Incêndios: Setor do turismo quer linha de apoio e trabalho conjunto com entidades oficiais

Passadiços do Paiva, na freguesia de Espiunca, destruídos pelo incêndio que lavra desde segunda feira, em Arouca, 30 de Julho de 2025. No ano passado, um incêndio já tinha destruído parte dos passadiços, e só voltaram a abrir em abril deste ano, sendo uma das mais importantes infraestruturas turísticas do concelho atraindo milhares de visitantes todos os anos. ESTELA SILVA/LUSA

A associação portuguesa de empresas de animação turística defendeu hoje uma linha de apoio permanente para os negócios afetados pelos incêndios em Portugal, e um trabalho de prevenção conjunto entre as entidades gestoras do território e quem trabalha no terreno.

“Estamos em contacto com a Secretaria de Estado do Turismo e com o Turismo de Portugal para perceber a viabilidade de uma linha de apoio a microempresas para este tipo de emergência, à semelhança do que foi feito quando houve um grande incêndio na Serra da Estrela ou durante a [pandemia de] covid-19. Isto é algo que deve existir permanentemente, porque com as alterações climáticas já percebemos que o que está em causa é Portugal inteiro”, revelou à Lusa António Marques Vidal, presidente da Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos (APECATE).

O responsável falava a propósito dos fogos que têm afetado Portugal continental nos últimos dias, alertando que, no Interior do país, “90% das empresas de animação turística oferecem o produto natureza” e, quando há um incêndio, “o seu campo de atuação deixa de existir”.

“Todas as empresas são afetadas, tal como outro negócio: o alojamento local. Estas microempresas sofrem muito mais do que um destino com mais procura”, observou.

O presidente da APECATE disse que as empresas “estão preocupadas” com a atual situação, assinalando que, “quando se fala de prejuízos, se esquece sempre este setor”.

“Todos temos de pensar de maneira diferente em relação aos incêndios. As empresas de animação turística deviam ver reconhecido o seu papel na prevenção dos fogos. São ótimos parceiros das entidades que gerem o território e há aqui uma necessidade de estreitar relações e potenciar oportunidades de trabalhar em conjunto”, defendeu.

António Marques Vidal sublinhou que “há muito tempo que a associação tem alertado que, no Gerês, é necessário este trabalho conjunto”, mas “ainda há pouca comunicação de todas as entidades que gerem o território, e que são muitas”.

O responsável esclarece que a associação tem procurado dialogar com o Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e as 308 autarquias.

“As entidades oficiais ainda comunicam pouco com a sociedade civil. Não há colaboração com as entidades no terreno. Mas tem de ser mesmo um trabalho conjunto. Não basta ouvir. As empresas e associações no terreno podem ser uma mais-valia na prevenção”, frisou.

Em comunicado, a APECATE e a ALEP – Associação do Alojamento Local em Portugal manifestaram “profunda preocupação” com os impactos dos incêndios em várias regiões do país, que afetam “gravemente a atividade de empresas do setor da animação turística, dos eventos, alojamento e do turismo em geral”.

“Os incêndios em áreas como Ponte da Barca, Arouca, Nisa, Santarém, entre outras, estão a comprometer diretamente o funcionamento de atividades turísticas em contexto natural, levando ao cancelamento de programas, encerramento temporário de percursos, áreas protegidas e equipamentos, bem como afetar as perspetivas futuras”, observam.

Muitas das empresas associadas das duas associações “operam nessas zonas de elevado valor ambiental e paisagístico” e enfrentam “mais um cenário de incerteza e perda de rendimentos, num momento particularmente sensível do calendário turístico nacional, colocando em causa a sua viabilidade e a própria sustentabilidade dos destinos turísticos afetados, em particular do interior”.

As duas associações apelam, por isso, “à rápida ativação de medidas de apoio específicas para as empresas do setor, designadamente apoio à tesouraria e linhas de crédito em condições especiais”, reforçando “a necessidade urgente de políticas de prevenção ativa, de gestão florestal integrada e de articulação eficaz entre as entidades responsáveis pelo ordenamento do território, ambiente, turismo e proteção civil”.

Arouca

A Câmara de Arouca vai estudar uma medida para ajudar a proteger das chamas os Passadiços do Paiva que voltaram a sofrer danos provocados pelo fogo que lavra naquele concelho do distrito de Aveiro, indicou hoje a autarquia.

“Já solicitei à equipa para pensarmos agora na reconstrução, termos aqui uma medida inovadora que nos permita com mais facilidade aceder a determinados pontos e ter algum mecanismo que permita aqui, pelo menos, conter estes focos junto aos passadiços”, disse à Lusa a presidente da Câmara, Margarida Belém.

O incêndio, que está ativo desde segunda-feira em Arouca, destruiu parte dos Passadiços do Paiva, numa extensão de centenas de metros, na zona de Espiunca, onde se situa uma das entradas da infraestrutura que se estende por 8,7 quilómetros ao longo de uma das margens do rio Paiva.

Esta foi a quarta vez que o fogo atingiu este local turístico e que é uma das principais fontes de receita para a economia local.

A situação mais recente aconteceu em setembro de 2024, quando as chamas destruíram parte do troço de madeira dos passadiços, na sequência de um incêndio que deflagrou em Castro Daire, no distrito de Viseu, e passou para Arouca.

A infraestrutura reabriu no mês de abril, na sua extensão total, após três meses de obras para recuperação dos estragos, que custaram mais de 200 mil euros, mas agora encontra-se novamente fechada.

Para além desta situação, os Passadiços do Paiva sofreram danos provocados por incêndios florestais em setembro de 2015 e agosto de 2016, que também obrigaram a obras de recuperação que duraram vários meses, período em que a infraestrutura esteve parcialmente encerrada.

Inaugurado em junho de 2015, os Passadiços do Paiva receberam até agora cerca de 1,8 milhões de visitantes de vários países e faturaram cerca de 1,9 milhões de euros, mediante bilhetes a preços que vão até aos dois euros, consoante a idade e o concelho de residência do visitante.

No entanto, o retorno financeiro para o concelho será muito maior se forem tidas em conta as receitas do alojamento local, da restauração e da animação turística.

Viana do Castelo

O incêndio que deflagrou no sábado em Ponte da Barca já consumiu cerca de seis mil hectares do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), sendo que as chamas estão ainda por controlar, disse hoje o presidente da Câmara.

“Esse número [de área ardida] vai aumentar porque o fogo ainda lavra em vários pontos do PNPG”, afirmou à agência Lusa Augusto Marinho.

O incêndio começou no sábado à noite em Ponte da Barca, no distrito de Viana do Castelo, e alastrou na quarta-feira ao concelho de Terras de Bouro, no distrito de Braga.

Pelas 11:00, o comandante sub-regional do Ave da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) revelou que, deste incêndio, continuam quatro frentes ativas: três no concelho de Ponte da Barca e uma em Terras de Bouro, a que estava a causar mais preocupação.

Augusto Marinho salientou que “a principal preocupação é deter o fogo antes de chegar às aldeias de Sobredo e Lourido”.

“É preocupante a imprevisibilidade deste fogo, que rapidamente pode ameaçar pessoas e as suas habitações. Em Germil, o fogo está controlado e a evoluir favoravelmente, mas nas aldeias de Sobredo e Lourido é importante travar as chamas. Daí a importância de manter os meios aéreos permanentemente a apoiar os operacionais que estão no terreno, para podermos proteger de forma eficaz as aldeias”, referiu o social-democrata. 

De acordo com informação no ‘site’ da ANEPC, às 14:06 o fogo mobilizava 508 operacionais, apoiados por 163 viaturas e seis meios aéreos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também