O Bitcoin é mesmo como o começo da internet?

A essa altura, já é um clichê comparar bitcoin aos “antigos dias da internet” já que ambos são exemplos de tecnologias emergentes.

Mas será que o clichê é válido?

Se usarmos a vaga definição da World Wide Web ser lançada em 1991, durante a primeira década o ecossistema cresceu mais rápido e teve maior demanda para casos de uso compatível do que o bitcoin possui atualmente, com uma década de existência.

Em 1994, o New York Times relatou que empresas estavam “correndo” para configurar lojas através da World Wide Web, apesar da experiência geral de usuários ainda ser “lenta” e “crua”. Assim como os tecnólogos da blockchain, as empresas daquela época enfrentaram problemas em relação à escala. O relatório de 1994 do Times descreveu a rede como “já mostrando sinais de sofrimento do próprio sucesso, enquanto multidões competem por acesso a bancos de dados populares”. Ainda assim, as pessoas já estavam começando a pensar em paywalls de assinatura para a distribuição de conteúdo.

Membros da indústria eram tão otimistas em relação ao potencial comercial que na edição de dezembro de 1995 da revista Wired, Scott McNealy, o CEO da Sun Microsystems, previu o crescimento de “processadores de palavra e planilhas descartáveis” cobrados por uso e entregues via software de Java.

Durante a primeira década, estava claro que a internet seria usada para comércio, comunicações interpessoais, marketing e educação. Companhias estabelecidas a usavam para obter lucros modestos.

Christopher Allen, ex-integrante da Blockstream e fundador do Blockchain Commons, disse que está “preocupado” com a falta de adoção ao bitcoin nessa etapa, que é o motivo de estar tão otimista quanto a soluções de escala como a Lightning Network.

“A Lightning possui o potencial de ser onde você compra seu bife e pão”, Allen disse. “Até você comprar seu pão ou bife com bitcoin, você precisará convertê-lo em outra moeda, não importa quão boa seja como meio resistente à censura”.

Honestamente, as criptomoedas já provaram sua utilidade através da colaboração transnacional. Por exemplo, a tesouraria da Decreddistribuiu aproximadamente $3,5 milhões em criptomoedas para mais de 60 contribuidores, de acordo com o representante de imprensa da comunidade. Aproximadamente 30 por cento desses contribuidores são provenientes da América Latina e 15 por cento são da África, uma distribuição mais global do que startups comparáveis do Vale do Silício.

Mesmo assim, tais experimentos estão muito longe da “adoção popular” pela qual muitos fãs preveem que o bitcoin vai passar para se tornar uma moeda global e autossuficiente.

Raízes comunitárias

O Bitcoin pode estar atrás da linha do tempo da internet em termos de usos comerciais, mas já alcançou funções sociais comparáveis.

Em 2001, o New York Times estava descrevendo os serviços de internet, tais como o e-mail, como uma plataforma para a construção de relações com antigos colegas de trabalho ou de classe, enquanto as startups iniciavam serviços de streaming de música e vídeo.

Um grupo do Yahoo supostamente tinha 600 pessoas “trocando centenas de mensagens por mês sobre processos de falência, seguro de vida e o destino de seus planos de aposentadoria”. Isso pode ser comparável às comunidades de cripto hoje em dia, que dependem de fóruns, GitHub e plataformas de mídias sociais como o Twitter.

De acordo com Allen, que focou anteriormente na sua carreira em protocolos-chaves da internet, a rede foi também projetada para oferecer mais liberdade de escolha aos usuários – apesar de, através da consolidação das Big Tech, a industria por fim falhar em atingir esse objetivo.

Co-criador da Zcash e CEO da Electric Coin Company, Zooko Wilcox concordou que os projetos de software iniciais que ele trabalhou eram supostamente para oferecer “liberdade” e “acabar com guerras” porque as pessoas iriam conversar e debater na internet.

Wilcox disse, recordando dos anos 1990, quando trabalhava no precursor do bitcoin, Digicash, que ele idealisticamente subestimou a importância de incentivos econômicos.

“O que eu diria a mim mesmo, se eu pudesse usar uma máquina do tempo, é que somente ser compatível [com o uso comercial] não é bom o bastante”, Wilcox falou. “Isso é uma falha fatal no projeto geral do movimento [de software livre], que é dependente de voluntários ou doações. Não havia um loop incorporado de feedback econômico”.

Neste aspecto, o bitcoin tem um ótimo histórico durante a primeira década. Do mesmo jeito, ainda resta esperar para ver se o ecossistema do bitcoin proporciona um modelo autossuficiente.

Riscos parecidos

Alguns programadores acreditam que a defesa por enquadramentos legais rígidos que protegem a liberdade, acoplados com precauções inovadoras, poderiam ajudar a descentralizada “Web3” a evitar ou minimizar erros iniciais.

“Os protocolos teriam bastante flexibilidade em termos de que tipos de segurança você precisa etc., e no caminho acabamos criando a Autoridade de Certificação (Cas)… sem exatamente perceber que 20 anos mais tarde todos os CAs seriam consolidados”, Allen disse. “Era para ser possível escolher em qual CA nós confiamos. A centralização ocorre de maneiras estranhas”.

Marco Peereboom, um ex-integrante da Dell e veterano do Linux que também é o atual Líder do Desenvolvimento de Novos Sistemas da comunidade da Decred, concordou com Allen que a internet foi construída por jovens idealistas que queriam “animar a humanidade” (não muito diferente dos entusiastas das criptomoedas de hoje em dia).

“Estou extremamente decepcionado com a nossa situação atualmente”, Peerebom disse. “A quantidade de espionagem que o governo está fazendo, eu não previ isso… mais criptografia nos estágios iniciais teria feito bem à internet, e mais advocacia também”.

Neste sentido, Allen está focado no trabalho em relação a gestão das chaves e padrões de identidade na blockchain. Enquanto isso, Peereboom está trabalhando para refinar os experimentos de financiamento open source da Decred, que é como ele consegue seu sustento atualmente.

Assim como o projeto da altcoin Dash, Decred paga freelancers através de votos públicos e apoios coletados da própria rede. Além disso, os desenvolvedores podem receber dinheiro anonimamente com base nos méritos de suas contribuições.

“Até que a internet se distancie do modelo patrocinado por propagandas, só irá ficar pior”, Peereboom disse, relacionado à vigilância potencial e predominância corporativa através de modelos Web3.

“Acho que pagamentos anônimos são um recurso fundamental para qualquer criptomoeda”, ele disse. “Espero que não esteja cometendo o mesmo erro duas vezes. Mas eu realmente acredito que as criptomoedas possuem o potencial para mudar o mundo”.

Além do bitcoin

Pela perspectiva de veteranos do bitcoin como Peereboom, muitos que já estão focados em projetos de altcoin, sua fraqueza, além de cotação do bitcoin, é sua dificuldade em atualizar o software.

Ele disse que deve existir um meio-termo entre mudanças constantes e mudanças quase impossíveis de acontecer.

“Programar um software sem bugs é muito difícil”, Peereboom disse. “Você precisa de um mecanismo para lidar com mudanças consensuais.”

E mais, entusiastas da bitcoin como Peereboom e Wilcox estão ambos priorizando os aspectos das criptomoedas que reforçam a privacidade. É possível para os mecanismos de governança resistir a centralização por várias décadas? É o que Wilcox está tentando descobrir.

“Seria desonesto dizer às pessoas que isso é inevitável”, Wilcox falou.

Ele acrescentou que a Linux falhou, em sua opinião, porque o movimento “redefiniu sucesso” para alcançar adoção corporativa em vez de mudança social ampla. Enquanto instituições de maior dimensão lucram com o bitcoin, assim como a internet, os riscos da liberdade pessoal dos usuários irá aumentar.

“Haverá muitos desafios pelo caminho, e prejuízos. Gostaria de mitigar o dano o tanto quanto possível”, Allen concluiu.

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