A celebração da cultura brasileira e a reflexão sobre a atualidade são objetivos da 3.ª Mostra PT-BR – Mostra de Teatro Brasil, que tem início no dia 29, em Cascais, disse o produtor Bruno Mariozz, curador da iniciativa.
Em entrevista à agência Lusa a partir do Brasil, Bruno Mariozz, que criou a mostra em 2024 com espetáculos no Chapitô, em Lisboa, frisou que a PT-BR também visa celebrar as vivências comuns dos dois povos através da língua.
Este ano, a PT-BR mobiliza mais de 80 artistas e técnicos brasileiros, até 28 de novembro, para um total de 16 espetáculos a serem apresentados no Teatro Gil Vicente, em Cascais, e no Chapitô, em Lisboa, estendendo-se pela primeira vez a duas localidades portuguesas. Angola, Cabo Verde, Moçambique e Guiné-Bissau estão também no roteiro da mostra.
Bruno Mariozz disse à Lusa estar “muito feliz” por a PT-BR ter sido alargada a mais uma localidade portuguesa, este ano, apesar de não ter sido possível estendê-la a mais, pois os apoios são “curtos e chegam muito em cima da hora”.
O certame abrirá no dia 29, no Teatro Gil Vicente, com o musical “Quando a gente ama”, uma “remontagem” do espetáculo estreado há 13 anos no Brasil a partir de composições do sambista Arlindo Cruz, que morreu em 2024, e que agora se tornou numa homenagem ao artista, disse o curador.
A possibilidade de se apresentarem no Teatro Gil Vicente proporcionou à mostra trazer a Portugal, pela primeira vez, um musical, com um elenco de mais de 20 pessoas, explicou o produtor, por se tratar de um “espaço mais convencional” e não “tão alternativo” como o Chapitô.
Para Bruno Mariozz, trazer este musical a Portugal mostra que a iniciativa “está a crescer”.
“Seria muito bom podermos mostrar os nossos espetáculos em mais terras portuguesas no futuro”, observou Mariozz.
“Este ano levamos [a Portugal] 16 espetáculos de três estados brasileiros [Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro], enquanto na edição do ano passado apresentámos apenas cinco” espetáculos.
O artista lamenta, todavia, com alguma tristeza, que Portugal e Brasil “vivam momentos diferentes ao nível da cultura”.
“Infelizmente, a nível da cultura há uns anos tivemos um retrocesso [no Brasil] e está a tentar retomar-se agora o fôlego do circuito”, frisou o curador da mostra, receando, no entanto, que o seu país volte a “dar passos atrás”, mas sem perder a esperança de que o fôlego se mantenha.
“Meu amor é cego”, que tem como protagonistas dois atores com deficiência visual, “Tybyra – Uma Tragédia Indígena Brasileira”, sobre a história de um indígena Tupinambá executado em 1614, e “Migraaaantes”, espetáculo elaborado a partir de relatos de refugiados na Europa, são algumas das propostas desta edição da PT-BR.
“Latitude dos Cavalos” (08 de novembro), “Antes que me contem outras histórias” (dia 13), “Migraaaantes” (dia 15), “Poço Inacabado” (dia 20) e “Mãe Preta” (dia 22) serão peças a apresentar em Cascais, além de “Meu amor é cego”, no dia 06.
O certame chega ao Chapitô no próximo dia 30 com “De qualquer modo dança”, seguindo-se “Suaíle – Um mito contemporâneo” (01 de novembro), “Barro Mulher – Um Mergulho na Lama da Criação” (dia 07), “Meu amor é cego” (dia 08), “Antes que me contem outras histórias” (dia 13), “Migraaaantes” (dia 13), “Esperando” (dia 14), “Um instante” (dia 15), “Tybyra – Uma Tragédia Indígena Brasileira” (dias 20 e 21) e “Notícias em Cena” (dia 22).
Uma das grandes lacunas da mostra, segundo Bruno Mariozz, continuam a ser os patrocínios e as parcerias, já que a organização conta apenas com apoio da Secretaria da Cultura do Estado do Rio de Janeiro, no que respeita aos custos das viagens e respetivos seguros, e depois com parcerias pontuais para determinados espetáculos, observou.
Mariozz mostrou-se, porém, otimista face a um crescimento da iniciativa e a um alargamento a outras terras portuguesas mais distantes de Lisboa.
Este ano a mostra estende-se também, pela primeira vez, a Moçambique e Guiné-Bissau, que se juntam a Angola e Cabo Verde, presentes desde as duas edições anteriores.
Nos países africanos, os espetáculos realizam-se em parceria com festivais locais de teatro. Segundo Bruno Mariozz, “a única forma de viabilizar a deslocação dos artistas brasileiros”.
Em Moçambique, as apresentações de “Suaíle – o Mito Contemporâneo” e “Que Minha Apotoi Me Acompanhe” serão feitas no âmbito do festival de rua Ku Phanda, em Maputo.
Em Angola, serão apresentados dois espetáculos, no âmbito do Festival Internacional de Teatro para a Infância e Juventude (FESTIJ): “Borboletas” e “Antes que me contem outras histórias”.
Em Cabo Verde, o Mindelact acolhe o musical “Quando a gente ama”.
A mostra encerra no dia 28 de novembro, na Guiné-Bissau, com “Mãe Preta”, no Centro de Artes Transdisciplinar.
Em estreia em Portugal estará a bailarina Duda Maia, a ministrar uma residência artística de dança numa homenagem à bailarina e coreógrafa brasileira Angel Vianna, que morreu em 2024. O espetáculo “De qualquer modo dança” estrear-se-á no Chapitô, em Lisboa, disse Bruno Mariozz.
Haverá ainda a residência-oficina “A Vida Privada das Árvores”, que explora processos de criação teatral a partir do universo literário.
Entre os espetáculos destacados pelo organizador contam-se “O meu amor é cego”, “a primeira comédia romântica feita no mundo por dois artistas deficientes visuais”, protagonizada por Jeffinho Faria e Sara Bentes, “Tybyra”, “a primeira tragédia homossexual de que há registo no Brasil”, e “Mãe Preta”, “uma homenagem a Helena Theodoro, a primeira mulher negra doutorada em filosofia no Brasil”. “Notícias em Cena” reúne artistas brasileiros e portugueses a transformarem notícias da atualidade numa criação teatral.



