Livro do Brasil chega às livrarias portuguesas 60 anos depois de proibido pela ditadura Salazar

Da redação com Lusa

O livro “Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada”, de Carolina Maria de Jesus, escritora que deu voz aos dramas dos moradores de favelas do Brasil, em 1960, chega às livrarias portuguesas 60 anos depois de ter sido proibido pela ditadura de Oliveira Salazar.

Lançada pela VS Editor, de Vasco Santos, a obra, escrita em forma de diário com a colaboração do jornalista Audálio Dantas – que conheceu Carolina Maria de Jesus quando fazia uma reportagem na favela do Canindé, em São Paulo, em 1958, e incentivou a sua carreira literária -, traz relatos do quotidiano da autora, de familiares e de vizinhos, da pobreza que os tolhia, das precárias condições de vida na favela onde morava.

“Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada” tem início em 12 de julho de 1955: “Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos géneros alimentícios impede a realização dos nossos desejos. Somos escravos do custo de vida”, escreve Carolina Maria de Jesus, que sabe “como é pungente a condição de mulher sozinha”.

Para o professor, pesquisador e jornalista brasileiro Tom Farias, autor de “Carolina – Uma Biografia”, que vê a proibição da obra em Portugal, durante a ditadura, como motivo para o desconhecimento da escritora nos países africanos de língua portuguesa, a edição atual faz o seu resgate na lusofonia, como afirma, em entrevista à agência Lusa.

Quanto ao Brasil, para Tom Farias, a indignação social de Carolina de Jesus “continua atual”.

“Mulher negra, catadora de lixo, ex-empregada doméstica, mãe solteira com três filhos, uma semi-alfabetizada que amava ler e escrever”, Carolina Maria de Jesus foi “muito mais do que ‘a favelada’ do Canindé”, afirma a investigadora Fernanda R. Miranda, da Universidade de São Paulo, no prefácio da edição portuguesa.

“Carolina Maria de Jesus tem sua jornada associada à desordem social, pois não aceita para si o rumo de vida orientado pelos outros – sua vida de trabalhadora braçal, que vai de babá a empregada doméstica, de cozinheira a operária fabril”, escreve por seu lado Tom Farias, num artigo para o número de abril deste ano da revista Periferias, do Rio de Janeiro.

Segundo o investigador, em entrevista à Lusa, a escritora brasileira, que chegou a ser chamada de “Shakespeare da cor”, provavelmente descendia de moçambicanos traficados e escravizados no Brasil, já que seu apelido de infância, ‘Bitita’, dado pelo avô ex-escravo Benedicto José da Silva, seria um diminutivo singular feminino de ‘bita’, palavra que teria correlação com o termo feminino ‘mbita’, da língua xichangana.

Fruto de uma relação extraconjugal mantida por sua mãe, a autora brasileira foi estigmatizada desde a infância, porque à época de seu nascimento, em 14 de março de 1914, a sociedade de sua cidade natal, Sacramento, no estado de Minais Gerais, considerava a infidelidade um crime.

Tom Farias, também coordenador do Observatório da População Negra, da Universidade Zumbi Palmares, em São Paulo, explicou à Lusa que Carolina Maria de Jesus chegou a frequentar uma escola, durante cerca de dois anos, mas teve de a abandonar quando a mãe se mudou para uma fazenda, migrando mais tarde para o estado de São Paulo e a sua capital, depois de ter sido presa duas vezes.

Na primeira vez, a autora de “Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada” foi acusada injustamente de roubo por um padre. Na segunda, acabou associada à prática de bruxaria, depois de vista a ler um dicionário, cuja capa foi confundida com a do “Livro de São Cipriano”, contou o biógrafo à Lusa.

Já em São Paulo, Carolina Maria de Jesus continuou a viver na miséria, por muito tempo, até conhecer Dantas, jornalista que a orientou no processo de edição e publicação de “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, lançado em 1960.

O livro fez um enorme sucesso, vendendo milhares de exemplares em poucos dias, e tornou-se a grande obra de sua carreira literária, marcada por uma ascensão meteórica, a que se seguiu uma queda igualmente veloz, acelerada pela ditadura militar brasileira (1964-1985).

Tom Farias relatou que o livro ficou entre os mais vendidos nos Estados Unidos, onde foi editado em 1962. Foi publicado na Alemanha, Israel e em diversos países europeus. Mesmo assim, a autora começou a ter problemas financeiros depois de o seu segundo livro, “Casa de Alvenaria – Diário de uma Ex-favelada”, ter fracassado no mercado editorial.

Carolina escreveu ainda “Provérbios e Pedaços da Fome” e “Diário de Bitita: Um Brasil para Brasileiros”, a sua derradeira obra, que seria publicada em França, ainda nos anos 1960, pelas Éditions Métailié (“Journal de Bitita”), mas que só chegaria ao Brasil em 1986, depois da ditadura.

Tom Farias acredita que Carolina Maria de Jesus provavelmente saiu do bairro de Santana, onde tinha conseguido comprar uma casa, para passar a morar num terreno no bairro de Parelheiros, na zona rural da cidade de São Paulo, para evitar perseguições durante o regime militar.

As posições políticas de Carolina Maria de Jesus desagradavam aos militares, recorda o biógrafo. À época do golpe, ela era internacionalmente conhecida por defender as reformas de base social do ex-Presidente brasileiro João Goulart, deposto pelos generais, por falar a favor dos direitos dos trabalhadores e de líderes políticos comunistas de Cuba e da antiga União Soviética.

“Carolina de Jesus era mulher e sua indignação, neste livro, sua indignação social [diz muito] sobre o Brasil pós-abolição, pós-república, que não deu certo. E este Brasil que não deu certo continua atual demais. Por isso, o livro continua sendo tão flamejante e ‘impacta’ na leitura, porque diz o que a gente não quer ver”, disse Tom Farias à Lusa.

Segundo o investigador, mesmo hoje, ninguém no Brasil “quer ver a favela, ninguém quer ‘acessar’ à favela”. “As favelas estão aí abandonadas pelo poder público, que só entra com o pé na porta dos barracos para atirar nos moradores”.

O especialista disse ainda que Carolina Maria de Jesus não lançou um livro, ela fez uma revolução através da escrita.

“Audálio [Dantas] diz que Carolina de Jesus fez uma revolução através da favela, do barraco, fez uma revolução social através de uma escrita pujante que quis chamar a atenção das autoridades para a situação do pobre e dos miseráveis”, acrescentou Farias, cuja biografia que escreveu sobre a autora, será apresentada na próxima Feira do Livro de Lisboa, em setembro.

A mesma perspectiva é defendida por Fernanda R. Miranda, no prefácio da edição portuguesa do diário: “O texto de Carolina é acima de tudo um texto que interroga, não só a sociedade e a política, mas também a literatura, os processos de tornar-se autor e de se manter autor”, sobretudo quando o lugar do autor se mantinha como sinônimo de “homem branco”. “Por essa razão, ‘Quarto de Despejo’ provocou um abalo sísmico no sistema literário, porque foi capaz de traduzir em ato um princípio da autora: ‘Na minha opinião, escreve quem quer'”.

Para Tom Farias, a obra de Carolina de Jesus, não só com “Quarto de Despejo”, mas com todos os seus livros, “traz o dom da revolta e da revolução (…). É a mulher do povo que escreve, literariamente, ‘fabularmente’, poeticamente, as angústias do povo. No plano estético, [Carolina de Jesus] sai da condição de ‘iletrada’ para escritora”.

No artigo publicado na revista Periferias, o ensaísta coloca a autora, a par de Jorge Amado, Clarice Lispector, Raquel de Queiroz. “Sua narrativa é pungente, discursiva, moderna”.

Tom Farias disse à Lusa que a proibição do livro em Portugal, pela ditadura de Salazar, terá impedido a sua publicação nos países africanos de língua portuguesa, onde até hoje a obra não foi editada.

“Por ser um livro sobre a miséria brasileira, um livro de protesto, Carolina de Jesus teve alguns problemas em países como Portugal. Salazar via o livro como uma coisa abjeta, que não serviria em nada para a sociedade portuguesa e, em 1961 [ano de início da Guerra Colonial em Angola], proibiu a entrada do livro em Portugal, e isto repercutiu muito. Carolina de Jesus escreveu sobre isto e deu muitas entrevistas”, disse.

Tom Farias, na sua conta no Instagram, recorda o fato e uma reação de Carolina, então reproduzida pela imprensa: “Ouvi dizer que o sr. Oliveira Salazar não gosta de preto. Ouvi dizer que o sr. Oliveira Salazar tem de branco só a pele.” Noutra citação, a escritora dizia ser “típico de ditador querer calar a voz do povo”.

Para o investigador e biógrafo, o lançamento da primeira edição portuguesa de “Quarto de Despejo” resgata a autora e projeta o seu nome junto do público português, décadas depois de sua ascensão e queda, e da sua morte, em 13 de fevereiro de 1977.

“Esta edição portuguesa faz este resgate da Carolina de Jesus na lusofonia”, concluiu.

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