Museus brasileiros dão a largada para celebrar os 200 anos de Independência

Da Redação

Cartas, textos, pinturas, gravuras, retratos e diversos outros itens são capazes de oferecer um espelho sobre passado e uma oportunidade de reflexão sobre o presente e o futuro. Os museus desempenham um relevante papel nesse contexto e se preparam, desde já, para celebrar o ato que representa a transformação do Brasil em uma nação autônoma e soberana: a Independência.

As comemorações pelo bicentenário da Independência, celebrado em 2022, contam com o patrimônio museológico brasileiro. Instituições de todo o País preparam um cronograma de atividades e alguns museus já iniciam atividades em torno do tema – considerado fundamental para o entendimento da identidade nacional. O Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), vinculado ao Ministério da Cidadania, defende o protagonismo dessas instituições no pensamento, na pesquisa e na promoção das comemorações do bicentenário.

“Entendemos os museus como protagonistas desse processo. Eles preservam mais de 69 milhões de bens culturais relativos à memória do Brasil e recebem milhões de visitantes por ano. É possível desenvolvermos pensamentos sobre parte desse acervo que dizem respeito à Independência”, afirma a diretora de Difusão, Fomento e Economia dos Museus do Ibram, Eneida Lemos.

Para a diretora, o rico patrimônio, aliado ao corpo técnico especializado, pode resultar em um trabalho diferenciado e que comunica com diferentes faixas de público. “A gente quer atrelar os trabalhos com a possibilidade de pesquisa dos acervos, para ver qual a novidade ou a releitura que pode ser feita desse material. É uma possibilidade de revisitar esses acervos, fazer uma pesquisa consistente e, a partir daí, trabalhar o tema”, conclui.

O Museu Histórico Nacional (MHN), criado em 1922 justamente como uma das celebrações do centenário da Independência, já iniciou esse trabalho. De novembro de 2018 a fevereiro deste ano, o museu – localizado no Rio de Janeiro (RJ) – apresentou a exposição “O retrato do rei dom João VI”, visitada por aproximadamente 10 mil pessoas. Para realizar a mostra, o curador e diretor do MHN, Paulo Knauss, investigou o acervo do próprio museu e recebeu objetos de coleções particulares e de instituições brasileiras e portuguesas, reunindo, por fim, cerca de 60 itens que ajudaram a construir a imagem de Dom João.

Knauss explica que a contribuição de Dom João VI para o Brasil é fundamental para o entendimento do processo de Independência. “Por que eu defendi o tema? A gente esquece que Dom João teve como título imperador do Brasil. É impossível compreender o processo da independência sem compreender o processo de interiorização da metrópole, que representou a transferência da corte para cá”, afirma o diretor.

Dom João VI deixou legados em terra brasileira: abriu os portos às nações amigas, fundou o Jardim Botânico e a Biblioteca Nacional no Rio, além do primeiro banco do País, entre outros feitos. “Todo projeto artístico que se firma após a Independência foi promovido ainda no período joanino”, destaca Knauss. O monarca contribuiu para a renovação do ensino de artes no Brasil com a chegada da Missão Artística Francesa, em 1817, que deu origem à Academia Imperial de Belas Artes – futura Escola Nacional de Belas Artes.

Na exposição, o curador propõe um percurso pelo retrato biográfico, de João menino ao rei Dom João VI, a leitura política da retratística do rei e o resgate de uma pintura de 1814, desconhecida do público. De autoria de Antônio Alves e pertencente ao acervo do Museu Dom João VI, da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a pintura de destaque que retrata o monarca teve a restauração iniciada em um ateliê aberto durante a exposição, no Rio.

Dom João VI foi, possivelmente, o rei português mais retratado na história da pintura e da gravura, pois precisava promover sua imagem para se fazer presente em Portugal enquanto viveu no Brasil – entre 1808 e 1821.

Segundo Knauss, a ideia é reabrir a mostra em Brasília, no segundo semestre de 2019, com a pintura – exemplo de preservação do patrimônio cultural e principal legado da mostra – já restaurada.

Segundo o diretor do Museu Histórico Nacional, as exposições retrospectivas são importantes para a consolidação de um conhecimento, em todos os cidadãos, sobre a história do País. “A gente quer mobilizar a pessoa comum e compartilhar esse sentimento de ser brasileiro. Junto com isso, vem o conhecimento. Mas para que conhecer? Conhecer para saber como é que a gente se torna brasileiro. Você se sente brasileiro porque nós nos construímos como tal”.

O MHN – administrado pelo Ibram – tem um papel ainda mais crucial nesse momento, por seu caráter temático, defende. “O nosso museu se dedica à história do Brasil e o momento em que o Brasil se institui como Estado Nacional é o da Independência. Vamos ajudar o brasileiro a entender o que significa isso no processo de afirmação do Estado, no processo do brasileiro se reconhecer como brasileiro”, completa.

Nesse sentido, outra exposição, dessa vez dedicada a Dom Pedro I, está prevista para ser aberta pelo Museu Histórico Nacional. Chamada de “D. Pedro I: a história do personagem da história”, a mostra deverá entrar em cartaz no próximo ano, também como parte das comemorações do bicentenário da Independência. Foi Dom Pedro quem declarou a Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, e outorgou a primeira Constituição, em 1824.

De olho na formação de crianças e jovens, o MHN ainda pretende criar uma série de videogames com enredos históricos, que levam a descobrir acervos dos museus. O primeiro projeto em desenvolvimento, dedicado à Guerra dos Farrapos, já conta com um teaser (vídeo promocional) publicado no YouTube.

“Isso é inovação tecnológica para o patrimônio, uma forma de fazer a garotada conhecer o patrimônio por meio do jogo. E o País inteiro pode ver, porque é acessado pelo celular”, comenta Knauss. O diretor reforça que, apesar da temática bélica, trata-se de um jogo educativo, por meio do qual acervos são revelados ao usuário.

Outros museus administrados do País, especialmente aqueles administrados pelo Instituto Brasileiro de Museus, também contam com diversas atividades previstas para a comemoração do Bicentenário da Independência. Entre elas, estão a realização de seminários e exposições temáticas, além do desenvolvimento de produtos específicos relacionados ao tema.

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