasileiro Pão de Açúcar, fundado pelo empresário Abilio Diniz.
“Graças a ele passou a existir leite de coco, goiabada, farinha de mandioca e farinha de milho”, conta.
Quando abriu as portas, em 1978, o Bairro Alto fervilhava de intelectualidade, em grande parte devido à presença de editoras, jornais, gráficas e redações.
“Funcionava aqui o setor da imprensa”, recorda Juca Oliveira, enumerando alguns periódicos como o Diário de Notícias, o Diário de Lisboa, o Diário Popular, A Capital, A Bola, O Século, O Tempo e o Jornal Novo.
Segundo o empresário, o movimento constante de jornalistas e trabalhadores gráficos ajudou a transformar o restaurante num ponto de encontro entre portugueses e brasileiros, numa altura em que a imagem do Brasil em Portugal estava fortemente associada às telenovelas, como “Gabriela”, e aos romances de Jorge Amado e Luiz Carlos Prestes.
As paredes do restaurante continuam decoradas com quadros do Rio de Janeiro, memória de uma visão inicial que os portugueses tinham do Brasil.
“Os portugueses só conheciam o Brasil como o Rio de Janeiro”, afirma, explicando que muitos clientes associavam ao Rio cenários das novelas brasileiras, mesmo quando as histórias decorriam noutros estados, como a Baía.
Os primeiros tempos deste restaurante foram difíceis: “Tive de começar com um fogão penhorado”, conta Juca Oliveira, acrescentando que só conseguiu tornar-se proprietário do espaço cerca de 20 anos após a abertura.
Sem uma equipa de funcionários, Juca continua a cozinhar diariamente, enquanto a mulher prepara as sobremesas da casa e o filho serve às mesas e trata das compras. “A minha esposa é uma grande doceira”, afirma.
Juca Oliveira explica ainda que a ementa criada na inauguração, e que foi ele que idealizou, praticamente não mudou.
A feijoada tornou-se rapidamente um dos pratos mais procurados da casa, ao lado de especialidades regionais como o virado paulista, picadinho mineiro e a moqueca baiana.
Ao longo das décadas, o Brasuca recebeu músicos, escritores, atores, que passavam por Lisboa ou cá viviam, como José Cardoso Pires, Jorge Amado, Gilberto Gil e Fernanda Montenegro.
Também ajudou alguns com refeições e guarida porque, como faz questão de dizer, “é preciso ser solidário”.
Diz que conheceu todos os Presidentes do Brasil, desde o tempo de Getúlio Vargas, que dirigiu o Estado até 1954, e que ao seu restaurante foram vários chefes de Estado portugueses.
Os militares de Abril também tinham lugar garantido neste espaço, que sempre assinalou o 25 de Abril.
Conheceu Álvaro Cunhal (Partido Comunista Português) e é muito amigo de Jerónimo de Sousa. Fraternizou com Leonel Brizola, dos trabalhistas brasileiros, e, em 1968, conheceu o Papa Francisco, no Brasil, quando este era bispo e ele um dirigente sindical.
Juca Oliveira recorda que o restaurante nasceu numa época em que muitos estabelecimentos do Bairro Alto, “grandes e pequenos, estavam em situação de falência”, mas acredita que a localização acabou por ser decisiva para o sucesso.
Quase cinco décadas depois, o restaurante, “que sempre teve boa freguesia”, mantém a mesma identidade com que abriu as portas.
Os estrangeiros dizem que é muito mais barato ir ao Brasuca, em Portugal, do que ir ao Brasil. E que a moqueca de camarão até é melhor [neste restaurante] do que no Brasil”, diz.




