O Ibira é sempre uma surpresa. Por Paulo Lourenço

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Por Paulo Lourenço

Passear pelo parque Ibirapuera ao fim de semana tornou-se um dos meus grandes prazeres em São Paulo. Não dispenso um passeio de bicicleta ao sábado com os meus dois filhos ao longo dos seus lagos ou nos trilhos do seu horto – que nunca termina sem uma água de coco no ponto do costume.

O Ibira – como aqui lhe chamam – nunca desilude. E o vaivém de pessoas de todas as classes sociais, de todas as idades, desportistas, skaters, ciclistas, artistas, performers e músicos acentua-se ao domingo, dando ao parque uma diversidade e um colorido que são afinal de contas a matéria de que é hoje feita a sociedade brasileira.

Neste domingo, levei na bicicleta o meu filho para ver e ouvir a Orquestra Gulbenkian. E aqui está o extraordinário: com o céu a abrir-se aos poucos, o relvado do elegante Auditório Ibirapuera foi sendo tomado por centenas de pessoas para escutar uma orquestra portuguesa a executar Mendelssohn e Lalo. Tão simples quanto isto.

Sentados ou deitados, ao lado das bicicletas ou nas mantas de piquenique, muitos paulistas, ali destinados ou de passagem, deixaram-se tomar pela suavidade e beleza das interpretações, onde não faltou nem um grande intérprete brasileiro (o violoncelista António Menezes), nem um grande regente internacional (Lawrence Foster) nem, no encore, uma curta mas vibrante composição portuguesa (Joly Braga Santos). Ocorreu-me então: uma espécie de Holland Park tropical.

Encontrei vários amigos brasileiros e portugueses. Muitas famílias. Melómanos. Curiosos. Gente que gosta de beleza em tons simples. O som foi chamando aos poucos as pessoas em redor, entre os 160 hectares deste que o The Guardian qualificou em 2015 como o melhor parque urbano do mundo e que é hoje provavelmente o mais frequentado do Brasil.

O ambiente era o de sempre: a mesma tranquilidade dominical, a mesma luminosidade, a alegria e a paz da grande metrópole descomprimida no parque, desta vez com o grandioso auditório virado para fora, ainda majestoso nas linhas emblemáticas de Oscar Niemeyer, mas totalmente aberto aos jardins do parque como se se tratasse de um convite despretensioso para que todos, mais velhos ou mais novos, em fato de treino ou traje de passeio, procurando o concerto ou descobrindo-o sem querer a caminho de um dos vários museus do parque – desfrutassem a surpresa de uma grande orquestra europeia num domingo como os outros.

O meu filho de 4 anos deita-se na relva, encostado a mim, com água e batatas fritas nas mãos. Começou a fazer calor. Podíamos estar noutro lugar qualquer, mas aqui a natureza e música conspiravam para nos relaxar. Como muitas outras famílias, estávamos no grande camarote natural do parque, distendidos e bem-dispostos, a ouvir música. E oferecer música erudita de qualidade a um grande público é um imenso privilégio que a Gulbenkian ajudou a tornar possível em São Paulo.

Voltei para casa com o coração ao largo.

Por Paulo Lourenço
Cônsul-geral de Portugal em São Paulo para o Díário de Notícias

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