A minha dívida de gratidão para com Mário Soares, por Carlos Fino

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Por Carlos Fino

Devo a Mário Soares um dos momentos-chave da minha carreira profissional – o convite que me fez, em Novembro de 1987, para o acompanhar como tradutor oficial na sua visita de Estado à URSS de Gorbachev.

Embora amigo do filho, João, de quem fui colega na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, no final dos anos 1960, ambos tendo então integrado a direcção da Associação Académica, ainda antes do 25 de Abril, eu não era próximo de Soares.

No âmbito dessa actividade associativa, cheguei até a ir a sua casa, no Campo Grande, junto com o João, pedir conselho jurídico pro bono para saber como nos defendermos melhor se houvesse algum processo por parte da PIDE, a polícia política de Salazar, devido a uma das nossas publicações, que de acordo como espírito da época, se intitulava Ousar Lutar, Ousar Vencer.

Mas isso era tudo – nem o convívio com o filho, na Faculdade, nem as minhas opções políticas da época me aproximavam mais daquele que era, já então, um dos grandes líderes da Oposição Democrática.

Mais de uma década depois, em 1986, voltei a cruzar-me com Mário Soares. Foi na célebre noite da vitória na segunda volta das presidenciais, quando Soares – contra toda as expectativas – conseguiu arrebatar o triunfo ao candidato da direita Freitas do Amaral.

Chovia a cântaros, nessa noite, em Lisboa. E tudo estava programado para o comício da aguardada vitória de Freitas, no Marquês de Pombal. Eu era o repórter (de) e (re)signado….

Eis se não quando, de repente, não mais que de repente, veio a notícia de que as sondagens de boca de urna davam vantagem a Soares…

A equipa da RTP, a televisão pública portuguesa, ainda operando sem a concorrência das estações privadas, teve que realizar o milagre de transferir em poucos minutos e em condições adversas todo o “circo mediático” da praça do Marquês para a praça do Saldanha, onde estava a sede da candidatura de centro esquerda.

E foi daí, da varanda do prédio em que estava instalada o MASP – Movimento de Apoio Mário Soares à Presidência – que então reportámos ao vivo e em completo improviso a inesperada vitória do líder socialista, que me abraçou quando me viu.
A isto se limitavam, no entanto, as nossas relações – respeito e simpatia.

A decisão de Soares de me levar como intérprete na sua visita à URSS não se baseou, portanto, em qualquer vínculo, nem de amizade, nem, muito menos, partidário.

Quando muito, terá partido da sua constatação de que eu falava fluentemente russo e – talvez sobretudo – do seu reconhecido talento político: levar consigo um homem que saíra de Moscovo em conflito com o regime soviético, era certamente um sinal de independência e um teste à proclamada abertura de Gorbachev.

Para mim, claro, pessoal e profissionalmente foi óptimo.

Eu, que, em 1982, havia saído de Moscovo pela porta baixa – na sequência de um acto de agressão da polícia que ganhou foros de episódio da Guerra Fria – voltava agora, cinco anos depois e pela mão de Soares, a entrar de novo na Rússia pela porta grande – a dos encontros ao mais alto nível no interior do Kremlin.

Um Kremlin que naquela altura, com as suas figuras hieráticas bizantinas do comunismo ortodoxo, mais parecia um museu de cera, onde subitamente emergira, não se sabe bem como, uma única personagem viva – Gorbachev.

A visibilidade que me trouxe essa missão contribuiu certamente – e muito – para dois anos depois ser nomeado pela RTP novamente correspondente da estação pública na capital soviética, onde iria ter o privilégio de acompanhar ao vivo e reportar para Portugal todo o dramático processo que acabaria por conduzir ao colapso do comunismo e ao fim da URSS.

Devo isso a Soares. Reconhecê-lo agora, na hora do adeus, é, da minha parte, um acto de elementar justiça.

Mas essa não é a minha maior dívida de gratidão para com Mário Soares.

A minha maior dívida para com ele – e penso que para a grande maioria dos portugueses, descontando os que até hoje não lhe perdoam a forma como decorreu o processo de descolonização – é o facto de nos ter ensinado a todos a respeitar as opiniões dos outros.

Lembro-me bem de que foram a sua conduta – sempre marcada pela bonomia e por um genuíno gosto pela vida – e as suas reiteradas palavras de cunho pedagógico à António Sérgio – que ao longo de todos os anos conturbados que se seguiram ao 25 de Abril contribuiram, de forma decisiva, para criar no país – em tempos de radicalização à beira da guerra civil – um ambiente de tolerância e convivência democráticas.

Soares combateu a ditadura, defendeu a democracia, ajudou a evitar uma guerra civil e integrou Portugal na Europa. Contribuiu, além disso, para a construção de um olhar português pleno de compreensão e até de orgulho pelo Brasil. Não é pouca coisa – é imenso, mesmo tendo em conta as suas debilidades e erros de que agora não é certamente a hora de falar.

Se há hoje democracia em Portugal, certamente o devemos, em grande medida, a Mário Soares.

O seu desaparecimento causa-me naturalmente grande tristeza, mas ao mesmo tempo sinto que a sua morte não nos deixa necessariamente mais pobres, uma vez que o país absorveu e assimilou a sua maior lição – a tolerância. Soares, está já hoje, mesmo antes dos seus restos mortais aí serem colocados, no Panteão Nacional.

Conhecido e respeitado internacionalmente mais do que qualquer outra grande figura política portuguesa contemporânea, o seu nome ficará para sempre na memória e no coração da grande maioria dos Portugueses.

Que o seu exemplo possa igualmente perdurar!

 

Por Carlos Fino
Jornalista português, nascido em Lisboa, em 1948. Correspondente da RTP – televisão pública portuguesa – em Moscou, Bruxelas e Washington, destacou-se como correspondente de guerra, em conflitos armados na ex-URSS, Afeganistão, Oriente Médio e Iraque. O primeiro repórter a anunciar, com imagens ao vivo, o bombardeio de Bagdad pelas tropas norte-americanas na Guerra do Golfo (2003). Foi conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal em Brasília (2004/2012). Escreve semanalmente para o Jornal Mundo Lusíada.

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