Venezuela: Sobe para 71 o número de portugueses e lusodescendentes mortos

A agência alimentar da ONU informou que está a distribuir ajuda a milhares de pessoas quase uma semana depois de dois fortes sismos terem atingido a costa norte da Venezuela, incluindo La Guaira, uma das zonas mais afetadas. Imagem WFP/ Lusa

O número de portugueses e lusodescendentes mortos devido aos sismos de quarta-feira na Venezuela subiu para 71, havendo ainda 71 desaparecidos, segundo o mais recente balanço divulgado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE).

De acordo com o MNE, entre os 71 mortos, 61 dos quais tinham também nacionalidade venezuelana, estão 11 crianças e 60 adultos.

O anterior balanço dava conta de 68 portugueses e lusodescendentes entre as vítimas mortais do duplo sismo que atingiu a Venezuela no dia 24.

O duplo sismo que atingiu a Venezuela na passada quarta-feira provocou 1.943 mortos e 10.571 feridos, segundo o último balanço oficial hoje divulgado pelas autoridades venezuelanas.

Os dados oficiais indicam também acima de 15 mil desalojados, informou o presidente do parlamento, Jorge Rodríguez, atualizando o último balanço de vítimas, que era de 1.719 mortos e 5.034 feridos.

De acordo com as autoridades, 6.461 pessoas foram resgatadas desde o início das operações de socorro.

Familiares

Portugueses e luso-venezuelanos tentam conhecer o paradeiro de familiares de La Guaira que sobreviveram ao duplo sismo na Venezuela, mas que entretanto foram levados para centros de acolhimento locais e em Caracas.

“Sim foram resgatados. Há uma grande desorganização aqui. Estão a levá-los para um sítio, depois transferem-nos para outro e não se conseguem localizar os familiares”, disse à Lusa um membro da direção do Centro Luso-Venezuelano de Cátia La Mar (CLVCM).

Freddy de Quintal, tesoureiro do CLVCM, explicou ainda que ele próprio tem um sobrinho que sobreviveu, precisando que este estava na igreja, porque faria a primeira-comunhão.

“Tenho um sobrinho cuja mãe morreu; o edifício ruiu e ele estava na igreja porque ia fazer a comunhão. Temos andado à procura dele, tinham-no enviado para o campo de golfe em Caribe, esteve lá porque aparece no registo, mas não sabem para onde o enviaram”, disse.

Freddy de Quintal explicou ainda que soube através da Internet que o sobrinho estaria no Centro Desportivo de La Guaira, para onde se dirigiu para o encontrar, mas sem sucesso.

“Chegamos lá e não estava. Está desaparecido, não o encontramos em lado nenhum. Estamos muito angustiados porque o pai está na Madeira e a mãe estava aqui. Eles já tinham comprado os bilhetes para regressarem de uma vez por todas para lá viver (…). A esposa faleceu e não conseguimos encontrar o filho. Estamos à procura aqui na Guaira, em Caracas, por todo o lado”, frisou.

O dirigente do CLVCM lamentou que as autoridades tenham encerrado a autoestrada que liga a cidade de Caracas àquele estado.

“É um problema, a autoestrada está bloqueada neste momento, não deixam ninguém passar, exceto quem tenha um salvo-conduto. É duro, é mesmo duro o que estamos a viver aqui”, disse.

Explicou ainda que esteve na localidade de Playa Grande, uma das áreas afetadas de La Guaira, e que está irreconhecível, a tal ponto que as pessoas se desorientam.

“Conheço bem Playa Grande, e de repente estando lá não sabia onde estava. Porque, por todo o lado, tudo desabou, grandes edifícios desabaram (…) completamente. Tive de perguntar às pessoas onde estava porque não sabia, de tão irreconhecível que está Playa Grande”, frisou.

Este luso-venezuelano explicou à Lusa que o duplo sismo foi ainda mais devastador que as enxurradas de 1999, que provocaram muitas vítimas, entre elas portugueses.

“Isto foi pior do que essa tragédia, porque durou apenas um segundo e tudo desabou. A tragédia [enxurradas] durou uma noite inteira e, quando acordámos de manhã, estava tudo destruído. Mas isto durou apenas um segundo, foi horrível, horrível”, disse.

Sobre o Centro Luso-venezuelano de Cátia La Mar, explicou que sofreu danos estruturais consideráveis.

“Na parte de cima, tínhamos a sala onde se davam aulas de português. As suas salas desabaram, tudo caiu. Na parte de baixo, o restaurante onde os portugueses passam o tempo, está tudo rachado, praticamente (…) destruído”, disse.

Explicou ainda que não houve vítimas porque o sismo duplo decorreu num dia feriado.

No entanto, disse, em La Guaira ainda não há números totais, mas morreram milhares de pessoas, entre elas mais de 20 associados do CLVCM, incluindo o vice-presidente.

Vários países, incluindo Portugal e outros Estados da União Europeia, enviaram equipas de busca e salvamento para a Venezuela.

A base de operações da missão portuguesa de resposta aos sismos está sediada no Centro Luso-Venezuelano de Cátia la Mar, em La Guaira, uma zona de grande concentração de portugueses e lusodescendentes.

Os sismos de magnitude 7,2 e 7,5 ocorreram a 200 quilómetros de Caracas, com menos de um minuto de intervalo e foram seguidos por mais de 20 réplicas, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Dezenas de edifícios ruíram ou ficaram gravemente danificados na capital Caracas e na região de La Guaira, uma das mais afetadas.

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