Mundo Lusíada
Com Lusa

Camilo Portugal, 41 anos, criou o projeto “Temperando – uma vida com mais sabor” e tem o sonho de tornar suas alunas reclusas que vivem regime semiaberto em futuras auxiliares e até mesmo ‘chefs’ de cozinha.
Portugal aposta no talento de mulheres do sistema penitenciário para que o ajudem no seu mais novo empreendimento: criar um restaurante de alta gastronomia no Rio de Janeiro com pratos sofisticados e utilizando como mão de obra qualificada ex-reclusas dos regimes aberto e semiaberto.
“A finalidade é criar o restaurante Temperando sob a minha supervisão. As mulheres irão para o meu restaurante e aprenderão o ofício na cozinha, vão aprender desde o que é o ‘garde manger’ (profissional responsável pelas comidas frias), confeitaria, cozinha quente e também limpeza. No meu restaurante não terá nenhum funcionário de fora, serão todas reclusas”, disse à Lusa.
Enquanto o restaurante está sendo montado, Camilo Portugal resolveu iniciar as aulas básicas no próprio presídio.
Desde janeiro deste ano, as noções básicas de alta gastronomia já estão a ser dadas no Instituto Penal Oscar Stevenson, unidade prisional feminina com capacidade para 300 internas, na zona norte do Rio de Janeiro.
O curso é concorrido mas apenas 10 alunas são escolhidas para participar na turma. “Eu as deixo a par do que acontece no mundo da gastronomia e levo revistas atualizadas”, conta Portugal.
As aulas acontecem uma vez por semana. Já cedo as alunas esperam o professor para aprender dicas de culinária e segredos da alta gastronomia. “Hoje nós vamos fazer mil folhas de peixe com puré de batata doce ao molho de limão siciliano e azeite trufado”, anunciou Portugal.
O cozinheiro se apoia na ajuda da sua assistente e inspiradora do projeto, Renilda Maria de Paula, e tudo é muito econômico: fogareiro portátil de uma boca, uma pequena frigideira, uma panela maior, colher de pau, espátula e os ingredientes já todos cortados em pequenos potes, porque na prisão não é permitido entrar com facas.
“Vocês tem que colocar a criatividade para decorar o prato. A imagem valoriza o prato, isso é gastronomia e é o que vocês vão aprender. Primeiro cria-se o prato, desenha-se no papel e depois executa-se na cozinha”, explica o ‘chef’.
Contente com a reação das suas alunas, Camilo Portugal traça planos para quando a sua cozinha estiver pronta e as reclusas tiverem autorização para fazer o curso fora.
Até lá, a assistente de Portugal garante que cozinhar é o que mais gosta de fazer e anseia por conseguir a progressão do regime para fazer o curso fora.
“O curso é muito importante para mim, vejo a perspetiva de trabalhar. Toda semana fico na expetativa da próxima aula. O nosso sonho é sair direto para cozinha com o Camilo”, diz Renilda de Paula. “Já tenho ideia de criar um prato meu”, diz a aspirante a ‘chef’.
A diretora da unidade prisional, Mirene Moura da Silva, por sua vez também apoia a iniciativa justamente pela dificuldade de reingressar no mercado de trabalho após cumprir a pena.
“O ‘chef’ visa a qualificar as internas para que elas possam retornar para a sociedade com um conhecimento e um ofício. Para quem passou pela prisão é tudo muito difícil ter oportunidade”, afirmou.



