Petição pública com 15 mil assinaturas contra festival de música portuguesa do Governo

[Atualizada às 14]

Governo decide suspender o projeto após críticas

Da Redação
Com Lusa

Uma petição pública ‘online’ pede o cancelamento imediato do TV Fest, festival de música portuguesa criado pelo Ministério da Cultura em conjunto com a RTP, previsto para começar nesta quinta-feira, e contava com mais de 14.900 assinaturas.

Para os signatários da petição, lançada na tarde de quarta-feira, a realização do TV Fest, no presente estado de emergência, é “uma medida antidemocrática e não inclusiva”.

O festival, criado no quadro de apoio ao setor da música, no âmbito da crise da pandemia covid-19, com um investimento financeiro público de um milhão de euros, prevê a realização de concertos disponibilizados, todas as noites, no canal 444 e na RTP Play, ao longo de um mês.

De acordo com o texto que sustenta a petição, a iniciativa do Ministério da Cultura “constitui uma ameaça ao ecossistema cultural português que elimina curadores, diretores artísticos, músicos, técnicos e os demais, operando através de um jogo em corrente, exclusivo, e de círculo fechado, aos seus participantes artísticos, que desclassifica a participação, representatividade e diversidade de um setor”.

A crise provocada pelo novo coronavírus levou a um cancelamento de todas as atividades artísticas, e ao encerramento das instituições públicas e privadas de cultura, deixando sem trabalho milhares de artistas das várias áreas.

O festival abrange vários estilos de música, desde o fado, ao cante alentejano e à pop, e envolve músicos de várias gerações para fazer gravações a partir de casa.

“O Ministério da Cultura não pode, em qualquer instância, criar um festival de música portuguesa, para apoiar músicos e técnicos. Não cabe ao estado criar eventos de cultura. Para isso, contamos com os agentes culturais, promotores, curadores e diretores artísticos ativos em todo o país, que atualmente viram toda a sua atividade cancelada, muitos dos quais não encontram qualquer cabimento em nenhuma linha de apoio a artistas, trabalhadores independentes e entidades”, sustentam ainda os signatários.

No entender dos peticionários, o que esperam da tutela é que “crie condições estratégicas e financeiras para que os projetos aconteçam e sejam promovidos e apoiados, em diálogo concertado com os mais variados agentes culturais, e tendo em conta as suas especificidades artísticas e técnicas, bem como pela sua geografia de ação no país”.

Apelam ainda “à proteção das comunidades artísticas e culturais, à especificidade intrínseca do seu labor, à incapacidade de tal medida responder no presente a uma multiplicidade geral de casos”.

Os signatários estão contra o TV Fest, e qualquer medida “que fomente disparidades, competição e desigualdade no acesso”.

“A classe artística necessita de um reforço claro e objetivo à linha de apoio a artistas e entidades, de um mecanismo que reforce a sua proteção social perante o estado e legisle a sua contribuição à sociedade através do reconhecimento do seu estatuto de intermitência”, argumenta ainda o texto.

O evento, anunciado na terça-feira pela RTP, tem início anunciado para esta noite, às 22:00, com Marisa Liz, Fernando Tordo, Ricardo Ribeiro e Rita Guerra.

A iniciativa está a suscitar reações nas redes sociais, como André Gago, que escreveu no Facebook: “Este Tv Fest será emitido no canal 444 e na RTPPlay, canal com publicidade paga, e será financiado pelo Ministério da Cultura. São, para já, um milhão de euros para emissões diárias com quatro artistas diferentes durante um mês, o que significa, se considerarmos que o mês tem 30 dias, 8333,33 euros por artista”.

“É óbvio, ou será óbvio, que os artistas repartirão essas verbas com os artistas e os técnicos que os acompanham neste formato particular. É óbvio, embora não se saiba exatamente como”, comenta.

Também questiona como será feita a escolha dos artistas: “Para não se comprometer com possíveis acusações de nepótico dirigismo cultural, o Ministério delega em cada artista a escolha do artista que atuará seguidamente. Assim, será uma escolha entre amigos. Tenho amigos entre esses amigos, e espero mantê-los depois do que aqui digo, mas o método parece-me enviesado”.

Outras vozes estão a marcar oposição a esta iniciativa da tutela nas redes sociais, como o ex-diretor-geral das Artes e ex-administrador do Teatro Nacional de São Carlos, Samuel Rego: “Há um ano [a ministra da Cultura] Graça Fonseca tentou impor Fernando Tordo na programação do Teatro Nacional de São Carlos. Depois de mudar a administração conseguiu o feito. Ver arquivos. É só ‘googlar’. Agora distribui 1 milhão diretamente a dedo a troco de lhe agradecerem o dinheiro que não é dela. Colocar artistas a agradecer dinheiro é humilhante, incluo as palavras penosas de Júlio Isidro a agradecer ‘pessoalmente’ à ministra”.

O músico Paulo Furtado (The Legendary Tigerman), que também comenta o festival no facebook, diz não compreender a iniciativa: “Não compreendo este método, ou mecanismo, do ponto de vista ético. A mim o que me preocupa são os artistas, técnicos e equipas que não têm como pagar a próxima refeição ou a próxima renda, e devia ser nesses que quem gere a cultura em Portugal devia pensar neste momento”.

O presidente da Associação CulturXis e diretor do Ciclo de Concertos de Coimbra, Tiago Nunes, divulgou uma mensagem na qual estranha que a cadeia de artistas seja lançada pelo grupo que atuará hoje associado “à música ligeira”.

“Por que razão é que neste grupo de 4 magníficos não há representantes da chamada música clássica, de jazz e de outros géneros musicais? E por que razão os artistas de teatro e de outras formas de arte não podem beneficiar igualmente de um apoio de um milhão do Estado português?”, questiona.

Num artigo de opinião publicado no jornal Público, a atriz e encenadora Sara Barros Leitão também se insurge contra o festival, argumentando que “não é o Ministério da Cultura que deve fazer curadoria, nem ser promotor de festivais”, e recorda que “a RTP recebe diretamente mais de metade do orçamento [do Estado] para a cultura”.

“Que sentido faz que a mesma tenha um reforço de um milhão para fazer aquilo que é já a sua missão, e para a qual já está a ser financiada?”, sustenta.

Governo suspense

Nesta tarde, o governo anunciou que o festival foi suspenso, na sequência das dúvidas e críticas que surgiram no setor, e será repensado, segundo a ministra Graça Fonseca.

“Como o setor reagiu tão rapidamente, com críticas, dúvidas e questões, nós vamos suspender [o TV Fest], ia estrear hoje, será suspenso hoje. Vamos repensar e perceber exatamente como manter este nosso objetivo de apoiar o setor da música e os técnicos e, ao mesmo tempo, dar a possibilidade de as pessoas receberem em sua casa música portuguesa”, afirmou a ministra da Cultura.

De acordo com a ministra, seriam abrangidos “160 músicos”, “de todos os estilos musicais”, a quem era pedido que “envolvessem sempre equipes técnicas”, o que significaria o envolvimento de “cerca de 700 técnicos”, ao longo dos vários programas.

Graça Fonseca explicou que estavam já gravados quatro programas e que “suspender o projeto para repensar não significa não retribuir aos 12 músicos que já trabalharam”.

Foi o apresentador que escolheu os primeiros quatro artistas, que depois iriam indicar quais os nomes que lhes sucediam. “É um processo muito democrático, mas já se sabe que nunca há unanimidade”, disse Júlio Isidro, que chegou mesmo a avançar alguns nomes para os próximos dias do TV Fest. Héber Marques, Magano, Tiago Bettencourt, Lena D’Água, Rita Red Shoes, Tomás Wallenstein, Ricardo Toscano ou Bruno Santos seriam os próximos a atuar.

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