Da Redação
Com ABr

O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou no evento que a CPLP é um projeto bem-sucedido, embora haja algumas “insatisfações, angústias e expectativas não cumpridas”. Apesar das dificuldades que a jovem comunidade enfrenta, Rebelo de Sousa afirmou acreditar que os objetivos principais foram mantidos e ressaltou a importância dos objetivos no âmbito econômico, energético, ambiental e de segurança alimentar.
“A CPLP é um projeto bem-sucedido, mas é um projeto de futuro. Podemos e devemos acreditar no futuro da CPLP, na sua vocação universal”, disse o presidente português.
O secretário executivo da CPLP, Murade Muragy, afirmou durante a cerimônia que é preciso trabalhar para uma agenda comum, “na identificação de áreas prioritárias de intervenção, na adequação dos recursos humanos, técnicos e financeiros para a CPLP ser mais útil, mais eficiente”.
“A CPLP não pode ficar alheia às tendências estratégicas mundiais, regionais e sub-regionais que caminham para aceleradas integrações políticas e econômicas. Não deve ficar refém da nostalgia da língua portuguesa e deixar de aproveitar as oportunidades que o mundo multipolar contemporâneo nos oferece, tanto em conexões como em oportunidades de criar cadeias de valor”, afirmou Muragy.
A comunidade é o foro multilateral para o aprofundamento da amizade mútua e da cooperação entre Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Tem personalidade jurídica, é dotada de autonomia financeira e conta com seis Estados com a categoria de Observador Associado (Geórgia, Japão, Maurícia, Namíbia, Senegal e Turquia) e com 64 instituições como observadores consultivos.
Objetivos
Os três objetivos centrais da comunidade são a concertação político-diplomática; a cooperação em todos os domínios; e a promoção e difusão da língua portuguesa.
Para o conselheiro Paulo André Moraes de Lima, chefe da Coordenação-Geral da CPLP, do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, o fato de o Brasil ser o Estado-Membro com maiores território, população e Produto Interno Bruto (PIB) dá ao país a oportunidade de projetar interesses e posições. “Nos dá uma possibilidade de projeção em outros fóruns internacionais, por exemplo, na ONU [Organização das Nações Unidas], quando a gente chega como um bloco. Acontece também na Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura], na ONU em Genebra, em questões como trabalho, saúde. O apoio da CPLP foi muito importante em certas candidaturas brasileiras em foros internacionais estratégicos para o Brasil, como a do José Graziano, na FAO [Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura], e do Roberto Azevêdo, na OMC [Organização Mundial do Comércio]. Esses apoios mútuos são muito importantes.”
Assim como o presidente de Portugal, o diplomata Morais de Lima acredita que a CPLP vem colhendo frutos bem-sucedidos durante o processo de amadurecimento. “Ela [a CPLP] ainda está em fase de consolidação e ainda tem desafios pela frente. Na área de concertação política, por exemplo, a CPLP desempenhou papel muito importante no acompanhamento de algumas crises nos Estados-Membros, como no processo de emancipação do Timor-Leste – que nem era Estado-Membro porque não era um Estado mas, assim que se tornou independente, passou a integrar a CPLP imediatamente. Acompanha a Guiné-Bissau permanentemente, que é um país que ainda apresenta alguma instabilidade institucional”, disse.
“A CPLP organiza missões de observação eleitoral aos Estados-Membros que pedem, e foi importante para o fortalecimento institucional de países que se constituíram como Estado mais recentemente. Na área da cooperação, há um potencial que ainda não foi totalmente explorado e, para o Brasil, é um lugar em que a gente consegue desenvolver nossa política de cooperação Sul-Sul. Em relação à língua, talvez seja o ponto onde tenhamos avançado menos. O Instituto Internacional da Língua Portuguesa tem desenvolvido um importante trabalho. Ainda há um imenso potencial não explorado”, completou.
Por outro lado, para Enilde Faulstich, professora e pesquisadora de Políticas Línguísticas da Universidade de Brasília, os objetivos de promoção e difusão da língua portuguesa vêm sendo alcançados.
“Um caso exemplar é o do Timor-Leste, que, na Oceania e cercado de línguas distintas, esforça-se na coordenação estratégica de difundir a língua portuguesa no Estado. Então, a promoção e difusão vão muito bem, se considerarmos como ponto de partida onde estou, no Brasil. Ilustramos com o grande número de professores brasileiros que ministram aulas de português em universidades estrangeiras e com obras escritas por brasileiros que estão no mercado livreiro internacional. É preciso destacar, por sua vez, que escritores moçambicanos, angolanos, cabo-verdianos estão no mercado editorial brasileiro, como vi, há duas semanas, diversos livros de literatura escritos por africanos, à venda por livreiros em um Encontro Nacional de que participei em São Paulo”, afirmou Enilde.
Para o diplomata Morais de Lima, um dos principais desafios da CPLP atualmente é o de não duplicar as agendas. “Como todo organismo internacional, a comunidade tende a duplicar agendas no sentido de que temas que são tratados no âmbito das Nações Unidas ou da Unesco naturalmente acabam sendo replicados, o que não é uma coisa negativa em si. A questão é quando acaba desenvolvendo iniciativas paralelas e duplicadas em determinados assuntos. A CPLP precisa aprimorar qual é o seu nicho de atuação. Um desafio é como a gente vai se integrar à agenda global sem duplicar esforços”, disse.
O diplomata afirmou ainda que as crises econômicas acabam por vezes dificultando a participação dos países na comunidade. “Isso tem um impacto negativo no sentido de que a capacidade dos países de dar contribuições fica reduzida, mas é algo conjuntural, e a gente espera que essa situação seja superada. Quando o país está numa crise política, ele tende a se fechar mais em si mesmo, e a participação nos fóruns internacionais fica prejudicada porque a prioridade é interna.”
Para a professora Enilde, uma comunidade que pretende viver em comunhão não pode ser discutida por grupos que não interferem nos grandes negócios. “ A língua tem valor econômico que precisa ser considerado no âmbito do Produto Interno Bruto de cada país. A CPLP precisa enxergar que valor econômico e PIB seguem uma geografia, a geografia do dinheiro, que é um dos fundamentos da riqueza dos povos. O outro fundamento é a língua. Nenhuma comunidade mundial é capaz de se desenvolver sem esse fundamento cultural, sem se comunicar, sem interagir. Assim sendo, no desenvolvimento dessa geografia e no desempenho do PIB linguístico e cultural, quem interfere é a sociedade civil, aquela que está nas escolas, nas universidades, nos institutos de pesquisa. Nesses lugares, a língua é objeto de fala, de escrita e de produção escolar, literária, intelectual.”
Sobre as políticas brasileiras de promoção e difusão da língua portuguesa, a professora ressalta a importância da Missão do Brasil Junto à CPLP, com sede em Lisboa, que dispõe de dados relevantes sobre a língua portuguesa como “materna multinacional”. Ela afirma ainda que a preservação da regra do consenso na comunidade é um êxito, pois não há predominância de nenhum Estado-Membro sobre outro.
Em novembro, o Brasil deverá assumir a presidência rotativa da comunidade pelos próximos dois anos, ocupada atualmente pelo Timor-Leste.



