Empresas portuguesas “bastante afetadas” por tarifas dos EUA têm de diversificar mercados

A Associação Empresarial de Portugal (AEP) alerta que as empresas nacionais serão “bastante afetadas” direta e indiretamente pelas novas tarifas anunciadas pelos EUA e destaca a importância acrescida da diversificação dos mercados de exportação para minimizar riscos.

Em declarações à agência Lusa, o presidente do conselho de administração da AEP – uma das 16 associações empresariais convocadas pelo Ministério da Economia para uma ronda de reuniões na próxima semana, para avaliar “o impacto e as medidas de mitigação” das novas tarifas –, avançou que irá transmitir ao Governo “bastante preocupação, pois as empresas portuguesas vão ser fortemente afetadas”.

“Por um lado, por via direta, porque as exportações de bens ficarão mais caras para o mercado americano, o nosso quarto principal cliente e o primeiro não europeu, com um peso de cerca de 7% no valor global das exportações portuguesas de bens”, explicou Luís Miguel Ribeiro.

“Por outro lado, os efeitos sentir-se-ão também por via indireta, sobretudo pelo impacto que a União Europeia, para onde dirigimos mais de 70% das nossas exportações, vai sofrer e que se repercutirá na dinâmica da procura externa dirigida à economia portuguesa”, acrescentou.

A AEP antecipa que os setores que terão “maior dificuldade em lidar” com as taxas adicionais serão, “naturalmente, aqueles que têm um relacionamento comercial com os EUA, sobretudo os que estão fortemente expostos a este mercado”, destacando “vários setores com elevado grau de especialização produtiva da economia portuguesa, como os bens alimentares, os têxteis e o calçado”, assim como “os produtos das indústrias químicas, metalomecânica e de equipamentos”.

“Mas – enfatiza Luís Miguel Ribeiro – haverá muito mais, pois não podemos esquecer os impactos indiretos”.

Neste contexto, a associação aponta a diversificação dos mercados de exportação como “essencial para minimizar riscos”, lembrando as iniciativas que tem em curso para auxiliar as empresas nesse processo, nomeadamente o seu projeto de apoio à internacionalização Business on Way (BOW).

Em termos mais gerais, o dirigente associativo lembra a estimativa do Banco de Portugal (BdP) de que um choque de tarifas poderá gerar um impacto negativo de 0,9 pontos percentuais no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) português já este ano, no que diz ser “um sinal muito preocupante, tendo em conta que a magnitude deste impacto corresponde a cerca de 40% do crescimento projetado para a economia portuguesa para 2025”.

Relativamente às medidas necessárias para tentar mitigar o impacto das novas tarifas impostas pelos EUA, a AEP diz ter em curso um inquérito junto das empresas para as auscultar quanto ao impacto econômico desta medida.

Para além de apresentar os resultados deste inquérito, na reunião convocada para a próxima semana pelo Ministério da Economia a associação pretende “reafirmar um conjunto de medidas” que já apresentou a este Governo, nomeadamente no âmbito do Orçamento do Estado.

Em causa estão medidas “direcionadas à melhoria da produtividade e competitividade das empresas, designadamente ao nível do estímulo à reindustrialização, ao redimensionamento empresarial e à diversificação de mercados, sem esquecer a diminuição da excessiva burocracia e regulamentação em toda a relação do setor público com as empresas”.

Segundo salienta, “estes obstáculos continuam a penalizar bastante o normal desenvolvimento da atividade empresarial e são um claro entrave ao crescimento robusto e sustentado da economia portuguesa”.

O Ministério da Economia vai reunir-se na próxima semana com 16 associações empresariais de diversos setores para avaliar “o impacto e as medidas de mitigação” das tarifas anunciadas pelo Presidente dos EUA, anunciou na quinta-feira o executivo.

Estes encontros irão decorrer de quarta a sexta-feira, em Lisboa e no Porto, contando ainda com a participação de representantes da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), IAPMEI, Compete, Direção-Geral das Atividades Económicas (DGAE) e Banco Português de Fomento (BPF).

O objetivo é “abrir um canal de diálogo com os setores que serão mais afetados pelo modelo das ‘tarifas recíprocas’”, designadamente a indústria automóvel, combustíveis, borracha, setor elétrico e eletrónico, metalurgia e metalomecânica, madeira e mobiliário, cortiça, calçado, curtumes, têxtil e vestuário, têxtil-lar e lanifícios, além das associações patronais AIP, CIP e AEP.

Donald Trump anunciou na quarta-feira novas tarifas norte-americanas de 20% a produtos importados da União Europeia e que acrescem às de 25% sobre os setores automóvel, aço e alumínio. As novas tarifas foram impostas sobre todas as importações, com sobretaxas para os países considerados particularmente hostis ao comércio.

A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já afirmou que as novas taxas alfandegárias anunciadas pelo Presidente dos Estados Unidos constituem um “duro golpe” para a economia mundial.

Douro

Segundo o presidente da Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP) foram suspensas ou canceladas encomendas de vinho para o mercado norte-americano, antes do anúncio de novas tarifas de 20% à União Europeia.

“Há várias encomendas que foram suspensas ou anuladas à espera da clarificação da situação relativamente às tarifas”, afirmou António Filipe na quinta-feira, referindo-se a empresas associadas da AEVP.

Especificou que esta situação aconteceu depois da ameaça feita pelo Presidente Donald Trump, em meados de março, de aplicar taxas de 200% a bebidas como o vinho proveniente da União Europeia.

“De modo que os embarques não fossem apanhados em trânsito, e inesperadamente tivessem que pagar à entrada [nos Estados Unidos da Amarica] taxas que não estavam ainda decididas. Portanto, temos várias encomendas canceladas e várias encomendas suspensas à espera de uma clarificação” referiu.

O mercado norte-americano está no “top cinco”, ou seja nos cinco principais mercados de exportação dos vinhos produzidos na Região Demarcada do Douro, em termos de quantidade e de valor.

Em 2024, foram exportados cerca de 36 milhões de euros de vinho do Porto para os EUA, o que se traduz num aumento de 6,5% comparativamente com o ano anterior.

A nível dos vinhos Denominação de Origem Controlada (DOC) Douro o mercado norte-americano representou um volume de negócios que ronda os 5,6 milhões de euros.

O responsável disse que, naturalmente, “o esforço será feito no sentido de ir procurando noutros mercados alguma compensação”. 

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