Especial 200 anos: Na Capital do Reino, Pompa e Circunstância

O GRANDE DIA >> “Chegada do Príncipe Dom João a Igreja do Rosário”, Óleo de Armando Martins Viana, Museu da Cidade, Rio de Janeiro, Brasil

Luiz Gonçalves dos Santos, Padre Perereca em Memórias para servir à História do Reino do Brasil

“Eram duas para as três horas da tarde, a qual estava muito fresca, bela e aprazível neste para sempre memorável dia 7 de março de 1808, que desde a aurora o sol nos havia anunciado como o mais ditoso para o Brasil. Parecia que este astro brilhante, apartando a si todo obstáculo, como que se regozijava de presenciar a triunfante entrada do primeiro soberano da Europa na mais afortunada cidade do Novo Mundo”.

No dia 14 de janeiro chegara a notícia ao Rio de Janeiro da partida da Corte Portuguesa para o Brasil. O Vice-Rei D. Marcos de Noronha e Brito, o Conde Dos Arcos, desconhecendo que haveria uma escala na Bahia começou os preparativos para organizar a recepção tomando todas as medidas para acomodar da melhor maneira possível a grande comitiva do Príncipe dom João. A sua residência, o Palácio dos Vice-Reis, situado na Praça do Paço, onde hoje é a Praça 15 de Novembro, que hospedaria o Príncipe Regente e a sua família foi totalmente desocupado e, através de dois passadiços, ligados ao Convento do Carmo e à igreja que seria a capela real. A Câmara e a Cadeia Pública transferidas para outros locais, emprestaram seus prédios para receber os conselheiros da Coroa e outros notáveis da Corte. Emissários foram enviados às capitanias vizinhas de São Paulo e Minas Gerais para encomendar grandes provisões de víveres.

Mal tinham dado início aos preparativos quando na tarde de 17 de janeiro, sete embarcações portuguesas e três inglesas entraram pela Baía da Guanabara. Nos mares revoltos ao largo da Ilha da Madeira parte da esquadra tinha se perdido e chegava ao Rio de Janeiro depois de fazer uma escala em San Tiago, no arquipélago de Cabo Verde. A bordo do “Rainha de Portugal” vinham as duas irmãs da Rainha dona Maria I, Dona Maria Benedita e Dona Maria Ana, e Maria Francisca e Isabel Maria, filhas de dom João e de dona Carlota. Convidadas a desembarcar pelo Conde dos Arcos, preferiram ficar a bordo durante mais de um mês até saberem que o restante da família tinha chegado a salvo à Bahia.

No dia 26 de fevereiro a Corte Portuguesa partia de Salvador em direção ao Rio de Janeiro. A capital do Brasil julgava-se pronta para tornar-se a capital do reino.

A 6 de Março a população da cidade alvoroçou-se. De Cabo Frio chegava o aviso de que a esquadra portuguesa estava à vista. O povo, tomou o litoral e os montes e na manhã seguinte podiam ser avistados os navios em frente ao Pão de Açucar. Às três da tarde uma intensa artilharia dos fortes e dos navios ancorados no porto abafou os gritos de vivas da população que saudava a entrada no porto do Príncipe Real e da frota por eles capitaneada.

Junto à Ilha das Cobras, onde a esquadra fundeou, havia centenas de embarcações de todo tipo e tamanho, com autoridades e pessoas do povo. O Vice-Rei, Conde dos Arcos, acompanhado das infantas portuguesas, subiu a bordo do “Príncipe Real” tão logo foram lançadas as ancoras. Depois de três meses de separação, dona Carlota reencontrou as suas filhas. Depois dos navios terem atracado muitas foram as cenas comoventes quando famílias inteiras que tinham sido divididas pelas tormentas do Atlântico, finalmente se reuniam. Depois dos cumprimentos do Conde dos Arcos, o Príncipe Regente recebeu as homenagens do Senado da Câmara e de todas as autoridades.

Na cidade, informada de que a corte desembarcaria no dia seguinte, ninguém mais trabalhava. O povo enchia as ruas, cantando, dançando, gritando de alegria. A noite, acenderam-se as luminárias, e ninguém dormiu. A manhã de 8 de Março de 1808 veio encontrar toda a população do Rio de Janeiro à espera do desembarque de dom João e de sua Rainha, dona Maria I.

Só às quatro da tarde, porém, a família real desembarcou. As mais ricas tapeçarias pendiam das janelas das casas localizadas nas ruas por onde deveria passar o cortejo real, segundo previa o cerimonial prescrito, e que correra pela cidade na véspera. As senhoras traziam suas jóias e melhores roupas, e assustavam-se com o troar das salvas de canhões e o incessante repicar dos sinos. Em torno da frota portuguesa dezenas de embarcações embandeiradas mostravam os remos erguidos pelas tripulações em continência. Dom João passou do “Príncipe Real” para um bergantim escarlate e dourado, coberto com um dossel púrpura ao mesmo tempo que sua mulher, dona Carlota Joaquina desembarcava do “Afonso d´Albuquerque” junto com os príncipes e as infantas. Só dona Maria I ficou ainda a bordo.

No cais, as mais destacadas figuras do clero receberam o príncipe e sua mulher, que se dirigiram para um altar ali especialmente armado.

Depois de orar, Dom João e sua comitiva seguiu para a Igreja do Rosário, a fim de assistir a um “Te Deum”. Do cais até a igreja, todo o caminho estava enfeitado com palmas e bandeiras. O Largo do Paço, a Rua Direita e a do Rosário estavam cobertos de areia fina e de flores.

O orgulho do Rio de Janeiro em receber a Corte revelava-se na maneira como um grupo de pessoas notáveis elevava bem alto o estandarte da cidade, no meio do cortejo em direção à Igreja do Rosário. O povo, aturdido por aquele espetáculo nunca visto ou imaginado, ouvia as fanfarras dos clarins, o repique dos sinos de todas as igrejas, o espocar dos fogos de artifício, as salvas de artilharia e cobria-se também com as pétalas de flores lançadas sobre o cortejo pelas mocinhas e crianças.

Em frente à Sé estava toda a irmandade para receber a Família Real. Dentro da igreja, a comitiva seguiu o Príncipe em seus agradecimentos a Providência por haverem chegado ao Brasil. Saindo da Sé, os príncipes foram de coche para o Paço Real parando a cada instante para dar tempo aos soldados da escolta de desfazerem as ondas do povo.

Mais uma noite a população da cidade permaneceu acordada, cantando e dançando, sob o brilho das luminárias que coloriam as ruas e as casas. O Príncipe Regente a todo instante precisava interromper a recepção que se dava numa das salas do Paço, para chegar a janela e atender o povo que reclamava sua presença.

No dia 10 de Março, o Príncipe Dom João, à frente dos demais membros de sua família foi a bordo do “Príncipe Real” a fim de trazer para terra a Rainha D.Maria I. Tal como havia feito ao filho, a população reagiu em relação à mãe. Desde o cais até o Paço Real o povo saudou sua soberana, que era conduzida numa liteira.

Nove dias de júbilo e nove noites de muita iluminação e alegria duraram as festas de recepção à Família Real no Rio de Janeiro. Mesmo depois as comemorações pareciam não haver terminado porque das outras capitanias chegavam a todo instante governadores e funcionários, bispos e representantes do povo, a fim de saudar o Príncipe Regente e sua mãe, a Rainha D. Maria I. Aquela movimentação toda, o aparato de que se revestia a chegada no Paço Real de cada autoridade civil ou eclesiástica, tudo deslumbrava o povo, que via a sua cidade transformar-se numa verdadeira Corte.

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