Representantes de câmaras de comércio portuguesas no Brasil ouvidos pela Lusa pedem ao próximo Presidente menos burocracia, segurança jurídica e regras tributárias mais claras para facilitar a atividade empresarial, independentemente do vencedor das eleições presidenciais de domingo.

“As câmaras não devem dizer aos empresários em quem votar; devem dizer aos candidatos aquilo de que as empresas precisam para continuar a investir”, disse à Lusa Carlos Alberto Lopes, presidente da Federação das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil, que pediu segurança jurídica e previsibilidade judicial, simplificação tributária, redução do custo do capital, menos burocracia e melhores infraestruturas e qualificação profissional.
“O investidor precisa não apenas conhecer as regras, mas também ter uma expectativa razoável sobre a forma como serão interpretadas e aplicadas”, frisou.
Também à Lusa, o presidente da Câmara de Comércio Brasil-Portugal de Santa Catarina, Jatyr Ranzolin, pediu “estabilidade e clareza nas questões tributárias”, considerando que alterações à lei provocaram “muita insegurança e a falta de clareza deixou o mercado estagnado”.
Jatyr Ranzolin afirmou que “as questões de importação e exportação estão em compasso de espera, pois, a partir dos resultados da eleição, o mercado brasileiro pode aquecer muito”, referindo-se ao facto de as eleições decorrerem num contexto de tensões comerciais entre Brasília e Washington, após a imposição de tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros.
Já o presidente da Câmara Portuguesa de Negócios do Espírito Santo, Alvimar Pinto, defendeu a “segurança jurídica e estabilidade regulatória”, bem como a simplificação tributária e a redução dos custos de energia, crédito e logística.
“O que a câmara postula de quem for legitimado pelas urnas é governabilidade institucional, estrita responsabilidade fiscal, avanço ininterrupto nas reformas estruturais”, afirmou à Lusa.
Por sua vez, o presidente da Câmara de Comércio Portuguesa no Pará, Reginaldo Ferreira, pediu “uma política realista de redução de gastos do Governo, privatizações em massa rapidamente, negociação responsável com os governos dos USA, China e Europa”.
“Não permitindo que ideologias atrapalhem o nosso desenvolvimento”, sublinhou, à Lusa, frisando ainda que “o setor produtivo não consegue sobreviver com juros tão elevados”, com a taxa básica de juro brasileira atualmente em 13,75% ao ano.
O responsável apelou ainda a investimento em rodovias, ferrovias e portos, maior segurança e cumprimento dos contratos.
Apesar das prioridades comuns, Carlos Alberto Lopes e Jatyr Ranzolin consideram que o vencedor não é indiferente, dadas as diferentes propostas económicas. O presidente da Federação apontou diferenças “em matéria fiscal, papel do Estado, investimento e privatizações”, enquanto o representante de Santa Catarina criticou uma eleição “sem propostas de melhora do Brasil, mas sim de propostas individuais de candidatos”.
Carlos Alberto Lopes sublinhou que o rumo económico dependerá também da composição da Câmara dos Deputados e do Senado, já que as reformas exigirão uma agenda comum entre o executivo e o Congresso.
“Não vejo uma retração do interesse português pelo Brasil. Vejo maior seletividade”, afirmou Carlos Alberto Lopes, admitindo que algumas decisões de investimento possam ser adiadas até haver maior clareza sobre o rumo económico após as eleições.
No Espírito Santo, Alvimar Pinto referiu ajustamentos no calendário de novos investimentos de grande dimensão, mas salientou que “os projetos estruturantes não foram descontinuados”, considerando que “o compasso eleitoral impõe um custo de oportunidade temporário, mas não paralisia decisória”.
Infraestrutura
“Portugal parte com vantagens relevantes — língua, relações históricas, conhecimento mútuo e uma rede de Câmaras em todo o Brasil —, mas precisa transformar essas vantagens em negócios concretos”, disse à Lusa Carlos Alberto Lopes.
Para os próximos anos, prevê o “maior potencial em energia e transição energética, infraestrutura e saneamento, logística, tecnologia e inteligência artificial, saúde e agroindústria”.
“O Acordo União Europeia–Mercosul pode ampliar ainda mais essas oportunidades”, acrescentou, referindo-se ao acordo que entrou em vigor em maio e que permite gradualmente eliminar tarifas para 91% das exportações da UE para o Mercosul e para 92% das vendas sul-americanas para a Europa, abrindo um mercado conjunto de mais de 700 milhões de consumidores e que, juntos, representam um Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente 22 biliões de dólares (19 biliões de euros).
“É nesse ponto que a Federação e as Câmaras podem ter um papel decisivo como plataformas de oportunidades, parcerias e internacionalização empresarial”, afirmou Carlos Alberto Lopes.
No Espírito Santo, Alvimar Pinto, destacou a presença portuguesa no setor energético, através da EDP e da FOTUS, empresa de soluções fotovoltaicas “demonstrando que o capital português atua na vanguarda da matriz limpa”.
Alvimar Pinto apontou também oportunidades associadas à expansão portuária e aos investimentos petrolíferos no Espírito Santo, nomeadamente para “fornecedores lusos especializados em suprimento industrial e engenharia ‘offshore’”.
No turismo, que descreveu como um “canal prioritário de expansão”, o responsável adiantou que a Câmara prepara iniciativas com a Secretaria de Turismo estadual, a formalizar no início de 2027, para aumentar as viagens de negócios e de lazer.
Já no Pará, Reginaldo Ferreira, identificou oportunidades na transformação do couro bovino e do cacau.
“’Joint ventures’ são bem-vindas e os empresários portugueses nos parecem parceiros ideais, por enormes motivos”, afirmou.
Na carne bovina, o responsável defendeu a superação das dificuldades de acesso ao mercado europeu para aproveitar o acordo Mercosul–União Europeia, destacando também o potencial do turismo no estado.
Na sua opinião, as oportunidades poderão aumentar se forem superados os obstáculos logísticos e ambientais, vendo “no caminho de solução com um novo Governo com maior vocação capitalista”.
No sul, em Santa Catarina, o presidente da Câmara Jatyr Ranzolin, identificou a construção civil e os serviços como os principais setores de presença empresarial portuguesa.
“O mercado de tecnologia tem recebido bastante interesse, mas desde que seja a partir de Portugal”, acrescentou.
O Presidente Lula da Silva procura a reeleição aos 80 anos e o seu quarto mandato, enquanto o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-Presidente Jair Bolsonaro, tenta devolver o poder ao campo bolsonarista, quatro anos depois da derrota do pai contra o mesmo adversário que tenta agora derrotar.



