Por Nuno Nabais Freire
Antes de chegar ao Brasil, Aparecida já tinha casa em Portugal. Duas margens, duas histórias e uma mesma tradição mariana.
Há um nome que, no Brasil, dispensa apresentações e que, em Portugal, ainda surpreende muita gente quando se descobre que também existe. Nossa Senhora Aparecida não é apenas a padroeira do Brasil. É também título mariano cultivado em terras lusas, com santuários, romarias e uma memória própria. Entre Balugães, no concelho de Barcelos, e o vale do Paraíba, no interior de São Paulo, corre um fio discreto de fé popular que une as duas margens da língua portuguesa. Vale a pena puxá-lo, sobretudo nestes dias que antecedem o 12 de outubro.
Em Portugal, a devoção mais antiga sob este título remonta a 1702. No monte de Castro, em Balugães, um jovem pastor chamado João Alves, conhecido por “o mudo” abrigava o rebanho de uma tempestade quando, segundo a tradição local, lhe apareceu Nossa Senhora. Recuperou a fala, recebeu o pedido de que se erguesse ali uma capela e, conta-se ainda, a casa da família ficou provida de pão. O pai, pedreiro, levantou uma pequena ermida. A notícia chegou à corte de D. Pedro II, que mandou fazer uma coroa de prata para a imagem. Entre 1707 e 1720 o arcebispo de Braga, D. Rodrigo de Moura Teles, promoveu a construção do templo que ainda hoje recebe, a 15 de agosto, peregrinos das freguesias vizinhas, nas dioceses de Braga e de Viana do Castelo. Trata-se, para muitos, das primeiras aparições marianas reconhecidas em Portugal. Mais tarde, no concelho de Lousada, na freguesia de Torno, outra tradição a da imagem “aparecida” por volta de 1823 junto a uma antiga mina deu origem a uma romaria de agosto igualmente viva, com o seu andor de grandes dimensões carregado aos ombros dos homens da terra.

No Brasil, a história é de 1717, poucos anos depois. Três pescadores Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves lançavam as redes no rio Paraíba do Sul, perto de Guaratinguetá, à espera da passagem do conde de Assumar. A pesca falhava até que as redes trouxeram, primeiro o corpo e depois a cabeça, de uma pequena imagem de terracota de Nossa Senhora da Conceição. Reunidas as partes, as redes encheram-se. A imagem, escurecida pelas águas e pelo barro, passou a ser chamada Aparecida. Da capela modesta ao santuário nacional, da coroação no início do século XX à proclamação como padroeira do Brasil pelo Papa Pio XI, em 1930, o percurso é conhecido. O 12 de outubro tornou-se feriado nacional e a basílica de Aparecida passou a ser um dos maiores polos de peregrinação do mundo católico.
O paralelismo não é de identidade, mas de parentesco. Em ambos os casos, a Senhora “aparece” a gente simples pastor, pescadores em momento de aflição ou de trabalho árduo. Em ambos, o culto nasce de baixo, antes de qualquer decreto, e só depois ganha templo, romaria e reconhecimento. E ambos se enraízam na mesma herança: em 1646, D. João IV proclamara Nossa Senhora da Imaculada Conceição padroeira de Portugal e de todos os seus domínios. A imagem brasileira é, precisamente, uma Conceição. O que o rio devolveu aos pescadores do Paraíba já vinha, em certo sentido, na bagagem espiritual dos que atravessaram o Atlântico.
A diferença está na escala e no destino. Em Portugal, Aparecida permanece devoção regional, intensa nas suas datas de agosto, ligada à paisagem minhota e duriense. No Brasil, tornou-se símbolo nacional, capaz de reunir milhões, de atravessar regimes e de marcar o calendário civil. Uma não anula a outra. Antes, iluminam-se. Para a comunidade portuguesa no Brasil, o 12 de outubro pode ser lido também como eco longínquo de uma piedade que já existia nas aldeias de origem: a confiança numa Mãe que se faz encontrar no meio da tormenta, da rede vazia ou da mina esquecida.
Há aqui uma reflexão simples. A fé popular raramente pede licença à geografia. Viaja com as pessoas, muda de rio e de monte, e continua a chamar pelo mesmo nome. Quem veio de Portugal e quem nasceu no Brasil partilham, neste título, mais do que uma coincidência de palavras. Partilham a ideia de que o sagrado se revela no quotidiano dos humildes e de que uma imagem pequena, seja a do pastor de Balugães, seja a dos pescadores do Paraíba, pode sustentar, durante séculos, a esperança de multidões. Neste outubro, talvez valha a pena recordar as duas Aparecidas: a que ficou nos montes do Minho e a que desceu o rio até se tornar casa de todos. São a mesma Senhora, acolhida de modos diferentes, e por isso mesmo capazes de aproximar quem, de um lado e do outro, ainda reza na mesma língua.
Nuno Nabais Freire
Investigador Patrimonial Cultural | Especialista em Dinâmicas de Inovação Territorial , para o Mundo Lusíada



