Tradições lusófonas reforçam importância do patrimônio imaterial

Carnaval de Podence, Portugal, Inscrito em 2019 na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Por Beatriz Cardeal
Da Redação ONUNews

Em todas as partes do mundo, a cultura ganha vida com o movimento dos corpos, ritmos locais, artesanato e histórias passadas entre gerações. 

Para reconhecer e proteger essas manifestações, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, celebra neste sábado, 17 de outubro, o Dia Internacional do Patrimônio Cultural Imaterial. 

Comunidade lusófona
Em mensagem oficial, o diretor-geral da agência, Khaled El-Enany, destaca que o patrimônio intangível existe porque as pessoas o mantêm vivo, enfatizando que hoje 185 países já aderiram à Convenção de 2003 para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial.

Definida pela Conferência Geral da Unesco em sua 42ª sessão, a data destaca a necessidade de preservar a herança cultural. Nesse ano, foi estabelecido a Década Internacional da Cultura para o Desenvolvimento Sustentável (2027-2036) pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

Nos países de língua portuguesa, esses patrimônios expressam a pluralidade das sociedades. Da África à Europa, as comunidades lusófonas mantêm vivas práticas que unem arte, fé, justiça e conhecimento ancestral.

Portugal: a tradição da Arte Equestre
Inscrita em 2024 na Lista Representativa da Unesco, a Arte Equestre em Portugal busca por uma harmonia profunda com o animal e é caracterizada pela postura do cavaleiro na sela, trajes e arreios tradicionais.

A comunicação entre o cavaleiro e o cavalo incentiva a cooperação voluntária, sem o uso da força física e focando no bem-estar do animal.

Praticada por homens e mulheres de todas as idades, a prática preserva técnicas como a “monte à amazona”, executada exclusivamente por grupos femininos.

A transmissão do conhecimento ocorre por meio de academias, escolas de equitação e centros equestres, sendo alimentada no dia a dia por tratadores, criadores, veterinários e artesãos.

Além de sua relevância técnica, a Arte Equestre atua como elemento de identidade coletiva, presença central em romarias, feiras anuais e celebrações sociais por todo o país.

Angola: a matemática ancestral do Sona
Na África Central e Ocidental, a arte dos Sona, desenhos e figuras geométricas traçadas na areia, representa o conhecimento tradicional do povo Lunda Cokwe e de comunidades vizinhas no leste de Angola.

Os praticantes usam o indicador e o dedinho para marcar pontos de referência no chão úmido e coberto de areia, traçando linhas contínuas ao redor desses pontos.

A técnica é transmitida tradicionalmente durante os ritos de iniciação dos jovens e nas últimas décadas institutos educacionais e acadêmicos passaram a utilizá-lo como ferramenta para o ensino da matemática e antropologia.

Reconhecido pela Unesco em 2023, o Sona é uma forma de linguagem usada para expressar crenças, pensamentos, emoções e a relação do ser humano com a natureza.

Foto © Unesco/Jorge Dias Veloso Inscrita em 2023 na Lista do Patrimônio Imaterial, a Sona refere-se a desenhos e figuras geométricas na areia. É praticada pelo povo Lunda Cokwe e povos vizinhos no leste de Angola.

Moçambique: o rito de passagem Ingoma Ya Mapiko
Listada como Patrimônio Cultural Imaterial que Necessita de Salvaguarda Urgente, a dança Ingoma Ya Mapiko é uma celebração ritualística praticada pelo povo Makonde, no norte de Moçambique.

Tradicionalmente realizada sob a sombra dos cajueiros e mangueiras, a dança marca a transição da puberdade para a vida adulta, mas também é executada em funerais ou festividades comunitárias.

Na performance teatral, os dançarinos mascarados atuam individualmente ou em grupo, acompanhados por tambores e um coro de homens e mulheres que cantam canções que provocam os atores mascarados e os moradores de aldeias vizinhas.

O Mapiko sintetiza a busca pelo equilíbrio entre o masculino e o feminino, a superação do medo e a transmissão dos valores espirituais e morais para a juventude que atinge a maturidade.

Brasil: Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão
No Brasil, o Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão, inscrito na Lista Representativa em 2019, une fé, arte e festa.

A prática envolve formas de expressão musical, coreográfica e cênica em que a relação dos praticantes com o sagrado é intermediada pela figura do boi.

Com forte carga simbólica, a brincadeira reproduz o ciclo de nascimento, vida e morte do boi, uma metáfora da própria existência humana.

O Bumba-meu-boi maranhense diferencia-se de outras manifestações similares no país pela riqueza dos seus cinco principais “sotaques”, estilos de ritmos e bordados, e pelo calendário festivo que se estende por até oito meses.

O ciclo culmina no final de junho e envolve ensaios, batismos, apresentações públicas e o ritual da morte do boi. A tradição é mantida viva por meio de grupos infantis, oficinas de dança e pelo aprendizado espontâneo nas comunidades.

Timor-Leste: a tecelagem tradicional do Tais
No Sudeste Asiático, o Tais é um tecido artesanal tradicional de Timor-Leste que desempenha um papel central na vida social e cultural da população.

Inscrito em 2021 na Lista de Salvaguarda Urgente da Unesco, o Tais é utilizado em vestimentas tradicionais, cerimônias de boas-vindas a recém-nascidos, rituais fúnebres e festividades locais.

Os padrões e cores do tecido variam de acordo com a região e o grupo étnico, servindo como marcador de identidade cultural e status social, além de objeto de valor em dotes e alianças familiares.

Feito de algodão tingido com plantas naturais, o Tais é produzido manualmente em teares simples e embora os homens participem da coleta de plantas e da confecção dos instrumentos, a tecelagem é um conhecimento reservado às mulheres.

Atualmente, a prática enfrenta desafios para sua preservação, ameaçada pela preferência dos jovens por roupas ocidentais, introdução de materiais industriais e diminuição do número de tecelãs ativas.

São Tomé e Príncipe: Tchiloli, o teatro vivo em busca da justiça
Reconhecido em 2025 pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade, o Tchiloli é uma prática de teatro de rua de São Tomé e Príncipe.

Realizado ao ar livre durante festivais e datas comemorativas, o espetáculo combina atores, músicos, dançarinos e uma plateia engajada.

A trama, de inspiração renascentista, gira em torno de um julgamento de homicídio e envolve cerca de trinta atores caracterizados como a corte real, ministros e figuras do sistema judiciário.

O clímax da encenação é o julgamento do filho do imperador Carlos Magno que, apesar de ser da realeza, é julgado e condenado pelo crime cometido, uma representação do princípio da igualdade perante a lei.

Acompanhado por flautas, tambores e chocalhos, o Tchiloli une gerações e reforça valores da promoção da justiça social.

Cabo Verde: Morna e a alma poética
Reconhecida em 2019 pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, a Morna é a principal expressão musical e coreográfica tradicional de Cabo Verde.

A prática artística combina voz, poesia e dança em apresentações que podem ser cantadas ou exclusivamente instrumentais.

A sonoridade é construída predominantemente com cordofones, como guitarra, violino, viola de 10 cordas e cavaquinho, acompanhados por piano, percussão e baixo.

As letras são compostas majoritariamente em crioulo cabo-verdiano e os versos exploram temas sobre a vivência no arquipélago.

A Morna é está presente em momentos da vida comunitária, como casamentos, batizados e reuniões familiares. Sua transmissão ocorre de por meio de oficinas, programas de rádio, festivais e concursos musicais tradicionais, como o “Todo Mundo Canta”.

Foto Augusto Brázio e Ministério da Cultura e Indústrias Criativas Sr. Olímpio, no violino, e Manel Caloti, na guitarra, tocam mornas

Cultura no centro do desenvolvimento sustentável
Na Década Internacional da Cultura para o Desenvolvimento Sustentável (2027-2036), a cultura se consolida como motor central da resistência comunitária, inovação e bem-estar social.

As práticas vivas oferecem um conhecimento vital sobre a gestão do meio ambiente e abrem espaços de diálogo entre gerações.

Ao salvaguardar este patrimônio intangível, a Unesco reconhece o esforço dos países lusófonos em proteger o seu passado e constroem pontes para um futuro mais sustentável, inclusivo e plural.

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