Especial 200 anos: Regressar é Preciso: e o Império de D.João surgiu, próspero

ESPECIAL 200 ANOS

PARTE IX

 

Por Eulália Moreno

Especial para Mundo Lusíada

 

RIO DE JANEIRO >> “Aclamação de D.João VI”, Gravura de J.B.Debret, Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

 

 

Sir Charles Oman, no livro “A History of the Peninsular War

“Portugal com seus portos bloqueados vive num estado lamentável de penúria. O desemprego tomou conta de Lisboa. Famintos, os moradores migram em bando para o interior do país, em busca do que comer. A capital está deserta. Nas ruas não se vê nenhum veículo ou pedestre, com exceção de 20 mil pessoas reduzidas à condição de mendigas, tentando viver de esmolas”

 

 

Durante a permanência da Corte no Brasil a política externa do país esteve muito ligada às ambições da esposa do Príncipe Regente. Filha de Carlos IV e irmã de Fernando VII, a quem Napoleão destituiu e exilou, assim que dona Carlota Joaquina soube o que aconteceu aos seus familiares e ao trono espanhol ocupado pelo irmão de Napoleão, José Bonaparte, começou a alimentar duas altas pretensões: a regência da Espanha e o cetro de um Império espanhol na América. Logo que chegou ao Rio de Janeiro pôs-se em contacto com Buenos Aires, centro político do vice-reinado do Rio da Prata (na época um vasto conglomerado do que hoje são a Argentina, a Bolívia, o Paraguai e o Uruguai), Peru, Chile e até mesmo com o México fazendo circular um manifesto, “Justa Reclamación”, no qual, após narrar a abdicação forçada de seu pai e de seu irmão, se declarava obrigada a manter a autoridade dos Bourbons, organizando, sustentando e defendendo o novo Império.

A princípio dona Carlota Joaquina contou com o apoio do marido, a quem não era totalmente estranho o desejo português de estender os seus limites até o Rio da Prata. Quando Espanha e Portugal se refizessem do caos em que se havia tornado a Europa, pensava ela, uma nova dinastia brilharia no Novo Mundo, encimada pelas coroas de Bourbon e Bragança, em cuja capital Buenos Aires ela reinaria como Rainha provisória.

Entretanto Buenos Aires tinha outras idéias. Assim que se soube da deposição de Carlos IV e da ocupação da Espanha por tropas francesas, o General Belgrano depôs o Vice-Rei e conquistou a independência das Províncias Unidas do Rio da Prata (mais tarde, Argentina) e procurou manter o domínio sobre o Paraguai. O governo de Assunção pediu auxílio a dona Carlota Joaquina que se disponibilizou a ir até Rio da Prata. Para seu espanto e decepção a viagem foi cancelada por ordem do Príncipe Regente pressionado pela influência da política inglesa a qual interessava muito mais várias repúblicas independentes do que dois Impérios poderosos. Segundo alguns historiadores, além de atender aos interesses ingleses a negativa de dom João esteve relacionada ao temor de que assim que a terrível Carlota Joaquina se visse reinando em Buenos Aires, preparasse um exército para invadir o Brasil, formando assim apenas um poderoso Império sob o seu domínio.

Dom João ainda enviou tropas mas os revoltosos sob o comando de José Gaspar Francia expulsaram o representante espanhol. Restava um território conhecido na época como Banda Oriental (posteriormente, o Uruguai) onde forças de Buenos Aires se juntavam aos patriotas de José Gervasio Artigas (a quem dom João acusava de contínuas violências contra o Rio Grande do Sul), e partiu em socorro do Vice-Rei Xavier Elío. Foi mais um esforço inútil. Em 1812 dom João teve de reconhecer o Governo de Buenos Aires e aos poucos as lutas no Sul passaram a ser apenas entre brasileiros e uruguaios, estes, às vêzes apoiados por Buenos Aires.

Ao fim de anos de lutas sangrentas a região uruguaia foi ocupada por tropas luso-brasileiras e em 31 de julho de 1821 a parte oriental do Uruguai foi anexada ao Brasil com o nome de Província Cisplatina. Estava assim realizado o sonho que Portugal alimentava desde muitos anos: ter como limite natural dos seus domínios, ao Sul, o Rio da Prata. Os eventuais projetos de dona Carlota Joaquina foram, assim, destruídos pela própria ação do marido. Enquanto a política externa traçava um novo limite territorial brasileiro, a política interna apresentava uma diversidade de aspectos menos animadores.

Se, por um lado, membros da Corte começavam a aclimatar-se ao Brasil e o Rio de Janeiro recebia melhoramentos com as suas ruas sendo calçadas, novas propriedades compradas e o comércio se desenvolvendo, a liberalidade com os gastos da Corte e a penosa campanha do Sul, haviam esvaziado o Tesouro. As iniciativas industriais haviam fracassado face à concorrência dos produtos ingleses que, pelos termos do acordo de 1810, penetravam em massa no país. Os brasileiros reclamavam contra o fato de os postos chaves da administração permanecerem em mãos portuguesas e, não raro, eclodiam brigas e tumultos entre pessoas das duas nacionalidades.

Nada suficiente para alterar a rotina de dom João. Seu dia de trabalho começava, invariavelmente, às seis da manhã. Quase sempre vestindo um velho casaco sujo, puído, de grandes bolsos. Só em ocasiões especiais trocava o paletó pela farda vermelha com condecorações. Depois das orações matinais, quebrava o jejum comendo, no mínimo, três frangos e torradas. A seguir, quatro ou cinco mangas da Bahia. Tudo isso acompanhado de água já que raramente bebia vinho. Guardava nos bolsos alguns pedaços de frango que comia enquanto concedia audiências aos fidalgos mais íntimos e ao pessoal da administração.

No princípio da tarde, reunia-se com os filhos, dom Pedro e dom Miguel e iam almoçar. Finda a sobremesa, os camareiros entregavam a dom Miguel um jarro com água, dom Pedro recebia uma bacia e o pequeno dom Sebastião, filho da infanta dona Maria Teresa e de dom Pedro Carlos, primo de dona Carlota Joaquina, uma toalha. Dom Miguel jogava a água, e dom Pedro segurava a bacia para que dom João pudesse lavar as mãos, que cabia a dom Sebastião enxugar. Após essa cerimônia, dom João retirava-se para a sesta e às cinco horas da tarde dava um passeio pelos arredores. À noite recebia os ministros e conselheiros para discutir as questões de Estado. Quando discordava de alguma coisa e faltavam-lhe argumentos para discutir, adiava indefinidamente a questão, até que o caso fosse esquecido.

Não obstante, as dificuldades que encontrava no Brasil eram bem menores do que o afeto que sentia pela terra. Em Portugal fora sempre um príncipe sob pressão das potências estrangeiras. Só aqui encontrara clima para governar em paz. Aqui lhe haviam pedido para construir um Império.

Em 1815 as nações européias tinham finalmente esmagado o exército de Napoleão que fora deposto e desterrado. Livres da França, os portugueses esperavam naturalmente o regresso do Rei e o retorno à antiga situação. Com o tempo foram percebendo que não obteriam nem uma coisa, nem outra. A 17 de dezembro de 1815, último aniversário da Rainha dona Maria, que morreria no ano seguinte, o Príncipe Regente decretara a formação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Dom João não falava em voltar, nem cogitava revogar os decretos que haviam equiparado o Brasil a Portugal, que empobrecia e perdia a sua importância política. Além disso, as idéias liberais, que pediam uma monarquia constitucional em substituição ao absolutismo começavam a tomar conta de Lisboa.

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