O Trovante Luis Represas lança projeto musical no Brasil

Por Eulália MorenoEspecial para o Mundo Lusíada

 

Divulgação

O ano era o de 1976. O verão não tão politicamente quente quanto o do ano anterior. Cinco jovens, de mochilas às costas, estão de férias em Sagres, Algarve, resolvem concretizar um sonho acalentado nos bancos escolares do liceu e dão forma a um novo grupo: os Trovante, que viria a ser um marco na história da música popular portuguesa.

Eram eles os irmãos Represas, Luis e João Nuno e os amigos João Gil, Manuel Faria e Artur Costa que a partir da mítica cidade de Sagres,  berço das conquistas náuticas de Portugal, iniciaram a sua jornada musical por “mares nunca dantes navegados”.

Em sua breve passagem pelo Brasil para acompanhar o lançamento do seu último trabalho, Navegar é Preciso, Luis Represas, recebeu o Mundo Lusíada para uma entrevista exclusiva.

Alguns críticos da época definiam o nome escolhido de Trovante como algo entre “trovas e trovões”. Nada disso.

“A denominação está entre o passado, a trova, e o futuro, avante, porque queríamos ir para a frente. É assim, os Trovante, no singular, porque nunca achamos que fôssemos um grupo no plural”, esclarece Represas.  

O primeiro álbum Chão Nosso (1977), traz um forte componente político agregado a música de raiz etnográfica e agrada a crítica que vê naqueles jovens algo de novo para suceder as chamadas músicas de intervenção política, censuradas na época da ditadura que havia caído com a Revolução dos Cravos, três anos antes.

“Nós, como estudantes, fazíamos parte de grupos de militância política e ouvíamos Zeca Afonso, Adriano Correa de Oliveira, José Carlos Ary dos Santos, Paulo de Carvalho, Vitorino, Fausto, José Mario Branco e Sergio Godinho, enfim, todas as vozes que o antigo regime tentava calar. Elas eram a nossa referência musical, além de Chico Buarque e Caetano Veloso que censurados aqui, faziam grande sucesso em Portugal”.

Mudam de gravadora e editam Em Nome da Vida (1978) seguido por  Baile no Bosque (1981), um grande êxito de público e crítica, já com Fernando Júdice e Antonio José Martins integrando o grupo.

“Nesse ano de 1981 acontece o nosso primeiro contacto artístico com o Brasil quando nos apresentamos na Concha Acústica da cidade de Niterói, Rio de Janeiro, ao lado de Moraes Moreira que tinha participado conosco de um encontro musical em Lisboa” – recorda Represas. “Com ele gravamos um single Baile no meu Coração (Baião de Dois) cantado com muita garra e alegria como a celebrar o grande laço que nos uniu: a nossa Língua Portuguesa”.

Em 1983 é editado o sempre difícil álbum a seguir a um grande êxito: Cais das Colinas, onde se salienta o tema Saudade (“…há sempre alguém que nos faz pensar um pouco/há sempre alguém que nos faz falta… ah, saudade”) de João Gil que começa a ter um crescente papel de compositor. Do grupo passa a fazer parte o baterista João Salgueiro, substituindo João Nuno Represas.

No ano seguinte sai o Trovante 84 do qual se destacam temas que fazem parte da história do grupo, como Xácara das Bruxas Dançando (Carlos de Oliveira/João Gil) e Travessa do Poço dos Negros (Luis Represas/João Gil). Nesse ano o Coliseu dos Recreios de Lisboa assiste a dois memoráveis espetáculos, com lotações esgotadas, a que se seguiria o Rivoli, na cidade do Porto.

Sepes (1986) é considerado o mais difícil e introspectivo trabalho do grupo e no seu 10º aniversário, os Trovante voltam a encher os Coliseus de Lisboa e do Porto em cinco noites. Segue-se Terra Firme (1987) e uma digressão nacional de grande sucesso, que culmina com um grande concerto no Campo Pequeno para uma platéia de 8 mil pessoas. Registrado em vídeo dá origem ao duplo-álbum Trovante ao Vivo no Campo Pequeno (1988) que atinge o Disco de Platina. Um Destes Dias… (1990), o último trabalho de originais tem em Timor (João Monge/João Gil) o seu maior êxito. Essa música viria a tornar-se no hino à independência e à paz naquele território, hoje país, Timor Lorosae.

No ano seguinte, o grupo se desfaz.

“Os Trovante foi um projeto que teve começo, meio e fim. Éramos amigos antes, continuamos a ser durante e seremos sempre no depois. Sem mágoas de qualquer natureza”, diz Represas.

Só, entre Mim e Eu

Luis Represas parte então para a sua carreira a solo que já resultou em oito álbuns. O necessário distanciamento de tudo o que fizera enquanto Trovante consegue em Cuba, país que conhecera em 1977 participando de um Festival da Juventude com a música Nuvem Negra (Francisco Viana/Trovante).

“Não fui a Cuba por ideologia política. Fui porque precisava de novos espaços para viver novas experiência musicais. De Cuba eu queria a alma da sua música e a genialidade dos seus músicos. E o meu encontro com Miguel Nuñez e Pablo Milanês foi decisivo desde o primeiro álbum a solo, Represas (1993), até o mais recente Olhos nos Olhos (2008)”, relembra.

Em abril de 2000 apresenta-se ao lado de Daniela Mercury na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, e no Parque do Ibirapuera em São Paulo a convite do Grupo Pão de Açúcar.

“Nessa altura tive a certeza de que o público brasileiro poderia gostar do meu trabalho. Claro que a maioria das pessoas ali estava para ouvir Daniela, mas também me ouviram com atenção. Também participei do projeto Atlântico, de Eugênia Melo e Castro e Nelson Motta, ao lado de Gal Costa. Foram momentos inesquecíveis”.

No verão de 2004 durante o Rock in Rio em Lisboa canta para um público de mais de 400 mil pessoas e aproxima-se do produtor Marco  Mazzola  e de Martinho da Vila.

Em setembro de 2005 sobe ao palco do Coliseu dos Recreios de Lisboa como convidado de Simone com a qual canta Feiticeira (Luis Represas/ Francisco Viana), do seu repertório, Yolanda (Pablo Milanês) e Sangrando (Luis Gonzaga Jr.) do repertório da cantora brasileira.

“Todo intérprete tem os seus sonhos. Um dos meus era cantar com Simone. Ela para mim sempre foi um mito. Difícil descrever a emoção de partilhar aquele palco com essa voz única da música brasileira”.

No final de 2007 é o momento de Represas retribuir o convite a Simone que participa do seu álbum Olhos nos Olhos interpretando a música Desencontro (Margarida Pinto Correa/Luis Represas):

“Quando peguei na letra e comecei a colocar a música era como se já ouvisse Simone a cantar no meu ouvido. Esse álbum tem Sagres como a sua música de trabalho, mas Desencontro é tão solicitada nos meus concertos que será editada em CD-single”.

Esse álbum gravado entre Cuba e Rio de Janeiro conta ainda com as participações dos cubanos Pablo Milanês em América (Luis Represas/João Gil) e Liuba Maria Hevia, Pessoas Felizes (João Monge/Luis Represas), além do baixista brasileiro Marcelo Mariano em Vôo da Garça (Luis Represas).

Navegar é Preciso

O projeto é uma parceria do produtor Marco Mazzola e Martinho da Vila, responsáveis pela concretização da idéia de trazer a música de Represas para o Brasil. O álbum, Navegar é Preciso, editado pela MZA Music para o mercado brasileiro, traz um repertório escolhido pelos três e conta com algumas participações especiais, dentre elas a de Zélia Duncan em Meu Erro (Herbert Viana), Arranco de Varsóvia em Feiticeira (Luis Represas/Francisco Viana) e do próprio Martinho, em Viajando e  na homenagem a Dorival Caymmi em Oração de Mãe Menininha.

“É com muita humildade que me aproximo da música brasileira, com a certeza de que tenho muito a aprender com os seus músicos, seus intérpretes, produtores e público. É preciso navegar entre os nossos países, não no sentido de necessidade imperativa mas sim como um intercâmbio cultural, uma viagem com destino certo e preciso”.

Em princípios de novembro Luis Represas apresenta-se em Moçambique e nos dias 20 e 23 desse mesmo mês em Havana e em Santiago de Cuba. “Ainda não agendamos os espetáculos para apresentar esse álbum aos brasileiros e a comunidade luso-brasileira, mas certamente isso acontecerá muito em breve e será um enorme prazer reencontrá-los”, conclui.

E Luis Represas se despede a caminho do espetáculo “Amigo é Casa” de Simone e Zélia Duncan que naquele dia acontecia em São Paulo. Sentado na platéia, recebe no final do show uma saudação especial de Zélia e uma rosa vermelha de Simone. Carinhos de boas vindas para um compositor e intérprete com lugar garantido na história da música popular de Portugal.

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