Especial 200 anos: A conspiradora, infiel e ambiciosa Carlota Joaquina

A chegança da Corte Portuguesa no Brasil – Parte V

Por Eulália MorenoPara Mundo Lusíada

Carta de dona Carlota Joaquina para seu pai, Carlos IV Queluz, 13 de agosto de 1806

“Escrevo com maior consternação para dizer a V.M. que o Príncipe está cada dia pior da cabeça e que, por conseqüência, tudo vai ser perdido, porque aquelas figuras estão cada dia mais absolutas, e que é chegada a ocasião de V.M. acudir-me e a seus netos(…) que já não têm um pai capaz de cuidar deles(…) é este o modo de evitar que corra muito sangue neste reino, porque a Corte quer sacar a espada em meu favor, e também o povo, porque se vê por fatos imensos que o príncipe está com a cabeça perdida”

INFIEL >> Carlota Joaquina, autor anônimo – Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa, Portugal.

A chegada da Corte Portuguesa ao Novo Mundo trouxe à tona e agravou os problemas dos Bragança que mais pareciam caricaturas da realeza européia: a rainha dona Maria I, a Louca, com o seu luto perpétuo, o ineficiente Príncipe Regente D.João, aquele que, na condição de segundo filho, nunca fora destinado a governar, e sua esposa conspiradora, dona Carlota Joaquina. Uma família mergulhada na desconfiança, na infelicidade, frustrada e fragmentada sob as pressões da era napoleônica.

Na origem dos problemas da família real portuguesa, o casamento desastroso entre Carlota Joaquina, então com 10 anos, e dom João, com 17, por razões de Estado no intuito de solidificar as relações entre as cortes espanhola e portuguesa.

Filha primogênita de Carlos IV e irmã de Fernando VII, reis da Espanha, e de Maria Luísa de Bourbon, princesa de Parma, Itália, Carlota Joaquina nasceu em 1775 e morreu em 1830, aos 54 anos de idade.

A menina Carlota chegou a Portugal em maio de 1785. Desde o princípio, antipatizou com o recém-conhecido que viria a ser seu marido constando, inclusive, registros de alguns incidentes entre o jovem casal como uma violenta mordida na orelha de dom João e um castiçal que a temperamental dona Carlota atirou-lhe na testa.

Como ambos não tinham chegado a puberdade, o casamento só se consumou seis anos mais tarde quando passaram a compartilhar a mesma cama. Ao longo dos quarenta anos seguintes e num período de treze anos, o casal teve nove filhos: Maria Teresa, em 29 de abril de 1793, um ano depois de dom João assumir a regência do Reino; Antonio, em 25 de março de 1795 e que faleceu aos seis anos de idade em 11 de junho de 1801; Maria Isabel, em 10 de maio de 1797 que veio a casar-se com dom Fernando VII, rei da Espanha, morrendo logo depois, em 2 de dezembro de 1818; Pedro, em 12 de outubro de 1798, futuro primeiro Imperador do Brasil e rei Pedro IV, de Portugal; Maria Francisca, em 22 de abril de 1800 que se casou com o infante dom Carlos, irmão do rei dom Fernando VII, da Espanha; Isabel Maria, nascida a 4 de junho de 1801 e que foi regente de Portugal entre os anos de 1826 e 1828; Miguel, em 22 de outubro de 1802, rei de Portugal entre 1828 e 1834 perdendo o trono para o irmão Pedro quando fugiu para a Alemanha onde morreu em 1866, aos 64 anos; Maria da Assunção, em 25 de junho de 1805 e falecida em janeiro de 1834 e Ana Maria de Jesus nascida em 23 de dezembro de 1806, mais tarde a Duquesa de Loulé.

Alguns historiadores suspeitam de que alguns desses filhos não seriam de dom João, mas frutos de relacionamentos extraconjugais de Carlota Joaquina. Um deles, Oliveira Lima no seu livro “Dom João VI no Brasil” escreve que dom João “ não tinha grande certeza da paternidade dos últimos filhos” e que Carlota Joaquina foi “traidora como cônjuge, conspiradora como princesa, desleal sempre e sem interrupção”.

A mudança da sua Espanha para Portugal foi traumática para a menina que pouco falava o português e era a única criança numa corte envelhecida. Os “mui malos modos” da infanta, relatados através de cartas enviadas para a Corte de Madrid por sua criada, Anna Miquelina, iam desde “não querer fazer nada do que lhe dizem”, “demorar tempos infindos a vestir-se, o “levantar-se sempre tarde”, as birras “pela roupa que lhe apertava ou os sapatos que não queria calçar”. Á mesa “pegava os alimentos com a mão” ou “atirava comida à cara do infante (dom João) e às criadas de servir” , desesperava o seu professor, o padre Filipe, “por estar durante as lições duas ou três horas sem querer falar uma palavra” e a todos escandalizava ao levantar as saias de suas criadas.

Apenas a sua sogra, a Rainha dona Maria I, ainda em plena posse de suas faculdades mentais, conseguia discipliná-la passando um bom tempo com ela levando-a a passeios por conventos e igrejas, assim como às fontes termais da cidade de Caldas, hoje Caldas da Rainha. A menina tornou-se a substituta afetiva de uma filha de dona Maria, Maria Ana Victória, que se casara na Corte espanhola em troca de dona Carlota.

Desde a sua chegada à Corte portuguesa, dona Carlota se empenhou sempre em ser o centro das atenções e entregava-se, de corpo e alma, á suas duas paixões: a dança flamenca e a equitação. Foi uma adolescente que usava jóias e roupas extravagantes mas uma mulher difícil de desvendar.

Envolveu-se em tantas polêmicas que até as descrições físicas se revelam variadas e incoerentes. Magra, de baixa estatura (menos de 1,50m), pele morena marcada pelas cicatrizes da varíola, com grandes olhos negros e boca larga, de lábios finos e buço escuro e pronunciado. Vista como exótica , ela suportou o peso dos insultos anti-colonialistas do Brasil e do ódio liberal de Portugal.

Foi taxada de “bruxa de Córdoba”, “Maria Antonieta” lusitana, adúltera, e acima de tudo, conspiradora. Desde 1805 liderou cinco conspirações sendo a primeira a “Conspiração de Mafra” que tentou destronar o marido alegando que ele estaria sofrendo de uma doença semelhante à de sua mãe. Carlota Joaquina pretendia assumir a regência de Portugal mas Dom João descobriu a tentativa de golpe, puniu os envolvidos e partir de então passou a viver separado da mulher. Já no Brasil, tentou assumir o trono das colônias espanholas na América depois de Napoleão ter deposto o seu irmão, Fernando VII, rei da Espanha. Dom João impediu que ela viajasse para Buenos Aires onde pretendia ser aclamada princesa.

Já em Portugal, em 1821, recusou-se a assinar a Constituição e foi confinada no Palácio do Ramalhão, longe de Lisboa e do poder. Mesmo assim, em 1824, conspirou para fazer do seu filho predileto, Miguel, rei de Portugal, no movimento conhecido como “Abrilada” quando ele, à frente de um grupo de militares aprisionou o próprio pai e tentou assumir a Coroa. O golpe deu errado e dom Miguel acabou exilado como a mãe. Até na morte do marido há suspeitas da participação de Carlota Joaquina. Dom João VI morreu em 1826 em meio a acessos de náuseas e vomitos. Rumores na época falavam em envenenamento ordenado pela rainha. Depois da morte de dom João, envolveu se na sua derradeira conspiração, na qual tentou aclamar dom Miguel em detrimento da regente Isabel Maria. Perdeu mais uma vez.

Para dona Carlota Joaquina a fuga para o Brasil representou uma tragédia pessoal. Ao chegar tinha 32 anos e embora as suas intrigas não tivessem resultado, ela aprendera com os seus próprios erros e constituíra uma base informal de poder. Tudo desmoronou de um só golpe quando no “Alfonso de Albuquerque” acompanhada pelas suas filhas Maria Teresa, Maria Isabel, Maria da Assunção e Ana Maria de Jesus, zarpou do Tejo e tomou o rumo da colônia distante, a milhares de quilômetros das cortes européias.

A bordo, para além da escassez dos alimentos e da água, os sofrimentos foram agravados por uma infestação de piolhos que se espalhou pelos conveses abarrotados. Os nobres lançaram suas perucas infestadas ao mar e as mulheres, de dona Carlota para baixo, fizeram fila para raspar as cabeças e untá-las com banha de porco.

E foi com um turbante para cobrir a cabeça raspada que dona Carlota Joaquina desembarcou em Salvador para as cerimônias de boas vindas depois de uma viagem de 57 dias . Era uma mulher abatida. Amargurada, de imediato odiou o Brasil e o seu povo.

Depois de quase um mês na Bahia, dias de incontáveis festas, celebrações, passeios e decisões, a Corte partiu para o Rio de Janeiro onde Carlota Joaquina viria a ser coroada, a Princesa do Brasil.

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