“É bom dar alegria ao povo português e tirar drama que fizeram da equipe”, diz Nelson Évora, ouro em Pequim.
Mundo Lusíada Com Lusa
Foram duas medalhas portuguesas nos Jogos Olímpicos Pequim 2008. A portuguesa Vanessa Fernandes conquistou a medalha de prata na prova de triatlo, ficando em segundo lugar na individual, atrás da australiana Emma Snowsill. Vanessa Fernandes, pentacampeã européia, foi campeã mundial da modalidade em 2007. No salto triplo, um português fez a melhor marca da temporada (17,67m), e garantiu a medalha de ouro para Portugal. A vitória de Nelson Évora representa a quarta medalha de ouro portuguesa na história dos Jogos Olímpicos, a 22ª no total. Com isso, esta tornou-se a melhor edição dos Jogos Olímpicos para o país em todos os tempos. A história lusa só dispunha 3 ouros, de Carlos Lopes (1984), Rosa Mota (1988), e Fernanda Ribeiro (1996). Logo atrás do primeiro lugar de Évora, aparece o britânico Phillips Idowu e o baremense Leevan Sands. Apático, o brasileiro Jadel Gregório ficou em 6ª colocação. Mas muita expectativa foi criada em cima dos atletas portugueses. Na natação, Sara Oliveira acabou em 19ª nos 200 metros nado borboleta, batendo seu recorde anterior, mas com um “nó na garganta” por ficar a 73 centésimos das meias-finais. Na piscina de Pequim 2008, a natação lusa registrou quatro recordes nacionais, também depois de Pedro Oliveira ter conseguido novos máximos nos 100m borboleta. Já Carlos Almeida venceu a sua série dos 200m bruços e bateu um recorde nacional de 11 anos, de José Couto em 1997. Nestas olimpíadas, Almeida ficou apenas no 32º lugar. O judô e o tiro também desiludiram. A judoca Telma Monteiro foi protagonista da primeira grande desilusão portuguesa nos Jogos Olímpicos Pequim, ao perder dois combates e igualar apenas o 9º lugar alcançado em Atenas 2004. João Neto, o campeão da Europa de 81 kg, foi 9º e João Costa não fez melhor do que o 33º lugar na pistola livre 50 metros, especialidade de que é líder do "ranking" mundial. No judô português, melhor resultado foi para Ana Hormigo em 48 kg, com 7º lugar. Diante de críticas e frustrações, no "Ninho de Pássaros", o destaque luso Nelson Évora, que é filho de caboverdiano, deu seu recado. “É bom poder dar esta alegria ao povo português e tirar esse drama que fizeram de toda a equipe, de estar a ser uma péssima prestação de todos e que vieram para aqui passear”, disse nas primeiras declarações, no Estádio Olímpico de Pequim. “Fiquei triste quando fizeram esse tipo de ataques à nossa equipe porque essas críticas muito duras de fora acabaram por abater a equipa. Nós unimo-nos e esta medalha é um pouco o reflexo do que aconteceu nestes Jogos Olímpicos”, acrescentou o campeão olímpico. Demissão Vicente Moura chegou a anunciar sua demissão da presidência do COP (Comitê Olímpico de Portugal), motivado sobretudo pelo fraco desempenho do país no evento. Após a vitória de Évora porém, Moura admitiu continuar a presidir o COP desde que as federações lhe dêem o “poder e força” para promover as alterações que pretende. “Só ficarei no COP se tiver apoio, não unânime, mas esmagadoramente forte das federações e com poder e força, porque é preciso fazer algumas mudanças essenciais”. O dirigente diz ter recebido inúmeras manifestações de apoio para continuar, dezenas de ligações e um montante de e-mails. Ele deixou seu futuro na mão das federações. “Há pessoas que dizem mal, as carpideiras profissionais. Mas também não posso agradar a toda a gente”. Após as declarações de Vanessa Fernandes, que disse considerar haver atletas em Pequim que “não sabem o que é alta competição”, o presidente do COP defendeu que a missão portuguesa em Pequim é constituída por 77 atletas com “cultura e educação muito diversificadas”. "Não podemos esperar que todos respondam da mesma maneira às suas prestações desportivas", acrescentou Vicente Moura. “Acho que provei que as quatro ou cinco medalhas não eram nenhuma utopia, mas possíveis. O Gustavo Lima ficou a um ponto, a Naide [Gomes] provavelmente ganharia uma medalha, não era utopia. Não era ilusão. Não estava a enganar o povo português”, desabafou. Luso-brasileiro abandona vela O velejador luso-brasileiro Gustavo Lima, nascido no Rio de Janeiro, anunciou sua decisão de abandonar a alta competição, lamentando que as condições de trabalho em Portugal lhe impeçam de estar entre os melhores velejadores do mundo. “Não me quero sujeitar mais a isso, já chega. Se não fosse o José Luís Costa, que é o número dois português, eu provavelmente teria passado os últimos quatro anos a treinar sozinho. A Vanessa Fernandes tem treinadores, tem técnicos, tem colegas que a motivam”, afirmou. Segundo ele, os atletas olímpicos abdicam de muitas coisas na vida para atingir resultados que são tão difíceis quanto as condições de treino são insuficientes. “Não faz sentido dedicar seis, sete, oito horas por dia sozinho a treinar em Cascais”, disse em declarações emocionadas, chorando várias vezes, no final da competição de vela de classe Laser dos Jogos Olímpicos, onde ficou a um ponto da medalha de bronze. “É um desporto difícil financeiramente, onde estamos totalmente dependentes da federação, do dinheiro do Estado e de um ou dois patrocinadores e acaba por aí”. O secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, comentando sobre a competição “mais exigente do mundo”, defendeu a conquista de recordes nacionais “ao nível das melhores de sempre”. No final da competição, Portugal ficou na 46ª posição no quadro de medalhas, com a conquista de uma prata, e um ouro do português que “carregava as esperanças de um país inteiro e conseguiu concretizá-las”. “Nelson Évora conseguiu agüentar a pressão dessas expectativas e dessa tristeza, e agüentar a pressão dos adversários”, comentou Dias. “Isso prova que é preciso apostar nestes jovens”.
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