Projeto brasileiro expande capoeira para crianças em São Tomé e Príncipe

Da Redação

Um projeto brasileiro mudou a vida de centenas de crianças do outro lado do Oceano Atlântico. Um pequeno país insular tem centenas de pequenos aficionados por uma expressão cultural que une esporte, arte marcial e música: a capoeira. Os sons dos berimbaus são ouvidos em mais de 13 academias nas duas ilhas principais de um país de apenas 200 mil habitantes.

Em 2010, um convênio entre a agência de cooperação do governo brasileiro e a Associação Raízes do Brasil, com base em Brasília, levou ao país africano um grupo de mestres para ensinar a centenária arte marcial germinada na África, mas criada por escravos no Brasil Colonial.

Inicialmente, a cooperação duraria um ano e o sucesso fez com que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) levasse adiante por mais cinco anos. Atualmente, a adesão é tanta que apenas o futebol atrai mais pequenos praticantes de atividades físicas em São Tomé e Príncipe.

Além do corpo, a capoeira ajuda a fortalecer a mente de cada indivíduo e a sociedade do país como um todo. Maykel Ribeiro Furtado, conhecido no mundo da capoeira como Vento, é o exemplo concreto dos resultados. Graduou-se pelo Raízes do Brasil e hoje dá aulas pelo país, além de presidir a Federação de Capoeira de São Tomé.

“O projeto conseguiu demonstrar a riqueza da capoeira como esporte e cultura e, também, como ela pode trabalhar como ferramenta de cidadania”, afirma o idealizador do intercâmbio e fundador do Raízes do Brasil, Ralil Nassif Salomão, que fez várias viagens ao país para ensinar e acompanhar de perto o desenvolvimento da modalidade.

A capoeira até já existia no país, mas de forma muito incipiente, amadora. “Antes, não estávamos habilitados, não tínhamos as técnicas ideais, não sabíamos os conteúdos. Nossa capoeira não era rica. Por meio desse projeto, estamos em um patamar muito melhor. Até o Ministério da Juventude e do Desporto de São Tomé já nos apoia”, explica Vento.

A filosofia do mentor é corroborada pelo discípulo. “Aqui nós trabalhamos não apenas a capoeira, mas para formar o cidadão. Foi importante ensinarmos aos jovens o respeito, a educação, a higiene e a igualdade de gênero, até para as meninas interagirem mais. As crianças aprendem não apenas a capoeira, mas como agir na vida e em outros esportes também”, diz Vento.

“O projeto deixou uma marca e um legado no país. Para além da importância da prática da capoeira, trata-se de uma herança que o Brasil deixa em São Tomé e Príncipe de respeito à cidadania e de valores que essa prática desportiva leva à vida desses jovens. Eles encontravam-se em situações frágeis e não tinham grande auto-estima”, afirma Carlos Gonçalves, técnico de cooperação da CPLP responsável pelo projeto.

“A capoeira transformou e continua a transformar a vida em São Tomé. Até mesmo o fato de continuar, de se perpetuar e não se perder o projeto, é uma experiência importante e notável”.

A vinda dos brasileiros gerou, também, uma visão de que o intercâmbio é importante para o desenvolvimento da arte no país. “Temos sempre contato com mestres do Brasil. No próximo mês, virão alguns para passar 15 dias aqui. Ficarão dez dias na Ilha de São Tomé e cinco na Ilha do Príncipe. Estamos sempre em contato, também, com grupos de Angola e Portugal pela internet”, acrescenta Vento.

O exemplo sãotomense pode expandir ainda mais os horizontes da modalidade em países lusófonos. “Há interesse de Guiné Bissau, Angola e Cabo Verde. O que vai diferenciar o novo projeto de Guiné Bissau do de São Tomé e Príncipe é que enviaremos mestres do Brasil para fazerem prospecção, pois é preciso ajustar os tipos de atividades específicas e entender a cultura local. Depois, pretendemos que professores formados por nós em São Tomé participem e ensinem em Guiné Bissau”, finaliza Ralil.

Até o dia 28 de julho, São Tomé e Príncipe também recebeu delegações dos nove países lusófonos para os Jogos da CPLP, com competições sub-17 de atletismo, basquete 3×3, futebol, taekwondo e vôlei de praia, o primeiro evento multiesportivo organizado pelo país africano em sua história.

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