O escritor António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX, morreu hoje aos 83 anos, confirmou à Lusa fonte editorial.
O primeiro-ministro recordou António Lobo Antunes como “uma figura maior da cultura portuguesa”, dizendo que o seu legado deve continuar a inquietar e a inspirar todos.
“Presto muito sentida homenagem a Antonio Lobo Antunes – figura maior da cultura portuguesa. O seu legado é uma crónica da humanidade e da originalidade do olhar português e por isso continuará a inquietar-nos e a inspirar-nos”, escreveu Luís Montenegro, numa publicação na sua conta oficial na rede social X.
O primeiro-ministro expressou ainda, em seu nome e do Governo, “as mais sentidas condolências à família e aos amigos”.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, lamentou hoje a morte de António Lobo Antunes, a quem prestou homenagem anunciando que vai depositar junto dele o grande-colar da Ordem de Camões. “Seu leitor, admirador e amigo há décadas, pude em 2022 atribuir-lhe as insígnias da grã-cruz da Ordem de Camões, com a certeza de que poucos representaram tão bem a grandeza literária de um país territorialmente pequeno. Vou agora depositar junto dele o grande-colar da mesma ordem, símbolo máximo da literatura portuguesa”, acrescenta o chefe de Estado.
António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 01 de setembro de 1942, licenciou-se em Medicina, pela Universidade de Lisboa em 1969, tendo-se especializado em Psiquiatria, que mais tarde exerceu no Hospital Miguel Bombarda. Optou pela escrita a tempo inteiro em 1985, para combater a depressão que dizia ser comum a todas as pessoas.
“Nunca soube verdadeiramente fazer outra coisa que não escrever”, declarou o escritor à agência Lusa, em 2004, quando já tinha recebido o Prémio União Latina (2003) pelo conjunto da obra, e a lista de distinções já ia do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) ao Melhor Livro Estrangeiro publicado em França (“Manual dos Inquisidores”) e ao reconhecimento pela Feira do Livro de Frankfurt (1997), na Alemanha.
O seu primeiro livro, “Memória de Elefante”, surgiu em 1979, logo seguido de “Os Cus de Judas”, no mesmo ano, sucedendo-se “Conhecimento do Inferno”, em 1980, e “Explicação dos Pássaros”, em 1981, obras marcadas pela experiência da guerra e pelo exercício da Psiquiatria, que depressa o tornaram um dos autores mais lidos em Portugal.
A República Portuguesa condecorou-o com o Grande Colar da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 2004 e, em 2019, com a Ordem da Liberdade. França deu-lhe o grau de “Commandeur” da Ordem das Artes e das Letras, em 2008.
O escritor Lobo Antunes, Prêmio Camões 2007, definia-se como “caçador de palavras”, foi médico psiquiatra e escrevia romances para combater a depressão.
A sua obra fala da solidão, da morte, do amor, da loucura e, invariavelmente, da guerra colonial, para a qual foi mobilizado em 1970, embarcando para Angola no ano seguinte, de onde regressou em 1973.
“A psiquiatria está presente nos meus romances, mas não só da maneira explícita como os críticos habitualmente observam”, disse António Lobo Antunes ao jornal Estado de S. Paulo, em 1996. “Eles prendem-se aos aspetos temáticos, mas há uma influência ainda maior, que aparece na técnica. A formação em psiquiatria é uma aprendizagem técnica, um exercício de lucidez e rigor. Ela deu-me um raciocínio diferente, uma maneira particular e talvez mais aguda de encarar o mundo. […] Além disso, a psiquiatria dá-nos um contacto intenso com o sofrimento e a morte. Isso enriqueceu-me e fez-me ver que poucas coisas realmente valem a pena nesta vida. Ela ajudou-me também a ver como relativos o sucesso e o insucesso. É claro que a literatura é importante, mas existem coisas muito mais importantes.”
Foi um dos autores mais lidos de língua portuguesa, o que nem sempre facilitou a crítica da época nos momentos iniciais do seu percurso.
Depois, veio o reconhecimento no estrangeiro, com a edição dos seus romances em países europeus, como Espanha, França, Alemanha, Itália e Reino Unido, a que se juntaram os mercados livreiros do Brasil, Estados Unidos e Canadá.
Antunes exerceu Medicina no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, passando a partir de 1985 a dedicar-se à escrita, pois não tinha muito mais tempo para outras coisas. “Um escritor tem de escrever”, sustentou, acrescentando: “Escrever é muito difícil” e “exige humildade”.
Manteve, porém, uma rotina no hospital, durante mais de uma década, onde ia uma vez por semana, “para não ficar maluco”, como disse ao Estado de S. Paulo, em 1996. “Escrever é um ato esquizofrénico, que se pratica sozinho, entre quatro paredes, sem testemunhas. É um ato enlouquecedor. […] Em 1980, já percebia que não poderia conciliar as duas atividades. Fui abandonando lentamente a psiquiatria e só não a abandono de vez para conservar a sanidade.”
Lobo Antunes disse à Lusa que não tinha rituais para escrever. Preferia fazê-lo no silêncio, pois “há uma atitude de paciência, ter de esperar que a palavra apareça”. “As palavras vêm muito devagar, tenho de estar à espera […]. Um pouco como atitude do caçador que espera a presa junto ao ribeiro.”
Numa bibliografia com perto de três dezenas de romances, cerca de metade surgiu nos últimos 20 anos: “Ontem não te vi em Babilónia” (2006), “O meu nome é Legião” (2007), “O arquipélago da insónia” (2008), “Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?” (2009), “Sôbolos rios que vão” (2010), “Comissão das lágrimas” (2011), “Não é meia noite quem quer” (2012), “Caminho como uma casa em chamas” (2014), “Da natureza dos deuses” (2015), “Para aquela que está sentada no escuro à minha espera” (2016), “Até que as pedras se tornem mais leves que a água” (2017), “A última porta antes da noite” (2018), “A outra margem do mar” (2019), “Diccionario da linguagem das flores” (2020), “O tamanho do mundo” (2022).
Pelo meio, surgiram vários volumes de “Livro de crónicas” e ainda o livro para crianças “A história do hidroavião” (1994), ilustrado pelo músico e amigo Vitorino. A correspondência de guerra, organizada por Maria José e Joana Lobo Antunes, deu origem a “D’este viver aqui neste papel descripto” (2005), que esteve na base do filme de Ivo M. Ferreira “Cartas da guerra” (2016).
Regularmente indicado como um dos mais prováveis vencedores portugueses do Nobel da Literatura, António Lobo Antunes acumulou prémios com a obra e como autor, pelo percurso literário.




