Trump: imensos riscos e uma promessa. Por Carlos Fino

Por Carlos Fino

DonaldTrumpChoque, espanto, consternação, medo… A surpreendente vitória do multimilionário Donald Trump nas eleições americanas da passada terça-feira teve o efeito de um tremor de terra de grau 9 na escala de Richter cujas ondas continuam a repercutir pelo mundo inteiro.

As imagens utilizadas para caracterizar o sucedido e avaliar as consequências expressam bem o nível de inquietação.  A vitória de Trump já foi comparada a uma revolução equivalente, pelos seus efeitos, à queda do muro de Berlim ou – mais grave ainda – ao desabar dos pilares em que assentava até agora a (des)ordem mundial. O embaixador da França nos EUA, por exemplo, escreveu no tweeter (mensagem que depois apagou) : “É o fim de uma era. Depois do Brexit e desta eleição, tudo é possível. O mundo desmorona perante o nossos olhos”. A mesma ideia é retomada pela revista alemã Der Spiegel, que esta semana apresenta na capa a cabeça de Trump em chamas como se fosse um meteoro em fatal rota de colisão com a Terra, com este título de meter medo:   “É o fim do mundo… tal como o conhecemos”.

A irrestrita retórica racista, sexista e xenófoba de Trump durante a campanha constitui inegável e sério motivo de preocupação. E fez bem a chanceler Ângela Merkel, logo numa primeira reação, em lembrar ao presidente eleito os princípios e valores em que se baseia a cooperação entre a Europa e os EUA: “Democracia, liberdade, respeito pela lei e pela dignidade humana, independentemente da origem, cor da pele, religião, género, orientação sexual ou opinião política”.

E agora?

A questão, agora, é saber se a retórica de Trump durante a campanha é para valer ou se, uma vez no poder, o multimilionário que se apresentou como out-sider vai sofrer uma metamorfose, ajustando-se ao sistema.

As suas primeiras palavras, no encontro com Obama, parecem indicar uma mudança no sentido da moderação. Na primeira entrevista que deu depois da vitória, Trump também admitiu que afinal vai manter partes do programa de segurança social de Obama, o chamado Obamacare, que antes caracterizava como sendo “um desastre”. Tudo sinais de maior contenção e equilíbrio. Mas a verdade é que só quando se conhecerem os nomes da equipa com que irá governar será possível fazer avaliação mais precisa.

Em geral, as propostas de Trump no plano económico interno não assustam ninguém. Reforço das debilitadas infraestruturas do país e corte de impostos é tudo o que há de mais tradicional. Certamente não por acaso, a quebra inicial nas bolsas foi rapidamente absorvida e o dólar valorizou. Wall Street teria bem maior dificuldade em se ajustar ao programa reformista de Bernie Sanders, o pretendente democrata de esquerda à Casa Branca vencido por Hillary Clinton.

O que pode causar maior perturbação são as promessas de Trump rever acordos de comércio internacionais como o NAFTA, desafiar os termos das trocas com a China ou denunciar o tratado internacional laboriosamente negociado para conter as ambições nucleares do Irão.  Em todos esses casos, porém, Trump irá constatar que é mais fácil falar do que fazer.

Além disso, há que confiar na vitalidade da democracia americana. Afinal, a maioria até votou em Hillary, o que mostra que os democratas não estarão tão mal como parece e ao mesmo tempo relança o debate sobre o sistema eleitoral do país.

Concebido pelos pais fundadores, no século XVIII, para favorecer alguns estados em que dominava a escravatura, o sistema de votação indireta está manifestamente ultrapassado – não só não cumpre aquilo para que foi criado (deixar a uma elite a escolha final do Presidente) como não corresponde ao princípio democrático da igualdade de voto. Mudar exige uma emenda constitucional e por isso não será fácil – mas é algo que a América vai ter, mais cedo ou mais tarde, que encarar.

Por outro lado, como mostram as contínuas manifestações de jovens a que estamos a assistir através dos EUA, muitas das propostas mais ofensivas de Trump – em relação aos imigrantes, às mulheres e às minorias de uma forma geral  – irão defrontar-se com a forte oposição de uma imensa massa de pessoas que não admite recuos civilizacionais. Se quiser governar com um mínimo de sossego, Trump não poderá ignorar o voto popular.

Um desafio de grandes proporções

No plano externo, o maior receio é que a vitória de Trump na América venha dar um impulso ainda maior a movimentos e partidos políticos de cariz populista um pouco por todo o mundo,  em particular no velho continente, reforçando a onda anti-liberal a que – como reação às políticas neoliberais de estrita defesa dos grandes interesses financeiros –  vimos assistindo há já alguns anos. Depois da Hungria e da Polónia, onde se encontram no poder, partidos nacionalistas, de extrema direita ou equivalentes, têm vindo a ganhar posições noutros países da Europa central e de leste, antes sob domínio soviético, mas também na Escandinávia,  e até no próprio núcleo duro da União Europeia – Alemanha, França, Itália…

“Se, no próximo ano, Marine Le Pen chegar à presidência da França – admitiu o Líder do Parlamento Europeu, Martin Schultz – será o fim da União Europeia”.

Esta é a verdadeira dimensão do que está aqui em jogo.

Desde a Segunda Guerra Mundial aliados inquebrantáveis dos EUA – que garantiram (juntamente com a URSS), primeiro, a sua libertação do nazismo; depois, a sua defesa contra o perigo comunista – os europeus veem-se agora compelidos a repensar o seu relacionamento com Washington, o que implicará necessariamente mais investimento próprio em segurança.

Não só porque a América pode ser tentada a rever o conjunto de princípios e valores comuns em que sempre assentaram as relações transatlânticas e toda a evolução pós-moderna em termos de direitos das minorias (tendo a Presidência e o Congresso e, em breve, também o Supremo Tribunal, é a isso que já apelam alguns líderes republicanos mais radicais), como sobretudo pelo facto de Trump ter deixado claro que não irá continuar a perigosa política de confronto com a Rússia, procurando, pelo contrário, chegar a um entendimento com Pútin.

São os riscos que sempre corre quem é mais papista que o Papa. Aconteceu com os líderes comunistas do leste quando chegou ao Kremlin um reformista chamado Gorbachev, pode acontecer agora com os países europeus com a chegada de Trump à Casa Branca.

Paradoxalmente, uma eventual viragem nas relações com a Rússia (com o que isso implicaria de aceitação, por Washington, de uma política mais multilateral e menos imperial) constituiria, só por si, um fator de estabilidade capaz de atenuar as perturbações potenciais de outros pontos controversos do programa Trump. Mas resta saber se Trump o conseguirá, uma vez que, neste plano, vai ter pela frente a tenaz oposição do imenso lóbi bipartidário do complexo militar-industrial, diferentes serviços de inteligência e grande media.

Imensos riscos e uma promessa

Tudo somado, a chegada de Trump ao poder traz no bojo, ao mesmo tempo, imensos riscos e uma promessa de alívio no perigoso clima de crescente confronto em que vivemos, com risco real de um conflito nuclear.

Pode não ser uma revolução nem o fim do mundo, mas é certamente um abalo imenso no sistema, que irá obrigar os defensores da democracia liberal, do livre comércio e da globalização, a rever os termos em que esta se processa.

Para já, ainda domina a incerteza. Mas a mensagem implícita na vitória de Trump é clara – ninguém aceita mais o domínio absoluto do capital financeiro e das grandes corporações internacionais, o desrespeito pela soberania das nações, a perda sistemática de poder de compra das classes médias (a Economist revela que o poder de compra da classe média americana é ainda hoje menor do que era nos anos 70!), o clima de guerra infinita em que vivemos, nem a arrogância e o desprezo das cada vez mais desacreditadas elites políticas do establishment, instaladas num bipartidarismo em que nunca nada realmente muda.

Desafiando todas as sondagens e previsões, Trump terá afinal ganho por uma razão simples – ter sido o mais autêntico e caloroso dos dois candidatos em presença (regra geral raramente contrariada nas eleições americanas) e oferecer ao mesmo tempo a esperança, ainda que talvez em boa parte ilusória, de que é possível inverter ou pelo menos atenuar a lógica imobilista do sistema.

 

Por Carlos Fino
Jornalista português, nascido em Lisboa, em 1948. Correspondente da RTP – televisão pública portuguesa – em Moscou, Bruxelas e Washington, destacou-se como correspondente de guerra, em conflitos armados na ex-URSS, Afeganistão, Oriente Médio e Iraque. O primeiro repórter a anunciar, com imagens ao vivo, o bombardeio de Bagdad pelas tropas norte-americanas na Guerra do Golfo (2003). Foi conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal em Brasília (2004/2012). Escreve semanalmente para o Jornal Mundo Lusíada.

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