O presidente da Comissão Organizadora do Dia de Portugal, Miguel Monjardino, afirmou hoje que “coragem é liberdade e liberdade é coragem”, e alertou que uma nação livre “não deve ter medo”, mas estar “prevenida e preparada”.
“Coragem é liberdade e liberdade é coragem. Na Nazaré, estão algumas das maiores ondas do mundo. Hugo Vau e Joana Andrade são surfistas, olham para a terra a partir do mar. Ambos mostraram a Portugal e ao mundo que é possível surfar aquelas ondas enormes. Para tal, é necessário muita coragem, treino, uma preparação meticulosa, uma boa avaliação do risco e um vasto ecossistema de apoio”, disse Miguel Monjardino na sessão solene das comemorações do Dia de Portugal, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, nos Açores.
Segundo Monjardino, hoje, milhares de pessoas vão à Nazaré “ver os novos heróis e heroínas do mar ultrapassar os seus limites naquelas paredes de mar que rugem com estrondo”.
“Nos próximos anos teremos de navegar em ondas semelhantes à da Nazaré. Estas marés da história mudarão novamente o mundo. Este não é o tempo de alimentarmos ilusões sobre as mudanças que estão em curso e as suas consequências. Este não é o tempo de enterrarmos a cabeça na areia e negar os factos”, acrescentou.
O tempo atual é de “deixamos para trás o canto de sonhos em que temos vivido”.
“Somos um país com quase nove séculos de História. Tal deve dar-nos confiança em relação ao futuro. Por razões geográficas, o nosso papel nas guerras continentais europeias foi sempre marginal, mas fomos e somos sempre significativos nas comunicações transatlânticas”, referiu.
O professor e analista político, nomeado pelo Presidente da República para presidir à comissão organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, sublinhou que a reflexão coletiva e informada “foi sempre a grande vantagem das democracias, sobretudo por afastar mitos do passado e fantasmas do futuro que nos entorpeçam”.
“Até 2030 viveremos tempos de urgência, a desordem e a ignorância são os nossos principais inimigos”, alertou.
E prosseguiu: “Temos aliados na Europa, Américas, Ásia, Oceania com quem partilhamos valores, interesses e memórias históricas. Claro que sim, mas tal como Camões e os surfistas da Nazaré, dependeremos primeiro de nós”.
“Teremos de estar atento aos nossos aliados e adversários. Uma nação livre não deve ter medo, não deve, deve é estar prevenida e preparada. Heroínas e heróis do mar, o amanhã não é longe demais. Eu repito, o amanhã não é longe demais”, concluiu Miguel Monjardino.
No discurso, afirmou também que “uma cortina de medo tem vindo a descer sobre Portugal”, um facto explicado provavelmente pela “consciência de que um longo ciclo histórico iniciado em 1945, após o final da Segunda Guerra Mundial, chegou ao fim nos últimos anos”.
“O futuro será, muito naturalmente, diferente. Um mundo multilateral e apoiado em instituições internacionais que nos foi altamente benéfico está a desaparecer e a ser substituído por um mundo muito mais hierárquico, complexo e fragmentado. A grande rutura está em curso e estamos presentes na criação de um novo ciclo histórico”, afirmou.
Na sua opinião, este facto tem dado origem a três tipos de respostas: a invocação do poder e da força para defender interesses e privilégios, a defesa do multilateralismo e a defesa de “uma nova coligação de potências médias para proteger as partes mais importantes do sistema internacional”.
Antes, Miguel Monjardino lembrou que os Açores e a Madeira celebram este ano os 50 anos da sua autonomia e reconheceu que “muito foi feito” nas duas Regiões Autónomas desde 1976 para o seu desenvolvimento.
“A governação de ilhas com dimensões geográficas e demografias muito diferentes será sempre uma tarefa exigente quer ao nível político quer nos deveres da administração pública para com os seus cidadãos”, apontou.
Os deputados do grupo parlamentar do Chega/Açores não marcaram presença nas cerimónias na ilha Terceira, em sinal de protesto “pela forma desrespeitosa como todo o processo foi conduzido”.
Em comunicado, o partido considerou “uma afronta à autonomia”, o fato de os deputados da Assembleia Legislativa Regional dos Açores “terem sido convidados em cima da hora para uma cerimónia que pretende reconhecer e dignificar a própria autonomia, tal como justificou o Presidente da República [para] a realização das cerimónias nos Açores”.




