Europa deve ter portas abertas mas não escancaradas, diz Durão Barroso

O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa (C), acompanhado pelo presidente do Conselho da Diáspora Portuguesa, Filipe de Botton (D) e pelo antigo presidente da União Europeia, Durão Barroso (E), à chegada para o EurAfrican Forum no .Estoril, 10 de julho de 2018. ANTÓNIO COTRIM/Lusa

Mundo Lusíada
Com Lusa

O ex-presidente da Comissão Europeia Durão Barroso defendeu que a Europa tem a “obrigação humanitária” de receber refugiados e deve ter as suas portas “abertas, mas não escancaradas”.

“Temos de evitar a demagogia. A Europa tem de ter as portas abertas, mas não escancaradas”, disse Durão Barroso, reforçando que o “movimento incontrolável de imigrantes” está a gerar fenômenos de xenofobia “muito preocupantes em alguns países.

O também ex-primeiro-ministro português, que falava à margem do 1º EurAfrican Forum nesta terça-feira em Cascais, sublinhou que a questão tem de ser gerida “com equilíbrio”, considerando que a solução passa por dialogar com os países africanos, mas também pela partilha de responsabilidades entre europeus.

“Temos de chegar a acordo entre nós, dividindo a responsabilidade e fazendo um controle efetivo, mas também humanitário das nossas fronteiras”, assinalou.

Durão Barroso disse ainda que é preciso apoiar mais o desenvolvimento dos países africanos.

“Não tenhamos ilusões. É impossível controlar completamente os fluxos migratórios, a solução a longo prazo está no próprio desenvolvimento de África”, vincou o antigo responsável europeu, acrescentando que “é uma obrigação humanitária receber essas pessoas”

Questionado sobre as decisões relativas a políticas migratórias saídas do último conselho europeu, Durão Barroso afirmou não conhecer as propostas em detalhe e considerou que foi “um passo necessário, mas não suficiente”.

Os líderes da União Europeia alcançaram na madrugada do dia 29 de junho um acordo para a criação de plataformas de desembarque regionais de migrantes e de centros controlados nos Estados-membros bem como o reforço do controle das fronteiras externas.

O ex-presidente da Comissão Europeia e atual presidente não -executivo do Goldman Sachs preside ao 1.º EurAfrican, um evento organizado pelo Conselho da Diáspora Portuguesa, que pretende aproximar África da Europa, reforçando a confiança entre os dois continentes.

Europa a “voltar aos anos 30”

Também o Presidente português considerou que a Europa entra “numa era muito perigosa” de xenofobia, populismo e hipernacionalismo, “a voltar aos anos 30”, e nesse contexto apelou a uma ação conjunta com África.

O chefe de Estado alertou também para a conjuntura global, afirmando que está em curso “uma longa, longa luta de longo prazo sobre quem será o centro econômico do mundo em 50 anos”.

“Por isso é tão importante o diálogo entre Europa e África. Porque, no meio desta disputa, África pode ser esquecida. Porque, no meio desta disputa, Europa e África juntas são muito mais fortes do que cada um dos dois continentes sozinhos”, defendeu Marcelo Rebelo de Sousa.

Sobre o estado da Europa, o Presidente da República declarou: “Estamos a entrar numa era muito perigosa, estamos a voltar aos anos 30 do século passado. Olhamos à volta e vemos xenofobia, vemos não só protecionismo, mas hipernacionalismo, vemos modos fechados de lidar com os vizinhos, vemos tudo o que é o oposto de uma sociedade livre, de comércio livre, de entendimento comum e livre”.

“E isso é muito preocupante, porque não é apenas um caso, está a cresce todos os dias. O populismo, o populismo radical está a crescer e a liderar os países. Não apenas os partidos da oposição, movimentos inorgânicos de oposição – não, estamos a falar de governos. Há quase cem anos, começou assim, antes da guerra. Mas é pior, porque hoje o mundo é muito mais complexo do que era”, prosseguiu.

Dirigindo-se aos participantes europeus e africanos neste fórum, acrescentou: “Lidar com este tipo de problemas é um desafio para vocês e para nós. Devemos agir juntos”. Segundo o Presidente da República, essa ação conjunta “é urgente”.

Marcelo Rebelo de Sousa argumentou que Europa e África dependem uma da outra, “todos os dias, geoestrategicamente, economicamente, politicamente, culturalmente, socialmente”, e não apenas por causa das migrações.

“É uma questão de confiança. Também é uma questão de inteligência. No futuro, devemos ser inteligentes, devemos ser racionais. Basta de irracionalidade”, advogou.

Numa intervenção de cerca de meia hora, feita em inglês, o chefe de Estado falou também na importância da “cumplicidade pessoal”, sustentando que “resolve problemas políticos, problemas econômicos, problemas de negócios”.

No seu entender, quando se perspectiva “uma guerra comercial, com protecionismo”, Europa e África não devem ficar de fora: “Os ausentes estão sempre errados, porque deixam de ser importantes para lidar com os problemas”.

Por outro lado, advertiu contra a criação de mais “divisões na Europa”, alegando que isso “seria muito mau para os Estados Unidos, custaria uma fortuna, como aconteceu há um século” e “seria muito mau para o equilíbrio de poderes no mundo”.

De acordo com o Presidente, “as potências asiáticas estão objetivamente aliados da unidade da Europa”, o que “é inteligente, não criar mais problemas onde já há problemas suficientes”.

O Conselho da Diáspora Portuguesa, que organizou este fórum, é uma associação sem fins lucrativos, constituída em dezembro de 2012, com o alto patrocínio do anterior Presidente da República, Cavaco Silva, destinada a institucionalizar uma rede de contatos entre portugueses e lusodescendentes residentes no estrangeiro, com posições de destaque.

Tem como presidente honorário o Presidente da República e, atualmente, a sua direção é presidida pelo empresário Filipe de Botton e Durão Barroso é presidente da Mesa do Conselho da Diáspora.

Marcelo Rebelo de Sousa enalteceu este tipo de iniciativas, em que se pode “falar à vontade, com espírito de abertura” e disse que o objetivo deste primeiro fórum é “começar um longo processo de diálogo e compreensão mútua”. E agradeceu a Durão Barroso e Filipe de Botton o seu “trabalho de preparação deste espaço de diálogo”.

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