A Lusofonia Não Existe (Ainda) – E Isso é o Nosso Maior Problema

Comunidade dos Países de Língua Portuguesa

Por Nuno Nabais Freire

Há uma ideia confortável que repetimos há décadas: a de que existe uma “lusofonia”. Uma comunidade unida pela língua, pela história e por um certo sentimento difuso de pertença. Um espaço cultural que atravessa continentes e que, no papel, parece quase uma evidência geopolítica.

O problema é simples: essa comunidade existe mais na retórica do que na realidade.

A lusofonia, tal como hoje a concebemos, é sobretudo uma construção emocional. Funciona bem em discursos institucionais, em cimeiras diplomáticas e em celebrações simbólicas. Mas quando a deslocamos do plano da identidade para o plano do poder, económico, político ou estratégico, começa a revelar as suas fragilidades.

O exemplo mais evidente é a CPLP. Criada com a ambição de ser o eixo estruturador deste espaço, a organização permanece, décadas depois, mais próxima de um fórum de boas intenções do que de um verdadeiro bloco de influência. Não há integração económica relevante, não há coordenação estratégica consistente e, sobretudo, não há mecanismos que transformem afinidade cultural em poder real.

 Veja-se o caso do tão celebrado Acordo de Mobilidade da CPLP. Vendido politicamente como um marco histórico para aproximar os cidadãos do espaço lusófono, a sua aplicação prática revelou-se um labirinto burocrático caótico, assimétrico e marcado por falhas graves de execução. A intenção era louvável, mas esbarrou precisamente na ausência de uma verdadeira máquina institucional capaz de a concretizar e fiscalizar. É o retrato perfeito do nosso problema crónico: uma comunidade que legisla baseada no afeto histórico, mas que colapsa na logística básica.

Compare-se, inevitavelmente, com a União Europeia. Também começou como um projeto político sustentado por uma memória comum, mas rapidamente percebeu que identidade sem estrutura é irrelevante. Criou mercado único, políticas comuns, instituições com capacidade executiva. Transformou proximidade histórica em força concreta.

A lusofonia não fez esse caminho.

Portugal, frequentemente apresentado como “ponte” ou “hub” deste espaço, enfrenta uma limitação estrutural: falta-lhe escala. Tem capital simbólico, capacidade diplomática e uma posição geográfica privilegiada, mas não tem massa crítica suficiente para liderar sozinho um projeto desta natureza. É um facilitador, não um motor.

Do outro lado está o Brasil, um gigante demográfico, económico e cultural que, paradoxalmente, opera cada vez mais fora da lógica lusófona. O centro da língua portuguesa já não está em Lisboa há muito tempo. Está em São Paulo, no Rio de Janeiro, no universo digital brasileiro. Mas esse centro não se traduz numa liderança organizada da lusofonia. O Brasil não lidera o espaço, orbita em torno dos seus próprios interesses globais.

Entre estes dois polos, os países africanos de língua portuguesa seguem trajetórias próprias, frequentemente mais ligadas a dinâmicas regionais do que a qualquer projeto lusófono estruturado. Angola olha para a África Austral, Moçambique para o Índico, Cabo Verde para o Atlântico e a diáspora. A língua une, mas os interesses divergem.

E é aqui que a ilusão se torna mais perigosa.

Confundimos proximidade cultural com alinhamento estratégico. Assumimos que partilhar uma língua é suficiente para criar um bloco. Não é. Nunca foi. A história mostra-nos que as comunidades linguísticas só se tornam relevantes quando se organizam em torno de interesses comuns, instituições eficazes e objetivos claros.

A lusofonia tem tudo isso em potência. Mas permanece, em grande medida, por concretizar.

E talvez o maior risco seja precisamente este: continuarmos a agir como se já existisse.

Porque enquanto acreditamos numa comunidade que não está estruturada, deixamos de fazer o trabalho necessário para a construir. Perdemos tempo em celebrações simbólicas enquanto o mundo se reorganiza em blocos cada vez mais definidos, económicos, tecnológicos, militares.

Num cenário global cada vez mais fragmentado e competitivo, a irrelevância não é declarada. Acontece em silêncio.

 Para travar este declínio, a resposta não pode ser a criação de mais cimeiras de boas intenções. Precisamos de pragmatismo estrutural. O que significa isto na prática? Significa criar, por exemplo, um mercado digital e tecnológico comum. O mundo lusófono precisa de um “Airbus da Língua”, um consórcio transcontinental, financiado conjuntamente, focado em desenvolver infraestruturas, modelos de Inteligência Artificial próprios e rotas comerciais privilegiadas entre os nossos continentes, não nos deixando à mercê de um colonialismo algorítmico anglo-saxónico. Precisamos de menos poesia nos discursos de abertura e de mais orçamento executivo.”

A lusofonia está perante uma escolha que já não pode ser adiada: ou se transforma num espaço organizado, com integração real, interesses definidos e capacidade de ação… ou continuará a ser apenas uma ideia bonita, evocada em discursos e esquecida na prática.

E no mundo em que entrámos, ideias que não se traduzem em poder têm um destino inevitável: desaparecem.
 Portugal e Brasil partilham o mesmo passado, mas só a coragem de construir uma estrutura comum garantirá que partilhem, também, o direito ao futuro.

Nuno Nabais Freire

Investigador Patrimonial Cultural | Especialista em Dinâmicas de Inovação Territorial 

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