Eleição de Obama pode reforçar relação Portugal-Estados Unidos

Do Jornal Mundo Lusíada Com Lusa

André Kosters/Lusa Portugal

>> Noite de eleições presidenciais dos Estados Unidos no Hard Rock Café, em Lisboa, que contou com a presença do embaixador dos EUA, Thomas F. Stephenson.

Em carta enviada ao próximo presidente dos Estados Unidos, o presidente de Portugal Aníbal Cavaco Silva afirmou que a eleição de Barack Obama “constituirá uma contribuição determinante” para ultrapassar os desafios com que o mundo se confronta. “Só assim seremos capazes de ultrapassar os problemas que se nos colocam e de tirar partido das oportunidades que se nos oferecem”, adiantou o presidente luso.

Cavaco Silva afirmou estar “seguro de que, no decorrer do mandato” de Obama, os laços de amizade que unem Portugal e os Estados Unidos e a estreita cooperação que caracteriza a relação bilateral, nos mais diversos domínios, encontrarão novas oportunidades para se reforçarem e expandirem”. “Permita-me que frise, ainda, neste contexto, o papel da significativa comunidade de portugueses e luso-descendentes residentes nos Estados Unidos da América, um importante elo de ligação entre os nossos dois países", concluiu.

O chefe de Estado português, em nome do povo português, endereçou "as mais calorosas felicitações, bem como os mais sinceros votos de sucesso no exercício das altas funções que foi chamado a desempenhar, de forma tão expressiva, pelo povo norte-americano".

Também o primeiro-ministro português, José Sócrates, considerou a vitória de Obama “um momento histórico” que irá contribuir para a melhoria das relações entre os Estados Unidos e a Europa. “É um momento histórico para os Estados Unidos e para o mundo”, afirmou José Sócrates. Salientando que pela primeira vez na história norte-americana foi eleito um presidente afro-americano, o chefe do Governo classificou a vitória do candidato democrata como “um sinal de esperança e mudança”.

Sócrates destacou ainda o "sinal claro" transmitido por Barack Obama de mudança na política externa norte-americana, no sentido de uma "visão de paz para o mundo", de "coexistência pacífica", cooperação e respeito pelo multi-lateralismo. “É uma visão que aproxima mais a Europa e os Estados Unidos da América”, citou, manifestando a sua convicção numa melhoria e evolução nas relações dos norte-americanos com os europeus. Por outro lado, a eleição de Barack Obama constitui também uma oportunidade de mudança na regulação dos mercados financeiros. “Há uma visão econômica mais baseada na regulação”, salientou, considerando "fundamental" uma mudança na política econômica. “A vitória de Barack Obama é uma grande notícia para aqueles que, como eu, pensam que este é o momento certo para mudar”, acrescentou ainda José Sócrates.

Para o ministro português das Relações Exteriores, Luís Amado, “trata-se de uma vitória extraordinária, num momento histórico excepcional dos Estados Unidos, num momento de crise profunda que a sociedade americana conhece e que se reflete em todo o mundo”, segundo afirmou à Agência Lusa. “Por isso este acontecimento acaba por ter uma projeção internacional de extraordinário relevo, como se verificou pela forma entusiástica com que estas eleições foram acompanhadas um pouco por todo o mundo e também em Portugal", frisou.

UE: grande parceira de Obama A União Européia deverá ter um novo papel no cenário internacional, mais valorizado, com a ascensão do democrata Barack Obama à presidência dos Estados Unidos. A afirmação é do analista político brasileiro Leonardo Barreto, em entrevista à Agencia Lusa. Professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Barreto acredita que a União Européia, sob a liderança atual do presidente francês Nicolas Sarkozy, será a grande parceira dos Estados Unidos de Obama na busca de soluções para questões internacionais como a guerra do Iraque, do Afeganistão e a crise financeira internacional.

Para o analista, não interessa aos norte-americanos uma retirada humilhante e que uma solução negociada com a ONU sobre o Iraque poderia significar maior flexibilidade dos EUA em temas como reforma do Conselho de Segurança e Protocolo de Quioto. O professor considerou ainda que, no caso do Afeganistão, os EUA devem usar a mesma estratégia de convidar a comunidade internacional a participar. “O democrata pode injetar gás novo. George W. Bush tinha perdido todo o apoio internacional e Obama, que chega com toda legitimidade, tem condições de reabrir o diálogo”, assinalou.

Na opinião do professor da UnB, a UE pode ter também um papel importante no âmbito dessas negociações, já que o Oriente Médio é muito mais próximo da Europa do que os Estados Unidos e acaba por sofrer mais com as ondas migratórias. “No novo rearranjo internacional que deverá ocorrer, Sarkozy terá um papel fundamental e a Europa vai reafirmar-se neste processo. As relações entre Estados Unidos e Rússia também vão necessitar de intermediação”, citou. Barreto lembrou que Sarkozy hoje é o único que pode se sentar com Obama e com o presidente russo, Dmitri Medvedev, e seu antecessor Vladimir Putin no mesmo dia.

No âmbito da crise internacional, o analista diz que os entendimentos entre EUA e UE passarão também por enfrentar a situação, com ações coordenadas de nacionalização do mercado financeiro. O acadêmico disse temer que o novo governo adote medidas protecionistas para assegurar os empregos dos norte-americanos e é pessimista quanto à Rodada de Doha, se as negociações não forem fechadas ainda no governo Bush.

Questionado sobre uma eventual mudança da posição dos EUA em relação à Cuba, Barreto considerou que esta é a questão internacional mais fácil. "O fim do embargo a Cuba despertaria uma enorme simpatia da comunidade internacional. Não tem custos econômicos nem políticos e seria uma medida que poderia marcar os 100 primeiros dias do governo, que são essenciais”.

Virada humanista dos EUA Em Caracas, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, desejou que com Barack Obama os Estados Unidos “procedam a uma virada humanista no respeito para com o mundo”, no seu primeiro comentário sobre a eleição do senador democrata como chefe de Estado norte-americano. “Os Estados Unidos podem ser um grande país”, afirmou Chávez.

Segundo ele, se os Estados Unidos adotarem uma conduta “de respeito da soberania do resto do mundo continuarão a ser um grande país e uma potência que trabalha para o bem”. O presidente brasileiro Lula da Silva afirmou, durante uma visita oficial a Roma, que a eleição de Barack Obama pode ser comparada com a eleição de Nelson Mandela para a presidência da África do Sul. “Isso teve uma grande importância para todo o mundo. A eleição de Mandela ocorreu quando os negros perceberam que eram maioria”, disse Lula.

Símbolo da luta contra o apartheid, Nelson Mandela foi o primeiro presidente negro da África do Sul, país com grande maioria negra colonizado pelos ingleses, e governou o país de 1994 a 1999. “Não é qualquer coisa eleger um negro como presidente dos Estados Unidos. Como não foi qualquer coisa o Brasil eleger um torneiro mecânico ou a Bolívia eleger um índio ou o Paraguai eleger um bispo da Igreja Católica para presidente”, disse.

O democrata Barack Obama entrou para a história ao vencer as eleições e tornar-se no primeiro negro a alcançar o cargo de Presidente dos Estados Unidos da América. O senador do Ilinois chega aos 47 anos à chefia da maior economia do mundo, após uma campanha eleitoral onde era considerado o grande favorito para vencer nos Estados ganhos pelo democrata John Kerry em 2004. O senador do Illinois toma posse em 20 de janeiro como presidente dos EUA, 145 anos depois de Abraham Lincoln abolir a escravatura.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

    Send this to a friend